Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Ponteando sobre o amigo ruim, Mário de Andrade diz que eles não são mais amigos um do outro não. E sofre, porque o outro é amigo do mar, do rio...


Ponteando sobre o amigo ruim


Enfim a gente não é mais amigo um do outro não.
Você anda fácil, levianinho.
No labirinto das complicações.
Que sutileza! quanta graça dançarina!...
É certo que fica sempre
Bastante pó das asas de você
Nos galhos, nos espinhos,
Até nas flores desse mato...
Mesmo já pus reparo várias vezes
Nas asas de você estragadas pelas beiras...
Porém o essencial, o importante
É que apesar desse estrago inda você pode ver.

Eu não sou assim não.
Sou pesado, bastante estabanado,
Não tenho asa nem muita educação.
Careço de caminho largo, bem direito.
Si* falta espaço, quebro tudo,
Me firo, me fatigo... Afinal caio.
No meio do mato eu paro, não posso mais caminhar.
Não posso mais.
Você...É possível que ainda me chame de amigo...
Mesmo perdendo um bocadinho de asa
Pousa no meu espinheiro e inda pode voar depois.
Mas eu, eu sofro é certo,
Porém já não sou mais amigo de você.

Você é amigo do mar, você é amigo do rio...

Mário de Andrade
(1893-1945)

Mais sobre Mário de Andrade em
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_de_Andrade


*como no original

O poeta teceu uma coroa de brancas rosas para adornar as tranças luminosas do seu oculto amor. Mas Eugénio de Castro nunca a encontrou.


A coroa de rosas


A fim, oculto amor, de coroar-te,
de adornar tuas tranças luminosas,
uma coroa teci de brancas rosas,
e fui pelo mundo afora, a procurar-te.

Sem nunca te encontrar, crendo avistar-te
nas moças que encontrava, donairosas,
fui-as beijando e fui-lhes dando as rosas
da coroa feita com amor e arte.

Trago, de caminhar, os membros lassos,
acutilam-me os ventos e as geadas,
já não sei o que são noites serenas...

Sinto que vais chegar, ouço-te os passos,
mas ai! nas minhas mãos ensanguentadas
uma coroa de espinhos trago apenas!

Eugénio de Castro
(1869-1944)

Mais sobre Eugénio de Castro em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%A9nio_de_Castro

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Para Adélia Prado, tudo no mundo é perfeito e a morte é amor. E só existe um único modo de se dizer a alguém: não esqueço você.


Formas


De um único modo se pode dizer a alguém:
'não esqueço você'.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo porque bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas no meu ouvido:
'não esqueço você'.
Manchas de luz na parede,
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito,
e a morte é amor.

Adélia Prado

Mais sobre Adélia Prado em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ad%C3%A9lia_Prado

Marta mandou um bilhete ardente para Cesário Verde dizendo que morreria por ele. Mas o poeta sabe que os olhos dela dizem mais que muitas bibliotecas.


Lúbrica...


Mandaste-me dizer
no teu bilhete ardente
que hás de por mim morrer,
morrer muito contente.

Lançaste no papel
as mais lascivas frases:
a carta era um painel
de cenas de rapazes.!

Ó cálida mulher,
teus dedos delicados,
traçaram do prazer
os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
é muito mais fogoso
que a febre epistolar
do teu bilhete ansioso:

do teu rostinho oval
os olhos tão nefandos
traduzem menos mal
os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais,
libidinosa Marta,
teus olhos dizem mais
que a tua própria carta.

As grandes comoções
tu neles, sempre, espelhas:
são lúbricas paixões
as vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
mulher, que me dissecas,
teus olhos dizem mais
que muitas bibliotecas.

Cesário Verde
(1855-1886)

Mais sobre Cesário Verde em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ces%C3%A1rio_Verde

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

As disfunções líricas dos poetas acabam por dar mais importância aos passarinhos do que aos senadores. Para Manoel de Barros, é a troca de parafusos.


A disfunção


Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos.
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.

1 - Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção de contiguidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.

Essas disfunções líricas acabam por dar mais
importância aos passarinhos do que aos senadores.

Manoel de Barros

Mais sobre Manoel de Barros em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_de_Barros