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sexta-feira, novembro 13, 2015

Um homem do mundo perguntou a Adélia Prado: o que você pensa do sexo? Uma das maravilhas da criação, ela respondeu.


Entrevista

Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa do sexo?
Um das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara:
o destino do homem é a santidade.
A mulher que me perguntara cheia de ódio:
você raspa lá? Perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
"Se cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz",
descansa em teu amor, que bem estás.


Adélia Prado
(1935)

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segunda-feira, outubro 26, 2015

Adélia Prado quis com paixão o seu vestido de amante. E na memória guardada, ela está no cinema e deixa que segurem a sua mão.


O vestido

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo , volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado
(1935)

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sexta-feira, outubro 02, 2015

Castro Alves jamais imaginou ser motivo de uma declaração de amor tão bela e intensa de uma apaixonada Adélia Prado. Para sempre dele.


Bilhete em Papel Rosa

A meu amado secreto, Castro Alves.

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
"o cinamomo floresce
em frente ao teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo".
Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo tão é negro,
eu vivo tão perturbada, pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos,
eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vias ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.

Adélia Prado
(1935)

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quinta-feira, setembro 10, 2015

Adélia Prado encontrou seu marido com uma loura oxidada. Depois da briga, ela diz com ironia que, desde então, faz milagres.


Briga no beco

Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mãos e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.

Adélia Prado
(1935)

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sexta-feira, agosto 21, 2015

Para Adélia Prado, tudo no mundo é perfeito e a morte é amor. E só existe um único modo de se dizer a alguém: não esqueço você.


Formas

De um único modo se pode dizer a alguém:
'não esqueço você'.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo porque bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas no meu ouvido:
'não esqueço você'.
Manchas de luz na parede,
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito,
e a morte é amor.

Adélia Prado
(1935)

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quinta-feira, maio 14, 2015

Adélia Prado sente que está no começo do seu desespero. E só vê dois caminhos: ou vira doida ou santa.


A serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado
(1935)

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sexta-feira, janeiro 17, 2014

Adélia Prado encontrou seu marido com uma loura oxidada. Depois da briga, ela diz com ironia que, desde então, faz milagres.


Briga no beco

Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mãos e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.

Adélia Prado

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terça-feira, outubro 08, 2013

Uma galinha assustada, de bico aberto, barbelas e cristas envermelhadas, só as artérias palpitando no pescoço. Para Adélia Prado, uma descoberta.


Dia

As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
- ia dizer imoral -
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.

Adélia Prado
(1935)

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segunda-feira, setembro 16, 2013

Um poema começado do fim pode levar até o Caminho do Céu, diz Adélia Prado. Será?


Poema começado do fim 

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Adélia Prado
(1935)
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quarta-feira, setembro 04, 2013

Para Adélia Prado, vai ser coxo na vida é maldição para homem. Mulher é desdobrável, como ela.


Licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado para mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, funso reinos
dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado
(1935)

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segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Tanto mais perto quanto mais remoto, o tempo burla as ciências. Para Adélia Prado, o seu sofrimento tem a mesma idade do fóssil de milhões de anos.


O tesouro escondido


Tanto mais perto quanto mais remoto,
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia,
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.

Adélia Prado
(1935)

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domingo, agosto 26, 2012

Adélia Prado diz que estão equivocados os teólogos quando descrevem Deus em seus tratados. Ele vai nascer de novo para resgatá-la, diz em seus versos.


A cicatriz

Estão equivocados os teólogos
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!

Adélia Prado
(1936)

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quarta-feira, junho 27, 2012

O que será um artefato nipônico para Adélia Prado? A borboleta pousada ou...?


Artefato nipônico

A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.

Adélia Prado
(1935 )

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segunda-feira, maio 14, 2012

Um segredo que não podia mais ser guardado e uma surpreendente declaração de amor de Adélia Prado.


Objeto de amor 


De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.

Adélia Prado
(1935 )
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segunda-feira, janeiro 09, 2012

Para Adélia Prado, não importa a palavra, esta corriqueira. Porque quem entender a linguagem entende Deus cujo filho é Verbo.


Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás",
o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado
(1935)

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sexta-feira, dezembro 02, 2011

O que um homem precisa pra falar, entre enxada e sono? Louvado seja Deus, diz Adélia Prado, bucólica e nostálgica.


Bucólica nostálgica

Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pé de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,
entre enxada e sono: Louvado seja Deus!

Adélia Prado
(1935)

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sábado, novembro 12, 2011

Adélia Prado não queria palavras para rezar. Para ela, bastava ser um quadro bem na frente de Deus pra Ele olhar.


A pintora

Hoje de tarde
pus uma cadeira no sol pra chupar tangerinas
e comecei a chorar,
até me lembrar de que podia
falar sem mediação com o próprio Deus
daquela coisa vermelho-sangue, roxo-frio, cinza.
Me agarrei aos seus pés:
Vós sabeis, Vós sabeis,
só Vós sabeis, só Vós.
O bagaço da laranja, suas sementes
me olhavam da casca em concha
na mão seca.
Não queria palavras pra rezar,
bastava-me ser um quadro
bem na frente de Deus
pra Ele olhar.

Adélia Prado
(1935)

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sexta-feira, agosto 26, 2011

Adélia Prado aprendeu que o gênio mau da noite a forçava com saudade e desgosto pelo mundo. E que a salvação opera nos abismos.


Estação de maio

A salvação opera nos abismos.
Na estação indescritível,
o gênio mau da noite me forçava
com saudade e desgosto pelo mundo.
A relva estremecia
mas não era pra mim,
nem os pássaros da tarde.
Cães, crianças, ladridos,
despossuíam-me.
Então rezei: salva-me, Mãe de Deus,
antes do tentador com seus enganos.
A senhora está perdida?
Disse o menino,
é por aqui.
Voltei-me
e reconheci as pedras da manhã.

Adélia Prado
(1935)

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quinta-feira, agosto 11, 2011

A vida é eterna, diz Adélia Prado. Para os irmãos, ela diz que é preciso louvar a Deus, repartir a côdea, o boi, vosso marido e esposa e, mais que tudo, a palavra sem fel.


Homilia

Quem dentre vós
dirá convictamente:
os alquimistas morreram
- aqueles simples -
morreram os conquistadores,
os reis
os tocadores de alaúde,
os mágicos.
Oh, engano!
a vida é eterna, irmãos,
aquietai-vos, pois, em vossas lidas,
louvai a deus e reparti a côdea
o boi, vosso marido e esposa
e sobretudo
e mais que tudo
a palavra sem fel.

Adélia Prado
(1935)

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segunda-feira, julho 18, 2011

Adélia Prado quis com paixão o seu vestido de amante. E na memória guardada, ela está no cinema e deixa que segurem a sua mão.



O vestido

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo , volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado
(1935)

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