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sábado, setembro 24, 2011
Para Vicente de Carvalho, aqueles são olhos encantados, olhos pensativos que fazem sonhar, olhos tentadores da mulher amada, olhos abençoados, cheios de promessas. São olhos verdes.
Olhos verdes
Olhos encantados, olhos cor do mar,
olhos pensativos que fazeis sonhar!
Que formosas coisas, quantas maravilhas
em vos vendo sonho, em vos fitando vejo;
cortes pitorescos de afastadas ilhas
abanando no ar seus coqueirais em flor,
solidões tranquilas feitas para o beijo,
ninhos verdejantes feitos para o amor...
Olhos pensativos que falais de amor!
Vem caindo a noite, vai subindo a lua...
O horizonte, como para recebê-las,
de uma fímbria de ouro todo se debrua;
afla a brisa, cheia de ternura ousada,
esfolando as ondas, provocando nelas
bruscos arrepios de mulher beijada...
Olhos tentadores da mulher amada!
Uma vela branca, toda alvor, se afasta
balançando na onda, palpitando ao vento;
ei-la que mergulha pela noite vasta,
pela vasta noite feita de luar;
ei-la que mergulha pelo firmamento
desdobrado ao longe nos confins do mar...
Olhos cismadores que fazeis cismar!
Branca vela errante, branca vela errante,
como a noite é clara! como o céu é lindo!
leva-me contigo pelo mar... Adoante!
fímbria do horizonte onde te vais sumindo
e onde acaba o mar e de onde o céu começa...
Olhos abençoados, cheios de promessas!
Olhos pensativos que fazeis sonhar, olhos cor do mar.
Vicente de Carvalho
(1866-1924)
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domingo, fevereiro 28, 2010
Vicente de Carvalho não espera o bem que mais deseja. Ele até conta o mal que vê, mas o amor, que é cego, pôs-se a sonhar o bem que não existe.
Eu não espero o bem que mais desejo
Eu não espero o bem que mais desejo:
sou condenado, e disso convencido;
vossas palavras, com que sou punido,
são penas e verdades de sobejo.
O que dizeis é mal muito sabido,
pois nem se esconde nem procura ensejo
e anda à vista naquilo que mais vejo:
em vosso olhar, severo ou distraído.
Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:
ao meu amor desamparado e triste
toda a esperança de alcançar-vos nego.
Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;
conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,
pôs-se a sonhar o bem que não existe.
Vicente de Carvalho
(1866-1924)
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sexta-feira, janeiro 08, 2010
Vicente de Carvalho confessa estar arrebatado por um acesso de raivosa paixão desatinada. E viu que tinha para tão grande amor, bem curtas pernas...
Corrida de amor
Quando partiste, em pranto, descorada
a face, o lábio trêmulo...confesso:
arrebatou-me um verdadeiro acesso
de raivosa paixão desatinada.
Ia-se nos teus olhos, minha amada,
a luz dos meus; então, como um possesso,
quis arrojar-me atrás do trem expresso
e seguir-te correndo pela estrada...
"Nem há dificuldade que não vença
tão forte amor!" pensei. Ah! como pensa
errado o vão querer das almas ternas!
Com denodo, atirei-me sobre a linha...
Mas, ao fim de uns três passos, vi que tinha
para tão grande amor, bem curtas pernas..."
Vicente de Carvalho
(1866-1924)
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domingo, abril 26, 2009
No belo poema de Vicente de Carvalho, tudo se arranca do seio. Só não se arranca a lembrança de quando se foi feliz.
Saudade
Belos amores perdidos,
Muito fiz eu com perder-vos;
Deixar-vos sim; esquecer-vos
Fora demais, não o fiz.
Tudo se arranca do seio,
- Amor, desejo, esperança...
Só não se arranca a lembrança
De quando se foi feliz.
Vicente de Carvalho
(1866-1964)
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