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sexta-feira, novembro 06, 2015

Há muito tempo já que não escrevo um poema de amor. E é o que eu sei fazer com mais delicadeza, diz o coração de Miguel Torga.


Quase um poema de amor

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
--- Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga
(1907-1995)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Torga

segunda-feira, outubro 12, 2015

Vem, adormece encostada a este braço mais débil que o teu. Vem, sem que eu te chame, ou te prometa a vida, pede Miguel Torga ao seu grande amor.


Hora de amor

Adormece encostada a este braço
Mais débil do que
o teu.
Entrega te despida
Nas mãos dum homem solitário
Que a maldição não deixa
Que possa nem sequer lutar por ti.
Vem,
Sem que eu te chame,
ou te prometa a vida.
E sente que ninguém,
No descampado deste mundo,tem
A alma mais guardada e protegida.

Miguel Torga
(1907-1995)

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quarta-feira, maio 27, 2015

Vem, adormece encostada a este braço mais débil que o teu. Vem, sem que eu te chame, ou te prometa a vida, pede Miguel Torga ao seu grande amor.


Hora de amor

Vem.
Adormece encostada a este braço
Mais débil do que o teu.
Entrega te despida
Nas mãos dum homem solitário
Que a maldição não deixa
Que possa nem sequer lutar por ti.
Vem,
Sem que eu te chame, ou te prometa a vida.
E sente que ninguém,
No descampado deste mundo, tem
A alma mais guardada e protegida.

Miguel Torga
(1907-1995)

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sábado, maio 23, 2015

Há muito tempo já que não escrevo um poema de amor. E é o que eu sei fazer com mais delicadeza, diz o coração de Miguel Torga.


Quase um poema de amor

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
--- Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga
(1907-1995)

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sexta-feira, agosto 30, 2013

Miguel Torga admite que livre não é, mas quer a liberdade. E a traz dentro de si como um destino.


Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga
(1907-1995)

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quinta-feira, abril 25, 2013

A fábula da fábula, por Miguel Torga.


Fábula da fábula

Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.

E realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demônio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

Miguel Torga
(1907-1995)

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segunda-feira, março 11, 2013

Um poema melancólico a não sei que mulher. Um poema com um sentimento que pode ser o meu, o seu ou o de Miguel Torga.


Poema melancólico a não sei que mulher

Dei-te os dias, as horas e os minutos 
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão... 


Miguel Torga
(1907-1995)

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quarta-feira, janeiro 23, 2013

Em seu comunicado, Miguel Torga não diz nada de novo. E diz tudo que realmente importa.


Comunicado


Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.

Miguel Torga
(1907-1995)

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quinta-feira, dezembro 06, 2012

De um lado e doutro, terra e gente. Para Miguel Torga, lados e filhos desta mesma serra, o mesmo céu os olha e os consente.


Fronteira

De um lado terra, doutro lado terra;
De um lado gente. doutro lado gente;
Lados e filhos desta mesma serra,
O mesmo céu os olha e os consente.

O mesmo beijo aqui; o mesmo beijo além;
Uivos iguais de cão ou de alcatéia.
E a mesma lua lírica que vem
Corar meadas de uma velha teia.

Mas uma força que não tem razão,
Que não tem olhos, que não tem sentido,
Passa e reparte o coração
Do mais pequeno tojo adormecido.

Miguel Torga 
(1907-1995)

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quarta-feira, outubro 31, 2012

Para Miguel Torga, aquela luz maluca na noite, coração que palpita por tudo o que há de vir, ninguém vê, ninguém crê. Senão quem teve o desespero de partir.


Farol

Luz maluca na noite, coração
Que palpita por tudo o que há de vir:
Ninguém te vê, ninguém te crê, senão
Quem teve o desespero de partir.

Quem se venceu na própria solidão,
E num frágil veleiro quis abrir
O mar salgado de uma condição
Onde a altura do céu vinha cair.

Quem, afogado em pranto, reconhece
No teu aceno inquieto e tutelar
Outra vida mais larga que amanhece,

Fresca de pressentir e germinar,
Lá numa praia branca onde apodrece
Quem nela só consegue naufragar.

Miguel Torga 
(1907-1995)

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quarta-feira, setembro 19, 2012

Não saibas, imagine. Sonhe e voe pela janela de encontro a qualquer sol que te sorria, aconselha com sabedoria Miguel Torga.


