Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

Essa vida de eremita, segundo Leminski.


Essa vida de eremita

Essa vida de eremita
é, às vezes, bem vazia.
Às vezes, tem visita.
Às vezes, apenas esfria.

Paulo Leminski
(1944-1989)

Mais sobre Paulo Leminski em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Leminski

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012

Um senhora pediu um poema de amor ao poeta. Mas sem objeto, diz Alexandre O'Neill, o poema é uma redação dos 100 Modelos de Cartas de Amor.


Redacção

Uma senhora pediu-me
um poema de amor.
Não de amor por ela,
mas "de amor por amor".
À parte aquelas
trivialidades "minha rosa", "lua do meu céu interior",
que eu podia eu dizer
para ela, a não destinatária,
que não fosse por ela?
Sem objecto, o poema
é uma redacção
dos 100 Modelos
de Cartas de Amor.

Alexandre O'Neill
(1924-1986)

Mais sobre Alexandre O'Neill em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_O%27Neill

Terça-feira, Fevereiro 14, 2012

Pobre coração vazio e frio, sem guardar a lembrança de um amor. Para Castro Alves, é apenas um coração que nem mesmo o oceano inteiro poderia encher.


A um coração

Ai! Pobre coração! Assim vazio
E frio
Sem guardar a lembrança de um amor!
Nada em teu seio os dias hão deixado!...
É fado?
Nem relíquias de um sonho encantador?

Não, frio coração! É que na terra
Ninguém te abriu...Nada teu seio encerra!
O vácuo apenas queres tu conter!
Não te faltam suspiros delirantes,
Nem lágrimas de afeto verdadeiro...
- É que nem mesmo o oceano inteiro
Poderia te encher!...

Castro Alves
(1847-1871)

Mais sobre Castro Alves em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Castro_Alves

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012

Para Jorge de Lima, o Relógio, seu amigo, é a Vida em Segundos. E tudo encerra o segundo, a volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece.


O Relógio

Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos...
Consulto-te: um segundo! E quem sabe se agora,
Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos
Alma que filosofa e investiga e labora?

Há a morte de ceifar somas de moribundos.
O relógio trabalha...E um sorri e outro chora,
Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos
Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora...

Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,
Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético
Tem posturas de algoz e gestos de coveiro...

Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,
Tudo encerra o segundo, insólito - sintético.
A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece.

Jorge de Lima
(1893-1953)

Mais sobre Jorge de Lima em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_de_Lima



Domingo, Fevereiro 12, 2012

No telegrama de Moscou, está dito que pedra por pedra a cidade heróica será reconstruída. E que ela se chamava e se chamará sempre Stalingrado, na triste ilusão dos versos de Drummond.


Telegrama de Moscou

Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobrarão apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
- Stalingrado, o tempo responde.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

Mais sobre Carlos Drummond de Andrade em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Drummond_de_Andrade