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quarta-feira, setembro 14, 2011
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos, não vês o que me calo. E assim nós somos o que não somos nem seremos mais, diz Moacyr Félix em seu sentimento clássico.
Sentimento clássico
Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
Moacyr Félix
(1926-2005)
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quarta-feira, março 18, 2009
Moacyr Félix vê luzes que desenharam o mundo em que vivemos. Impassível como un tronco de árvore, onde os homens gravam a canivete o que calaram.
Poema quase explicação
Luzes cortaram mais uma vez a noite básica
e desenharam o mundo em que vivemos.
E as estrelas derramaram pedra e cal
e construiram em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal, prontas para o nada.
Simplificado como uma lágrima
cruzaste a tua ponte de meninos mortos:
não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas o descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
Moacyr Félix
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sábado, janeiro 24, 2009
Moacyr Félix não sabe por quê mas tem uma vontade mansa de tomar chá com T. S. Eliot. E não dizer nada, só uma coisa qualquer para quebrar o silêncio.
Tarde da ilha
Não sei por quê,
mas tenho
uma vontade mansa de tomar chá
com Thomas Stearns Eliot,
de não dizer nada
de não perguntar nada,
e ficar olhando
todas as manchetes e todas as capas
de todos os livros,
olhando de olhos vazios
não como os do morto, mas vazios
como o luar que orvalha a tamareira e o poço.
Uma vez ou outra, ouvirei
a colherinha pousar na porcelana frágil,
e é tudo que eu ouvirei, a colherinha de prata.
Talvez até lhe dissesse uma coisa qualquer, uma coisa
só para quebrar o silêncio, só para isso
uma coisa sem importância, simples, como por exemplo:
Você sabe, ó T.S. Eliot, minha mãe já foi muita bonita...
Moacyr Félix
(1926-2005)
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sexta-feira, novembro 07, 2008
A mastigar baionetas a gente faz versos como quem quer lembrar o que nunca será lembrado. É a lei para Moacyr Félix em sua loucura de viver de poesia.
Antipoema
A mastigar baionetas eu
também devorei a eternidade
desde que fui até Andromeda
ou pensei em ter ido
naquela primeira e perdida noite
em que o céu coube inteiramente
na minha janela de criança
A mastigar baionetas a gente
faz versos como quem quer
lembrar o que nunca mais será lembrado.
essa é a lei. Isso eu sei.
por isso é que a arte de escrever é uma frescura
e a realidade
é uma padaria
bem maior do que a minha loucura
de viver de poesia
ou
de urinar aquele céu numa pia.
Por isso é que ontem almocei a minha alma
e mais uma vez
usei, para estudar estética, o fundo do poço em que
se afoga o aprisionado olhar dos que têm fome.
Moacyr Félix
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quarta-feira, março 12, 2008
Numa aventura estranha, Moacyr Félix fugiu do estreito túmulo em que se entorcia para uma ampliação sem fim. Quando voltou, não sabia mais quem era.
Auto-Retrato
Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
Moacyr Félix
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