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quinta-feira, junho 06, 2013

Para Alphonsus de Guimaraens, cada um de nós é a bússola sem norte, sempre o presente pior do que o passado. Cantem outros a vida: ele canta a morte.


Cantem outros a clara cor virente

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.
Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...

Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

Alphonsus de Guimaraens
(1870-1921)

Mais sobre Alphonsus de Guimaraens em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alphonsus_de_Guimaraens

quinta-feira, julho 12, 2012

Como se moço e não bem velho fosse, Alphonsus de Guimaraens sente que uma nova ilusão veio animar-lhe. Até acordar do áureo sonho em sobressalto.


Como se moço e não bem velho eu fosse

Como se moço e não bem velho eu fosse,
Uma nova ilusão veio animar-me,
Na minh'alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.

Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios, que vinham desolar-me.

Vi-me no cimo eterno da montanha
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.

Acordei do áureo sonho em sobressalto;
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto...

Alphonsus de Guimaraens
(1870-1921)

Mais sobre Alphonsus Guimaraens em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alphonsus_de_Guimaraens

terça-feira, outubro 20, 2009

Foi assim que Alphonsus de Guimaraens a viu. Um sonho de rosas num país nevoento, de que afinal ele acorda em sobressalto.


Foi assim que eu a vi...


Foi assim que eu a vi. Desse momento
a lembrança tranquila vem-me do alto
- sonho de rosas num país nevoento,
de que afinal acordo em sobressalto.

Fugiu-me essa visão: de novo tento
firmar os passos para um novo assalto.
Mas que farás, pobre homem sem alento,
tu, cego de alma e de coragem falto!

Que farás, coração que te magoas,
na sua timidez contemplativa,
só, tão longe das almas que são boas!

Que farás, alma, tu que louca e pasma,
seguindo embora o rastro de uma viva,
beija os passos largos de um fantasma!

Alphonsus de Guimaraens
(1870-1921)

Mais sobre Alphonsus Guimaraens em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alphonsus_de_Guimaraens

quinta-feira, abril 09, 2009

Neste lindo poema, o pranto de Alphonsus de Guimaraens pela morte daquela que foi o único amor de sua vida. Por que não vieram juntos?


Hão de chorar por ela os cinamomos


Hão de chorar por ela os cinamomos,
murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: "Ai - nada somos
Pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?"

Alphonsus de Guimaraens
(1870-1891)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Alphonsus_de_Guimaraens

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Nos versos do poeta, o sino da catedral do seu sonho está o dia inteiro a chorar: "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!". Por que será?


A catedral


Entre brumas ao longe surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a benção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Poe-se a luz a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu tristonho
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!

Alphonsus de Guimaraens
(1870-1921)

Mais sobre Alphonsus de Guimaraens em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alphonsus_de_guimaraens

sábado, abril 21, 2007

Nos versos do poeta, Ismália enlouqueceu e pôs-se a cantar na torre. E com as asas que Deus lhe deu, sua alma subiu ao céu, seu corpo desceu ao mar.


Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na terra a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E no desvario seu,
na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Alphonsus de Guimaraens
(1870-1921)

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