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segunda-feira, novembro 23, 2009
Afasta de mim este teu corpo mole, triste e violado. Foi o que Joaquim Cardoso disse em seus versos, naquela manhã de chuva, à suave Maria.
Afasta de mim este teu corpo
Afasta de mim este teu corpo
Mole, triste e violado;
Este corpo que nasceu como uma flor de esponja
Na região sombria das virtudes imperfeitas.
Passaram sobre ele as glórias do mundo
E a força lunática dos destinos incertos.
Passaram como a nuvem sobre a batalha,
Como o vento sobre a paisagem,
Como o vento do mar que envolve a minha casa.
Nesta manhã de chuva, suave Maria.
Joaquim Cardozo
(1897-1978)
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sábado, outubro 24, 2009
Triste, Joaquim Cardozo vê o Recife morto, mutilado, grande, pregado à cruz das novas avenidas. E as mãos longas e verdes da madrugada o acariciam.
Recife morto
Recife. Pontes e canais.
Alvarengas, açúcar, água verde, água negra.
Torres de tradição, desvairadas, aflitas,
apontam para o abismo negro-azul das estrelas.
Pátio do Paraíso. Praça de São Pedro.
Lajes carcomidas, decrépitas calçadas.
Falam, baixo, na pedra, as vozes da alma antiga.
Gotas de som sobre a cidade,
gritos de metal,
que o silêncio da treva condensa em harmonia.
As horas caem do relógio do Diário,
da Faculdade de Direito e do Convento
de São Francisco;
duas, três, quatro... A alvorada se anuncia.
Agora, ao ouvir as horas que as torres apregoam,
vou navegando o mar de sombra das vielas,
e o meu olhar penetra o reflexo, o prodígio,
a humilde proteção dos telhados sombrios,
o equilíbrio burguês dos postes e dos mastros,
a ironia curiosa das sacadas.
As janelas das velhas casas negras,
bocas abertas desdentadas, dizem versos
para a mudez imbecil dos espaços imóveis.
Vagam fantasmas, pelas velhas ruas,
ao passo que, em falsete, a voz fina do vento
faz rir os cartazes.
Asas imponderáveis, úmidos véus enormes.
Figuras amplas, dilatadas pelo tempo,
vultos brancos de aparições estranhas,
vindos do mar, do céu... Sonhos! Evocações!
A invasão! caravelas no horizonte!
Holandeses! Vryburg!
Motins. Procissões. Ruído de soldado em marcha.
.................................................................................
Os andaimes parecem patíbulos erguidos.
................................................................................
Duendes!
Manhã vindoura. No ar, prenúncio de sinos.
Recife
ao clamor desta hora noturna e mágica,
vejo-te morto, mutilado, grande,
pregado à cruz das novas avenidas
e as mãos longas e verdes
da madrugada
te acariciam.
Joaquim Cardozo
(1897-1978)
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quinta-feira, maio 14, 2009
Tarde no Recife. E lá vai Joaquim Cardozo em seu passeio pela romântica cidade.
Tarde no Recife
Tarde no Recife.
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde da Café Maxime,
cais do abacaxi,
gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
a voz colorida das bandeiras anuncia
que vapores entraram no horizonte.
Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;
a tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um camelô gritando - alerta!
Algazarra. Seis horas. Os sinos.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes,
dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos holandeses,
que assistem agora ao movimento das ruas tumultuosas,
que assistirão mais tarde à passagem dos aviões para as costas do Pacífico;
Recife romântico dos crepúsculos das pontes e da beleza católica do rio.
Joaquim Cardozo
(1897-1978)
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domingo, março 15, 2009
Para Joaquim Cardozo, não importa como se chama a pequena chuva inconstante e breve. Ele quer muito bem à doce chuva, quer se chame Tereza ou Maria.
Chuva de caju
Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Tereza? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos.
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
E em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Tereza ou Maria.
Joaquim Cardozo
(1897-1978)
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quinta-feira, janeiro 22, 2009
Se morresse agora, Joaquim Cardoso levaria duas boas lembranças. A visão do mar do alto da Misericórdia em Olinda e a saudade de Josefa de Tramataia.
Recordações de Tramataia
I
Eu vi nascer as luas fictícias
Que fazem surgir no espaço as curvas das marés
Garças brancas voavam sobre os altos mangues
de Tramataia.
