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quarta-feira, abril 03, 2013

Sobre a essência do amor, Mayakovsky escreveu uma carta de Paris ao Camarada Kostróv. Leia-a você também.


Carta de Paris ao Camarada Kostróv sobre a essência do amor

Perdoe
-me,
camarada Kostróv,
com sua habitual
largueza de vista,

se eu desperdiço,
as minhas estrofes
de Paris
em lírica imprevista.

Imagine:
uma beleza
entra na sala
vestindo peles e adereços.

A essa
bela presa
a minha fala
(não sei se
bem ou mal)
eu endereço:

Sou russo, camarada,
e sou famoso em meu país.
Já tive muitas namoradas
bonitas -
todas as que eu quis.

As mulheres
amam os poetas.
Sou vivo,
minha voz é de bom timbre.
Tonteio como éter.

Basta
ouvir-me.
Não me fisgam
com armas
sem valor.

Não caio
por qualquer charme.
Eu fui
para sempre ferido pelo amor -
mal e mal
posso arrastar-me.

Não meço
o amor
pelo matrimônio.
Deixou de amar -
passe bem!

Para mim,
camarada,
as cerimônias
valem
menos do que um vintém.

Para que ficar palrando?
Deixe de onda,
formosura,
eu não tenho mais vinte anos,
mas trinta...
e outros tantos
fora da conta.

O amor
não está
em ferver bruscamente,
nem está
em acender uma fogueira,
mas no que há
por trás
das montanhas do peito
e acima
da jangal-cabeleira.

Amar
é ir ao fundo do cercado
e até que a noite
- corvo negro -
chegue
cortar lenha
com chispas
no machado
e a nossa própria força
pôr em xeque.

Amar
é desfazer-se dos lençóis
que a insônia desarruma
e com ciúmes
de Copérnico,
a ele,
não o marido
da Maria dos Anzóis
considerar rival eterno.

O amor
não é paraíso nem geena.
Para nós
o amor
é o atestado
de que
outra vez se engrena
o coração
- motor enferrujado.
Você
rompeu o fio
com Moscou.

Os anos
criam
distâncias.
Como
explicar o que passou
assim de relance?
Na terra
há luzes - até o céu...
No céu azul
estrelas
a granel.

Se eu
não fosse poeta
seria astrônomo por certo.
A praça já se apinha.
Os coches rodam.

Eu passo
anotando linhas.
no meu livro de notas.
Correm
os carros
rente,
mas não me atropelam.

Entendem,
de repente: está em êxtase
por ela.
Sonhos,
visões,
excursos enchem-no
até os ossos.
Aqui
até os ursos
ganhariam asas.

E agora,
quando acabo de fervê-las,
num restaurante barato,
as palavras
soletram das letras
às estrelas
um cometa dourado.
Deixando
pelo céu um longo rastro,
brilha a plumagem do cometa,
para que os namorados
vejam os seus astros
de seus quiosques
de violetas.

Para acordar
e atrair
o apreço
desses
a que a visão já falha.

Para cortar
aos inimigos
a cabeça
com a longa cauda
luminosa
navalha.

Ouço
em meu peito
até o último pulsar
como se o estivesse
esperando
para um encontro:
o amor
a ressoar
simples e humano.

O furacão,
o fogo,
o mar
vêm vindo
furiosamente.

Quem
os pode
domar?
Você pode?
Experimente...

Vladimir Maiakovski
(1893-1930)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Maiakovski





terça-feira, fevereiro 26, 2013

Maiakovski diz que não acabarão com o amor. E faz o juramento: amo firme, fiel e verdadeiramente.


Dedução


Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo firme,
fiel
e verdadeiramente.

Vladimir Maiakovski
(1893-1930)

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quinta-feira, junho 21, 2012

Bebe e celebra, desata nas veias a primavera, coração, bate e combate, o peito bronze de guerra. Assim, Vladimir Mayakovsky canta em versos a marcha para a vitória da revolução.


Nossa marcha

Troa na praça o tumulto!
Altivos píncaros - testas!
Águas de um novo dilúvio
lavando os confins da terra.