Instrução primária

Não saibas: imagina…
Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões…
Um á-bê-cê secreto
Que soletras à margem das lições…

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...

Miguel Torga 
(1907-1995)

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quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Canta-lhe o vento as áreas que conhece e nenhuma perturba aquele olhar. Para Miguel Torga, um olhar que quer descobrir paradas seivas da vida que a razão lhe diz.


Fascinação


Canta-lhe o vento as áreas que conhece,
E nenhuma perturba aquele olhar.
Nenhuma o transfigura ou adormece
E o tira de sentir e de fitar.

Terra de consciência iluminada,
Limpa na sua luz pensada e fria,
A celeste canção enluarada
Nenhuma paz humana lhe daria.

Não, porque o vento só conduz aladas
Forças que oscilam a raiz;
E aquele olhar quer descobrir paradas
Seivas da vida que a razão lhe diz.

Miguel Torga 
(1907-1995)

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sábado, outubro 08, 2011

Vem, sem que eu te chame, ou te prometa a vida. E sente que ninguém tem a alma mais guardada e protegida, diz Miguel Torga em hora de amor.



Hora de amor

Vem,
Adormece encostada a este braço
Mais débil do que o teu.
Entrega-te despida
Nas mãos dum homem solitário
Que a maldição não deixa
Que possa nem sequer lutar por ti.
Vem,
Sem que eu te chame, ou te prometa a vida.
E sente que ninguém,
No descampado deste mundo, tem
A alma mais guardada e protegida.

Miguel Torga
(1907-1995)

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sábado, maio 21, 2011

Vem, sem que eu te chame, ou te prometa a vida. E sente que ninguém tem a alma mais guardada e protegida, diz Miguel Torga em hora de amor.


Hora de amor

Vem.
Adormece encostada a este braço
Mais débil do que o teu.
Entrega te despida
Nas mãos dum homem solitário
Que a maldição não deixa
Que possa nem sequer lutar por ti.
Vem,
Sem que eu te chame, ou te prometa a vida.
E sente que ninguém,
No descampado deste mundo, tem
A alma mais guardada e protegida.

Miguel Torga 
(1907-1995)

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segunda-feira, novembro 15, 2010

Havia um muro e foi contra ele que arremeti a vida inteira. A honra era lutar e quanto mais lutava mais perdia, no depoimento sentido de Miguel Torga.



Depoimento

De seguro, 
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.
A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.


Miguel Torga

(1907-1995)

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quarta-feira, agosto 04, 2010

Vem, entrega-te despida nas mãos do homem solitário que a maldição não deixa que possa sequer lutar por ti. Vem, pede Miguel Torga em hora de amor.



Hora de amor


Vem.
Adormece encostada a este braço
Mais débil do que o teu.
Entrega te despida
Nas mãos dum homem solitário
Que a maldição não deixa
Que possa nem sequer lutar por ti.
Vem,
Sem que eu te chame, ou te prometa a vida.
E sente que ninguém,
No descampado deste mundo, tem
A alma mais guardada e protegida.

Miguel Torga
(1907-1995)

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domingo, abril 11, 2010

Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria matar a sede com água salgada, na súplica de Miguel Torga.


Súplica


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

(1907-1995)

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quarta-feira, março 24, 2010

Para Miguel Torga, chama-se liberdade o bem que sentes. E chamam-se tiranias os acenos que o mundo cá de baixo faz.


Preservação


Chama-se liberdade o bem que sentes,
Águia que pairas sobre as serranias;
Chamam-se tiranias
Os acenos que o mundo
Cá de baixo faz;
Não desças do teu céu de solidão,
Pomba da verdadeira paz,
Imagem de nenhuma servidão!

Miguel Torga
(1907-1995)

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quarta-feira, janeiro 06, 2010

Recomeça, se puderes, sem angústia e sem pressa. E de nenhum fruto queiras só metade, és homem não te esqueças, lembra Miguel Torga em seus versos.


Recomeça...

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga
(1907-1995)

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quinta-feira, outubro 01, 2009

Miguel Torga admite que livre não é, mas quer a liberdade. E a traz dentro de si como um destino.


Conquista


Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga
(1907-1995)

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