Bandos de jandaias passavam sobre os coqueiros doidos
De Tramataia.
E havia um desejo de gente na casa de farinha e nos mocambos vazios
De Tramataia.
Todavia! Todavia!
Eu gostava de olhar as nuvens grandes, brancas e sólidas,
Eu tinha o encanto esportivo de nadar e de dormir.
II
Se eu morresse agora,
Se eu morresse precisamente
Neste momento,
Duas boas lembranças levaria:
A visão do mar do alto da Misericórdia de Olinda ao nascer do verão.
E a saudade de Josefa,
A pequena namorada do meu amigo de Tramataia.
Joaquim Cardoso
(1897-1978)
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quarta-feira, novembro 05, 2008
Venho para uma estação de águas nos teus olhos. Ouves? É o rumor da noite que vem do mar, diz Joaquim Cardozo à mulher, antes de partir.
Canção
Venho para uma estação de águas nos teus olhos;
Ouves? É o rumor da noite que vem do mar.
Meu amor.
Perto de mim o teu corpo cheirando a flor de cajueiro.
Que saudades do sol. Do mar de sol.
Do nosso mar de jangadas.
Escuta:
A noite que vem cantando
Vem do mar.
Para que eu voltasse tu me prometeste novas carícias
No entanto o que me dás agora é ainda o mesmo amor
De antigamente.
E depois estás mais velha.
Os teus olhos bruxuleiam.
Os teus lábios se apagaram.
Eu vou partir.
As barcaças vão passando junto ao cais.
Eu vou partir, viajar.
Itapissuma. Goiana. Itamaracá.
Olha o verão que vem!
Viva o verão que vai chegar.
Viva a paisagem roxa dos cajueiros que vão florir!
Eu vou partir, viajar.
Joaquim Cardozo
(1897-1978)
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Ouves? É o rumor da noite que vem do mar.
Meu amor.
Perto de mim o teu corpo cheirando a flor de cajueiro.
Que saudades do sol. Do mar de sol.
Do nosso mar de jangadas.
Escuta:
A noite que vem cantando
Vem do mar.
Para que eu voltasse tu me prometeste novas carícias
No entanto o que me dás agora é ainda o mesmo amor
De antigamente.
E depois estás mais velha.
Os teus olhos bruxuleiam.
Os teus lábios se apagaram.
Eu vou partir.
As barcaças vão passando junto ao cais.
Eu vou partir, viajar.
Itapissuma. Goiana. Itamaracá.
Olha o verão que vem!
Viva o verão que vai chegar.
Viva a paisagem roxa dos cajueiros que vão florir!
Eu vou partir, viajar.
Joaquim Cardozo
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quarta-feira, julho 04, 2007
Quando os teus olhos fecharem para o esplendor deste mundo, hei de ficar de joelhos. Em seu canto triste, foi tudo o que Joaquim Cardozo prometeu.
Canção elegíaca
Quando os teus olhos fecharem
Para o esplendor deste mundo,
Num chão de cinza e fadigas
Hei de ficar de joelhos;
Quando os teus olhos fecharem
Hão de murchar as espigas,
Hão de cegar os espelhos.
Quando os teus olhos fecharem
E as tuas mãos repousarem
No peito frio e deserto,
Hão de morrer as cantigas;
Irá ficar desde e sempre
Entre ilusões inimigas,
Meu coração descoberto.
Ondas do mar - traiçoeiras -
A mim virão, de tão mansas,
Lamber os dedos da mão;
Serenas e comovidas
As águas regressarão
Ao seio das cordilheiras;
Quando os teus olhos fecharem
Hão de sofrer ternamente
Todas as coisas vencidas,
Profundas e prisioneiras;
Hão de cansar as distâncias,
Hão de fugir as bandeiras.
Sopro da vida sem margens,
Fase de impulsos extremos,
O teu hálito irá indo,
Longe e além reproduzindo
Como um vento que passasse
Em paisagens que não vemos;
Nas paisagens dos pintores
Comovendo os girassóis
Perturbando os crisantemos.
O teu ventre será terra
Erma, dormente e tranquila
De savana e de paul;
Tua nudez será fonte,
Cingida de aurora verde,
A cantar saudade pura
De abril, de sonho, de azul,
Fechados no anoitecer.
Joaquim Cardozo
(1897-1978)
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