Touro mouro dos meus dias.
Lenta carreta dos anos.
Deus? Adeus. Uma corrida.
Coração? Tambor rufando.

Que metal será mais santo?
Balas-vespas nos atingem?
Nosso arsenal é o canto.
Metal? São timbres que tinem.

Desdobra o lençol dos dias
cama verde, campo escampo.
Arco-íris arcoirisa
o corcel veloz do tempo.

O céu tem tédio de estrelas!
Sem ele, tecemos hinos.
Ursa-Maior, anda, ordena,
para nós um céu de vivos.

Beba e celebre! Desata
nas veias a primavera!
Coração, bate e combate!
O peito - bronze de guerra.

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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quarta-feira, abril 04, 2012

Para Mayakovsky, todo mundo sabe que o coração fica bem no meio do peito. Mas com ele a anatomia ficou louca.


Nos demais

Nos demais,
todo mundo sabe,
o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do peito,
mas comigo a anatomia ficou louca,
sou todo coração.

Vladimir Mayakovsky 
(1893-1930)

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sexta-feira, setembro 03, 2010

Pelo desrespeito à poesia revolucionária, os críticos receberam de presente um demolidor poema de Mayakovsky. E a idéia de um asilo em Nice para eles.



Hino ao crítico

Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou : crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no, com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil como um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhes de leve os tornozelos loucos.
Mas se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Puchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira - souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores há muitos. Juntem um milhar,
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver e enxaguar
A nossa roupa branca nos artigos?

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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domingo, maio 16, 2010

Para Lílitchka, Mayakovsky escreveu os mais belos versos de amor. E sabendo do fel da mágoa ressentida, já falava em apertar na têmpora o gatilho.


Lílitchka!

Em lugar de uma carta

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto -
um capítulo de inferno de Krutchônikh.
Recorda -
Atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração - aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu "hall" escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor, meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
- duro fardo por certo -
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mais a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos - rodopiante carnaval -
dispersarão as folhas dos meus livros...
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

Vladimir Mayakovsky

(1893-1930 )

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segunda-feira, abril 26, 2010

Não acabarão com o amor. E faço o juramento: amo firme, fiel e verdadeiramente, garante Mayakovsky em versos.


Dedução


Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo firme,
fiel
e verdadeiramente.

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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segunda-feira, março 22, 2010

Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria quando a dor é um rio sem vau? Eu amei, te sentes mal, pergunta Mayakovsky.


A esperança


Injeta sangue
no meu coração,
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar,
servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar...
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar-vos-ei
em versos...
Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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sexta-feira, janeiro 08, 2010

O que é isso que soa bem longe, pergunta Mayakovsky ao seu amor. E ele mesmo responde: é o amor, o vento nas vidraças, amor meu.


Ar de noturno


Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho ?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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segunda-feira, outubro 12, 2009

Mayakovsky diz que foi agraciado com o amor sem limites. E que até o sol se assombrava com ele.


Garotos

Fui agraciado com o amor sem limites.
Mas, quando garoto,
a gente preocupada trabalhava
e eu escapava
para as margens do rio Rion
e vagava sem fazer nada.
Aborrecia-se minha mãe:
"Garoto danado!"
Meu pai me ameaçava com o cinturão.
Mas eu, com três rublos falsos,
jogava com os soldados sob os muros.
Sem o peso da camisa,
sem o peso das botas,
de costas ou de barriga no chão,
torrava-me ao sol de Kutaís
até sentir pontadas no coração.
O sol assombrava:
"Daquele tamanhinho
e com um tal coração!
Vai partir-lhe a espinha!
Como, será que cabem
nesse tico de gente
o rio,
o coração,
eu
e cem quilômetros de montanhas?"

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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quarta-feira, setembro 23, 2009

Aos que questionam a Poesia, o revolucionário Mayakovski diz que ele é uma fábrica. E que os poetas, como ninguém, põem tanto coração no trabalho.


O poeta-operário


Grita-se ao poeta:
"Queria te ver numa fábrica!
O que? Versos? Pura bobagem."
Talvez ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.
Frases vazias não agradam.
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos remoçaremos o mundo,
fá-lo-emos marchar num ritmo célere.
Diante da vaga de palavras
levantemos um dique!
Mãos à obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó.

