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segunda-feira, fevereiro 01, 2016
Para Leminski, o céu revolto pode ser o seu vulto. Ou a sua volta.
você
que a gente chama
quando gama
quando está com medo
e mágua"
quando está com sede
e não tem água
você
só você
que a gente segue
até que acaba
em cheque
ou em chamas
qualquer som
qualquer um
pode ser tua voz
teu zum-zum-zum
todo susto
sob a forma
de um súbito arbusto
seixo solto
céu revolto
pode ser teu vulto
ou tua volta.
Paulo Leminski
(1944-1989)
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terça-feira, dezembro 15, 2015
Faça qualquer coisa, mas pelo amor de Deus, ou de nós dois, seja. É só o que pede Leminski ao seu amor.
Objeto
Objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo
seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza
faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja.
Paulo Leminski
(1944-1989])
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sábado, novembro 07, 2015
Paulo Leminski diz que ninguém nunca chegou atrasado. Bençãos e desgraças vêm sempre no horário.
Atraso pontual
Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relogio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vêm sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?
Paulo Leminski
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quarta-feira, outubro 28, 2015
Objeto do meu mais desesperado desejo, faça alguma coisa. Mas pelo amor de Deus, um de nós dois seja, grita o coração de Leminski.
Objeto
objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem arde e não vejo
seja a estrela que me beija
oriente que me veja
azul amor beleza
faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
um de nós dois
seja
Paulo Leminski
(1944-1989)
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sexta-feira, outubro 16, 2015
Já começo a ficar cheio de não saber quando eu falto. De ser, mim, sujeito indireto, desabafa Leminski.
Sujeito indireto
Quem dera eu achasse um jeito
de fazer tudo perfeito,
feita a coisa fosse o projeto
e tudo já nascesse satisfeito.
Quem dera eu visse o outro lado,
o lado de lá, lado meio,
onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito.
Quem dera um ângulo reto.
Já começo a ficar cheio
de não saber quando eu falto,
de ser, mim, sujeito indireto.
Paulo Leminski
(1944-1989)
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de fazer tudo perfeito,
feita a coisa fosse o projeto
e tudo já nascesse satisfeito.
Quem dera eu visse o outro lado,
o lado de lá, lado meio,
onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito.
Quem dera um ângulo reto.
Já começo a ficar cheio
de não saber quando eu falto,
de ser, mim, sujeito indireto.
Paulo Leminski
(1944-1989)
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terça-feira, outubro 06, 2015
Só quando tiver setenta anos, quando acabar a adolescência, Leminski vai largar da vida louca. E ver tudo em sã consciência.
Quando eu tiver
setenta anos
quando eu tiver setenta anos
então vai
acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar
minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a
vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar
as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu
curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando
acabar esta adolescência
Paulo Leminski
(1944-1989)
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quinta-feira, setembro 24, 2015
O amor, esse sufoco. Para Leminski, troço de louco.
O amor, esse sufoco
O amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro.
Ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos.
Paulo Leminski
(1944-1989)
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quarta-feira, setembro 09, 2015
Quem ganhou aquela briga entre o quanto e o tanto faz? Leminski pergunta e responde.
Diga minha poesia
Diga minha poesia
E esqueça-me se for capaz
Siga e depois me diga
Quem ganhou aquela briga
Entre o quanto e o tanto faz
Paulo Leminski
(1944-1989)
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sexta-feira, julho 31, 2015
Ai daqueles que se amaram sem nenhuma briga. Aqueles que deixaram que a mágoa nova virasse chaga antiga, no amor de Leminski.
Ai daqueles
Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram que a mágoa nova
virasse chaga antiga
ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é feito pão em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa.
Paulo Leminski
(1944-1989)
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quinta-feira, julho 23, 2015
Antigamente, morria-se praticamente de tudo, aquilo sim é que era morrer. Agora, a morte tem limites e a vida é crônica, diz Paulo Leminski em versos.
O que passou, passou?
Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria
e todo o mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ningém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
Paulo Leminski
(1944-1989)
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quarta-feira, julho 08, 2015
Leminsky está sofrendo por amor. E pergunta: que raio de dor é essa que quanto mais dói mais sai sol?
Transpenumbra
Tempestade
que passasse
deixando intactas as pétalas
você passou por mim
as tuas asas abertas
passou
mas sinto ainda uma dor
no ponto exato do corpo
onde tua sombra tocou
que raio de dor é essa
que quanto mais dói
mais sai sol?
Paulo Leminsky
(1944-1989)
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sexta-feira, junho 26, 2015
Leminski pedia calma, calma ao coração. Afinal, dizia ele, logo mais a gente goza.
Sossegue coração
sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
Paulo Leminsky
(1944-1989)
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quinta-feira, maio 28, 2015
Serei teu rei, teu pão, tua coisa, tua rocha. Porque amar você é coisa de minutos, no belo e apaixonado poema de amor de Paulo Leminski.
Amar você é coisa de minutos
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
Paulo Leminski
(1944-1989)
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segunda-feira, setembro 01, 2014
Para Leminski, muda a regra, muda o mapa, muda toda a trajetória. Num ano ímpar, só não muda a nossa história.
1987, tende piedade de nós
anos ímpares
são anos vítimas
anos sedentos
de sangue e vingança
todo gozo será punido
e o deserto será nossa herança
anos ímpares
são sarampo ínguas cataporas
bocas que praticam
tacos e cacos de línguas
lixos onde mora a memória
muda a regra, muda o mapa
muda toda a trajetória
num ano impar,
só não muda a nossa história
Paulo Leminski
(1944-1989)
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quarta-feira, agosto 27, 2014
Quando o mistério chegar, já vai encontrar Leminski dormindo. E quando o mistério aumentar, que não haja som nem silêncio.
Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.
Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?
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segunda-feira, julho 21, 2014
Round about midnight, por Paulo Leminski. Não é jazz, mas tem swing.
Round about midnight
um vulto suspeito
e o pulo de um susto
à solta no peito
no beco sem saída
caminhos a esmo
o leque de abismos
entre um eco
e seus mesmos
Paulo Leminski
(1944-1989)
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segunda-feira, maio 05, 2014
Entre os pequenos e os grandes lábios, os sábios ainda discutem se amor é troca ou entrega louca. Leminski também.
Donna mi priega 88
se amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cinco mil sentidos
está livre de mal-entendidos?
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cinco mil sentidos
está livre de mal-entendidos?
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sábado, abril 05, 2014
Quem bate mais na porta, quem parte ou quem volta? Leminski e as ambiguidades do amor.
Volta em aberto
Ambígua volta
em torno da ambígua ida,
quantas ambiguidades
se pode cometer na vida?
Quem parte leva um jeito
de quem traz a alma torta.
Quem bate mais na porta?
Quem parte ou quem volta?
Paulo Leminski
(1944-1989)
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domingo, março 09, 2014
Só quando tiver setenta anos, quando acabar a adolescência, Leminski vai largar da vida louca. E ver tudo em sã consciência.
Quando eu tiver setenta anos
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
Paulo Leminski
(1944-1989)
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quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
Paulo Leminski
(1944-1989)
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quarta-feira, janeiro 22, 2014
Serei teu rei, teu pão, tua coisa, tua rocha. Porque amar você é coisa de minutos, no belo e apaixonado poema de amor de Paulo Leminski.
Amar você é coisa de minutos
(1944-1989)
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
Paulo LeminskiA morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
(1944-1989)
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