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quinta-feira, agosto 01, 2013

Um poema de amor de Bocage. Por incrível que pareça, do mais puro amor.


A rosa

Tu, flor de Vénus,
Corada Rosa, 
Leda, fragrante, 
Pura, mimosa, 

Tu, que envergonhas 
As outras flores, 
Tens menos graça 
Que os meus amores. 

Tanto ao diurno 
Sol coruscante 
Cede a nocturna 
Lua inconstante, 

Quanto a Marília 
Té na pureza 
Tu, que és o mimo 
Da Natureza. 

O buliçoso, 
Cândido Amor 
Pôs-lhe nas faces 
Mais viva cor; 

Tu tens agudos 
Cruéis espinhos, 
Ela suaves 
Brandos carinhos; 

Tu não percebes 
Ternos desejos, 
Em vão Favónio 
Te dá mil beijos. 

Marília bela
Sente, respira, 
Meus doces versos 
Ouve, e suspira. 

A mãe das flores, 
A Primavera, 
Fica vaidosa 
Quando te gera; 

Porém Marília 
No mago riso 
Traz as delícias 
Do Paraíso. 

Amor que diga 
Qual é mais bela, 
Qual é mais pura, 
Se tu, ou ela; 

Que diga Vénus... 
Ela aí vem... 
Ai! Enganei-me, 
Que é o meu bem.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)

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segunda-feira, agosto 20, 2012

Manuel Maria Barbosa du Bocage procura na razão a cura para os males do amor. E pergunta: quantas vezes, Amor, me tens ferido, e quantas vezes, Razão, me tens curado?


Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Razão, me tens curado?
Quão fácil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até regia a mão do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da existência à morte!

Travam-se gosto, e dor; sossego e lida;
É lei da natureza, é lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)

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sábado, novembro 28, 2009

Quem poderia escrever no século 18 um soneto com o título Autobiografia e com tanta sinceridade? Só ele, o Bocage, Manuel Maria Barbosa du Bocage.


Autobiografia


De cerúleo gabão não bem coberto,

passeia em Santarém chuchado moço,

mantido, às vezes, de sucinto almoço,

de ceia casual, jantar incerto;

dos esbrugados peitos quase aberto,
versos impinge por miúde e grosso;
e do que em frase vil chamam caroço,
se o que, é vox clamantis in deserto;

pede às moças ternura, e dão-lhe motes;
que, tendo um coração como estalage,
vão nele acomodando a mil peixotes.

Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
cercado de um tropel de franchinotes?
– É o autor do soneto: – é o Bocage.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)

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terça-feira, setembro 22, 2009

Bocage diz que seu ser evaporou na luta insana do tropel de paixões que o arrastava. E pede a Deus que saiba morrer o que viver não soube.


Meu ser evaporei na luta insana


Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos

Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)

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quinta-feira, agosto 27, 2009

Quando à morte a luz me roube, ganhe um momento o que perderam anos. E saiba morrer o que viver não soube, diz um bem-comportado Bocage .


Saiba morrer o que viver não soube


Meu ser evaporei na lida insana
do tropel de paixões que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando à morte a luz me roube
ganhe um momento o que perderam anos
saiba morrer o que viver não soube.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)

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quinta-feira, julho 02, 2009

No belo soneto de Bocage, amor ou desfalece, ou pára, ou corre. E segundo as diversas naturezas, um porfia, este esquece, aquele morre.


Nascemos para amar - Soneto LXXII


Nascemos, para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura.
Tu és doce atrativo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão nalma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na idéia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
e segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)

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quarta-feira, março 04, 2009

Duzentos anos atrás, era assim que Manuel Maria du Bocage sentia o amar dentro do peito. E depois da meia-noite, o maior gosto que há no mundo.


Amar dentro do peito


Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)

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sexta-feira, agosto 15, 2008

Rimando pudibunda com rubicunda, Bocage nos mostra o amor do século XVI. O tempo passa, mas o amor continua o mesmo do feliz casal de antão?


Levanta Alzira os olhos pudibunda

Levanta Alzira os olhos pudibunda
Para ver onde a mão lhe conduzia;
Vendo que nela a porra lhe metia
Fez-se mais do que o nácar rubicunda:

Toco o pentelho seu, toco a rotunda
Lisa bimba, onde Amor seu trono erguia;
Entretanto em desejos ardia,
Brando licor o pássaro lhe inunda:

C'o dedo a greta sua lhe coçava;
Ela, maquinalmente a mão movendo,
Docemente o caralho embalava:

"mais depressa" – lhe digo então morrendo,
Enquanto ela sinais do mesmo dava;
Mística pívia assim fomos comendo.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

(1766-1805)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Maria_Barbosa_Du_Bocage

sábado, julho 12, 2008

Manuel Maria du Bocage sempre surpreendeu com a sua poesia. Mas encantou a todos com o epitáfio para lá quando ele perdesse a humanidade.


Lá quando em mim perder a humanidade


Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:"

Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro."

Manuel Maria Barbosa du Bocage,
(1765-1805)

Mais sobre Manuel Maria du Bocage em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bocage

sexta-feira, abril 11, 2008

Na poesia erótica de Bocage, a donzela ansiosa perde os sentidos. Porém vai com tal ânsia trabalhando, que os homens é que vêm a ser fodidos.


Soneto da donzela ansiosa

Arreitada donzela em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras sutis pachacho estreito.

De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica, nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.

A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.

Como é inda boçal, perde os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.

Manuel Maria Barbosa de Bocage

(1765-1805)

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terça-feira, dezembro 12, 2006

Para Bocage, quão semelhante era seu fado ao de Camões. Até nos gostos vãos, também o carpir de saudoso amante.


Camões, grande Camões, quão semelhante

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante.

Como tu, junto ao Ganges sussurante,
Da penúria cruel no horror me vejo.
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas . . . oh, tristeza! . . .
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)
Mais sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Maria_Barbosa_du_Bocage

quarta-feira, outubro 11, 2006

Bocage chegou a ser preso por ser "desordenado nos costumes". Mas soube morrer o que viver não soube.


Saiba morrer o que viver não soube

Meu ser evaporei na lida insana
do tropel de paixões que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta e si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
ganhe um momento o que perderam anos
saiba morrer o que viver não soube.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)

Mais sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage* em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bocage

quarta-feira, setembro 27, 2006

O Bocage sempre me surpreendeu, mas me encantou, confesso, o epitáfio encomendado para quando lá se perdesse a humanidade.


Lá quando em mim perder a humanidade


Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:"

Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro."

Manuel Maria Barbosa du Bocage, o Bocage.
(1765-1805)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Bocage

sexta-feira, julho 28, 2006

Ainda não leu um poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage? Ou Bocage, como ficou conhecido?


Arreitada donzela em fofo leito

Arreitada donzela em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtis pachocho estreito.

De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.

A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.

Como é inda boçal, perder os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805)

Mais sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Maria_Barbosa_du_Bocage