Vladimir Mayakovski
(1893-1930)

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segunda-feira, agosto 24, 2009

Em sua antiga luta, Mayakovsky arrasa com a crítica que não compreende as massas. E exige que se eleve a cultura dos camponeses e operários.



Incompreensíveis para as massas


Entre escritor
e leitor
posta-se o intermediário
e o gosto
do intermediário
é bastante intermédio.
Medíocre
mesnada
de medianeiros médios
pulula
na crítica
e nos hebdomadários.
Aonde
galopando
chega teu pensamento
um deles
considera tudo
sonolento:
- Sou homem
de outra têmpera! Perdão,
lembra-me agora
um verso
de Nadson...
O operário
não tolera
linhas breves.
E com tal
mediador
ainda se entende Assiéiev.
Sinais de pontuação?
São marcas de nascença!
O senhor
corta os versos
toma muitas licenças
Továrich Maiacóvski,
por que não escreve iambos?
Vinte copeques
por linha
eu lhe garanto, a mais.
E narra
não sei quantas
lendas medievais,
e fala quatro horas
longas como anos.
O mestre lamentável
repete
um só refrão:
- Camponês
e operário
não vos compreenderão.
O peso da consciência
pulveriza
o autor.
Mas voltemos agora
ao conspícuo censor:
Camponês só viu
há tempo
antes da guerra,
na datcha,
ao comprar
mocotós de vitela.
Operários?
Viu menos.
Deu com dois
uma vez
por ocasião da cheia,
dois pontos
numa ponte
contemplando o terreno,
vendo a água subir
e a fusão das geleiras.
Em muitos milhões
para servir de lastro
colheu dois exemplares
o nosso criticastro.
Isto não lhe faz mossa -
é tudo a mesma massa...
Gente - de carne e osso!!
E à hora do chá
expende
sua sentença:
- A classe
operária?
Conheço-a como a palma!
Por trás
do seu
silêncio,
posso ler-lhe na alma -
Nem dor
nem decadência.
Que autores
então
há de ler essa classe?
Só Gogol,
só os clássicos.
Camponeses?
Também.
O quadro não se altera.
Lembra-me e agora -
a datcha, a primavera...
Este palrar
de literatos
muitas vezes passa
entre nós
por convívio com a massa.
E impinge
modelos
pré-revolucionários
da arte do pincel,
do cinzel,
do vocábulo.
E para a massa
flutuam
dádivas de letrados -
lírios,
delírios,
trinos dulcificados.
Aos pávidos
poetas
aqui vai meu aparte:
Chega de chuchotar
versos para os pobres.
A classe condutora,
também ela pode
compreender a arte.
Logo:
que se eleve
a cultura do povo!
Uma só,
para
todos.
O livro bom
é claro
e necessário
a vós,
a mim,
ao camponês,
e ao operário.

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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sexta-feira, maio 15, 2009

No versos de Mayakovsky, dá para sentir como o Primeiro de Maio é importante em sua vida. É a sua era, ele é operário e é camponês.


Meu maio


A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua -
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
derrete a neve com sol gaio.
Sou operário -
Este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro -
Eis o maio que eu quero!
Sou terra -
O maio é minha era!

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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quinta-feira, janeiro 15, 2009

A plenos pulmões, Mayakovsky se dirige aos caros camaradas futuros. Com sua arma favorita, a poesia revolucionária, na forma e no conteúdo.


A plenos pulmões


Primeira Introdução ao Poema

Caros
camaradas
futuros!

