quinta-feira, outubro 30, 2008

Adélia Prado sempre sonha que uma coisa gera, nunca nada está morto. Para ela, o que não parece vivo, aduba, e o que parece estático, aparece.

Leitura

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras,
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado

Mais sobre Adélia Prado em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ad%C3%A9lia_Prado

3 comentários:

cristiane disse...

o original do texto é "cadê minha binga" e não "pinga"...

JOSE ANTONIO LEAO RAMOS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O Editor disse...

Cristiane,

Obrigado pela correção.

O Editor