Revolvendo
a merda fóssil
de agora,
perscrutando
estes dias escuros,
talvez
perguntareis
por mim. Ora,
começará
vosso homem de ciência
afogando os porquês
num banho de sabença,
conta-se
que outrora
um férvido cantor
a água sem fervura
combateu com fervor.
Professor,
jogue fora
as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
de mim
da minha era.
Eu - incinerador,
eu - sanitarista,
a revolução
me convoca e me alista.
Troco pelo front
a horticultura airosa
da poesia -
fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim
virgem
virgem
sombra
alfombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim".
Este verte versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, -
bonifrates encapelados,
descabelados vates -
entendê-los,
ao diabo!,
quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles -
mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-tin, ta-ran-tin,
ta-ran-ten-n-n...
Triste honra,
se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
escarra a tuberculose;
putas e rufiões
numa ronda de sífilis.
Também a mim
a propaganda
cansa,
é tão fácil
alinhavar
romanças, -
Mas eu
me dominava
entretanto
e pisava
a garganta do meu canto.
Escutai,
camaradas futuros,
o agitador,
o cáustico caudilho,
o extintor
dos melífluos enxurros:
por cima
dos opúsculos líricos,
eu vos falo
como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
à Comuna distante,
não como Iessiênin,
guitarriarcaico.
Mas através
dos séculos em arco
sobre os poetas
e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
não como a seta
lírico-amável,
que persegue a caça.
Nem como
ao numismata
a moeda gasta,
nem como a luz
das estrelas decrépitas.
Meu verso
com labor
rompe a mole dos anos,
e assoma
a olho nu,
palpável,
bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respirareis,
como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
mas terrível.
Ao ouvido
não diz
blandícias
minha voz;
lóbulos de donzelas
de cachos e bandós
nao faço enrubescer
com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
- tropas em parada,
e passo em revista
o front das palavras.
Estrofes estacam
chumbo-severas,
prontas para o triunfo
ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
apontando
as maiúsculas
abertas.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofreando o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido.
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo figadal.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
volume após volume,
janelas
de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberíamos o rumo!
onde combater,
de que lado,
em que frente.
Dialética,
não aprendemos com Hegel.
Invadiu-nos os versos
ao fragor das batalhas,
quando,
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
- glória -
se arraste
após os gênios,
merencória.
Morre,
meu verso,
como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, -
entre nós todos, -
o comum monumento:
o socialismo,
forjado
na refrega
e no fogo.
Vindouros,
varejai vossos lexicos:
do Letes
brotam letras como lixo -
"tuberculose",
"bloqueio",
"meretrício".
Por vós,
geração de saudáveis, -
um poeta,
com a língua dos cartazes,
lambeu
os escarros de tísis.
A cauda dos anos
faz-me agora
um monstro,
fossilcoleante.
Camarada vida,
vamos,
para diante,
galopemos
pelo quinquênio afora.
Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
lavada e clara,
e basta, -
para mim é tudo.
Ao Comitê Central
do futuro
ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar
do registro partidário
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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sábado, dezembro 27, 2008

Já em 1925, Mayakovsky denunciava em versos toda a injustiça que fazia de Cuba um barril de pólvora prestes a explodir. Ainda levou algum tempo, mas..


Black & White


Se
Havana
de relance distingues,
é um paraíso,
um país de verdade.
Sob as palmas,
numa só perna,
flamingos.
Flores
colorem
todo o Vedado.
Em Havana
tudo
é demarcado claramente:
aos brancos - dólares,
aos negros - nada.
Por isso, Willie pára
com a escova à frente
de "Henry Clay & Bock, Limitada".
Em sua vida
Willie
varreu quilos -
só de poeira
todo um vale.
Por isso
é ralo
o cabelo de Willie,
por isso
o ventre de Willie
é um valo.
De alegrias - só um escuro espectro;
seis horas
para tirar uma pestana,
se é que esse
ladrão,
o inspetor da aduana,
não lança de passagem
algum tostão
ao preto.
Como livrar-se de tanto lixo?
Só se
ele andasse
de cabeça para baixo.
Assim
amontoaria mais pó:
os cabelos são mil,
os pés
dois só.
Ao lado
passava
a elegante rua Prado.
Ali retinem,
ali ressoam
quilômetros de jazz.
Parece ao pobre preto
estuporado
que o velho paraíso
em Havana se refaz.
Poucas meandros,
há na sua mente,
poucos renovos,
pouca semente.
Uma coisa
somente
Willie aprendeu,
mais firme
que as pedras
da estátua de Maseo:
"Ao branco,
o ananás maduro,
ao preto,
o podre
- uma só lei.
Ao branco,
trabalho de rei,
ao preto,
trabalho duro".
Poucos problemas o torturam,
mas um
na cabeça
penetra como um prego.
E quabdo esse problema
o crânio lhe perfura,
a escova escorrega
das mãos do negro.
Como por acaso
numa dessas vezes
o rei dos charutos,
Mister Henry Clay,
recebe em sua casa,
mais alvo que uma nuvem,
o rei
de todos os açúcares, sua alvíssima alteza.
O negro
se acercou da mole branca:
"I beg your pardon, Mister Bregg!
Por que
o
açúcar
branco-branco
o negro-negro
tem de fazê-lo?
O charuto preto
não vai bem com seu cabelo,
combina é com o pêlo
negro de um negro.
E se o café
com açúcar
lhe apraz,
por que o sr. mesmo não o faz?"
Tal pergunta
não passou em branco.
O rei
de alvaiade
vira cor de bile.
Voltou-se a majestade
e de um tranco
lançou ambas as luvas
na face de Willie.
Floresciam
em volta
prodígios de botânica.
Bananeiras
teciam
tetos primaveris.
Limpou
o negro
em suas calças brancas
as mãos,
o sangue do nariz.
O negro resfolegou,
apalpou a confusão,
levantou a escova
e se calou.
Como saberia
que com tal questão
deveria dirigir-se
ao Komintern
em Moscou?

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Mayakovsky

sexta-feira, novembro 28, 2008

O revolucionário Mayakovsky diz que o mar da história é agitado. Mas as ameaças e as guerras havemos de atravessá-las, como uma quilha corta as ondas.


E então que quereis?...

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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sábado, outubro 11, 2008

Ao contrário dos ricos banqueiros, Mayakovsky sabe que sozinho não pode carregar nem um cofre-forte. Por isso, depositou nela todo o seu amor.


Impossível

Sozinho não posso
carregar um piano
e menos ainda um cofre-forte.
Como poderia então
retomar de ti meu coração
e carregá-lo de volta?
Os banqueiros dizem com razão:
"Quando nos faltam bolsos,
nós que somos muitíssimo ricos,
guardamos o dinheiro no banco".
Em ti
depositei meu amor,
tesouro encerrado em caixa de ferro,
e ando por aí
como um Creso contente.
É natural, pois,
quando me dá vontade,
que eu retire um sorriso,
a metade de um sorriso
ou menos até
e indo com as donas
eu gaste depois da meia-noite
uns quantos rublos de lirismo à toa.

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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quinta-feira, agosto 28, 2008

O belo amor revolucionário de Mayakovski: que ao primeiro apelo de Camaradas, a família seja o pai, pelo menos o universo, a mãe, pelo menos a terra.


O amor


Um dia, quem sabe,
ela que também gostava de bichos,
apareça numa alameda de zoo,
sorridente,
tal como agora está no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela, que por certo, hão de ressuscitá-la
Vosso Trigésimo século ultrapassará o exame de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo de csamentos,
concuspicência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte à terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o universo,
a mãe,
pelo menos a terra.

Vladimir Mayakovski
(1893-1930)

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quarta-feira, julho 09, 2008

A todos que sairam às ruas, de corpo-máquina cansado, o canto do Primeiro de Maio de Mayakovsky. O poeta é operário e camponês, ferro e terra.


Meu Maio

A todos que saíram às ruas,
De corpo-máquina cansado,
A todos que imploram feriado
As costas que a terra extenua
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário - este é meu maio!
Sou camponês - este é o meu mês!
Sou ferro - eis o maio que quero!
Sou terra - o maio é minha era!

Vladimir Mayakovsky

(1893-1930)

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quinta-feira, junho 12, 2008

Mayakovsky dia que cada um ao nascer traz sua dose de amor. Mas quando a pele enche-se de rugas, o amor floresce, floresce, e depois desfolha.


Comumente é assim


Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica
pelo sistema Muller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha.

Vladimir Mayakovsky
(1893-1930)

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