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sexta-feira, outubro 05, 2012

O amor armou a clava da tarde e seu alarme. E em mais amor solvemos o que se faz pequeno, na cantata de Carlos Nejar.


Cantata em rodas plumas


O amor armou a clava
da tarde e seu alarme.
Quer, albatroz, levar-me
onde alcançam suas asas.

Vem, ditoso, acordar-me.
Quer nos levar nas rodas
das plumas e avalanches.
Nós chegaremos antes

com jubilosas almas,
que se absorvem, alvas
e salvas, nos redutos.
De céu a céu, conceitos

são cinzas e ferrugem.
E os que se amam, pungem
de amar, e mais amando
em gozo, em gozo, em bombo

ou nos vestígios, nuvens;
nos elos desta lava.
Em mais amor solvemos
o que se faz pequeno.

Carlos Nejar
(1939)

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quinta-feira, novembro 10, 2011

Carlos Nejar tem a crença de que ainda será eterno. Só não sabe quando.


Crença

Ainda serei eterno.
Não sei quando.
Sei que a sombra se alonga
e eu me alongo,
bólide na erva.

Ainda serei eterno.
Tenho ânsias cativas
no caderno. Cortejo
de símbolos, navios
e nunca mais me encerro
no meu fio.

Ainda serei eterno.
O mês finda, o ano,
o recomeço.
E o fraterno em mim
quer campo, monte, algibe.
Mas sou pequeno
para tanto aceno.

Metáforas me prendem
o eterno
que se pretende isento.

Numa dobra me escondo;
Noutra, deito.
Os nomes me percorrem no poente.
Sou sobrevivente
de alguma alta esfera
que saía de si mesma
e é primavera.

O eterno ainda será viável
como o sol, o dia,
o vento,
misturado ao que me entende
e transborda.
Misturado ao permanente
que me sobra.  

Carlos Nejar
(1939)

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segunda-feira, outubro 10, 2011

Carlos Nejar viu o vento lavar as pedras, as noites, as águas. O vento lavou até o vento, mas ficaram as palavras.



Pedra-vento

O vento lavou as pedras,
mas ficaram as palavras.
O vento lavou as pedras
com sabor de madrugada.

O vento lavou as noites,
mas ficaram as estrelas.

O vento lavou a noite
com água límpida e mansa.
Mas não lavou a salsugem.

O vento lavou as águas,
mas não lavou a inocência
que amadurece nas águas.

O vento lavou o vento.

Carlos Nejar
(1939)
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quinta-feira, julho 28, 2011

Carlos Nejar diz que até a eternidade está à venda por dívida. E no despejo final, só ratos e formigas.


A dívida 

A dívida aumenta,
A do país e a nossa.

Cada manhã sabemos
que se acumula a dívida.
A grama que pisamos
é dívida.
A casa é uma hipoteca
que a noite vai adiando.
E os juros na hora certa.

Ao fim do mês o emprego
é dívida que aumenta
com o sono. Os pesadelos.
E nós sempre mais pobres
vendemos por varejo ou menos,
o Sol, a Lua, os planetas,
até os dias vincendos.

A dívida aumenta
por cálculo ou sem ele.
O acaso engendra
sua imagem no espelho
que ao refletir é dívida.

A eternidade à venda
por dívida.
A roça da morte
em hasta pública
por dívida.
A hierarquia dos anjos
deixou o céu por dívida.
No despejo final:
só ratos e formigas.

Carlos Nejar
(1939)

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sexta-feira, junho 24, 2011

Só o amor é nosso, e o soluço. Assim é a família para Carlos Nejar.



Família

Nossa família: as estações.
Nada sobra
do que julgam ser
as propriedades.

O corpo, a alma,
apenas usufruto.
Também os meus deveres.

Só o amor é nosso.
E o soluço.

Carlos Nejar
(1939)

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terça-feira, maio 24, 2011

Carlos Nejar diz que o homem é sempre mais forte se a outro homem se aliar. E que por mais que a morte desfaça, há um homem sempre a lutar.


O homem sempre é mais forte

O vento faz seu caminho
onde o sol desemboca o mar,
onde a terra tarja o vinho,
onde a noite é seu lagar.
O vento faz seu caminho
onde os mortos vão deitar
e a noite move moinho,
move outra noite no mar.

O vento faz seu caminho

e pássaros vão pousar
na floração dos moinhos
que amadurecem o mar.

O vento faz seu caminho
onde há sede de plantar,
onde a semente é destino
que um sulco não pode dar.

II

O homem é sempre mais forte
se a outro homem se aliar;
o arado faz caminho
no seu tempo de cavar.

No mesmo mar que nos leva,
o vento nos quer buscar;
o que é da terra é do homem,
onde o arado vai brotar.

Por mais qua a morte desfaça,
há um homem sempre a lutar;
o vento faz seu caminho
por dentro, no seu pomar.

Carlos Nejar
(1939)

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sábado, março 05, 2011

Liberdade, sem ti nada mais sei. Assim, Carlos Nejar compreende o mundo e se faz viver


Elegia


Liberdade,
sem ti nada mais sei.

Compreendi o mundo
em ti, sutil
compêndio.

Amei muito antes
de me amares,
entre surtos e sulcos.

Amei
e só a morte
de perder-te
me faz viver
multiplicando
auroras, meses.

E sou tão doido
que o riso inútil
percorri
de me perder, perdendo-te,
perdido em mim.

Carlos Nejar

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sexta-feira, setembro 10, 2010

Coisas, coisas, vos amei por excesso. E o universo me foi alto preço, no lamento dos versos de Carlos Nejar.


Coisas, coisas

A despeito do amor,
as coisas todas
se fizeram ao mar.
Não quis retê-las.
Não conheci regresso.
Coisas, coisas
vos amei por excesso.
E o universo
me foi alto preço.

Todos os bens
vendidos em leilão.
O ar vendido.
Os rios.
As estações.

Comprei arrobas de chuva
ao meu pomar.
Trouxe neblina
de arrasto
pela morte.

Comprei a noite
e dei o menor lance
ao horizonte.

Coisas, coisas
vos amei por excesso.

Carlos Nejar

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quinta-feira, agosto 12, 2010

Nos versos de Carlos Nejar, Giordano Bruno fala aos seus julgadores. Não é a mim que condenais, mas não podereis calar-me.


Giordano Bruno fala aos seus julgadores


Não é a mim
que condenais.

Nada podeis
roubar-me.
A verdade sofreu
e eu sofri
no grão dos ossos.

A vida não me veio
para mim.
E servirei de vau
a seu moinho.

Não cedo
o que aprendi
com os elementos.

Prefiro o fogo,
à vossa complacência.
E o fogo não remói
o que está vendo.

Abre flancos
no avental
das cinzas esbraseadas.

O fogo
de flamejante língua
e sem coleira:
morde.
E testemunha
sem favor dos anjos.

Não é a mim
que condenais.

A Inquisição
vos fragmentou
e ao vosso juízo.

A ciência toda
é aparência de outra
que nada em nós
como se fora água
do coração.

Eu me fiei
ao universo
e sou janela
de harmonia
indelével.

Não vos julgo.

O que se move
é a história
no caule da fogueira.

Sou de uma raça
que procede do fogo.

Não podereis calar-me.


Carlos Nejar

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quinta-feira, junho 03, 2010

Início de arte, excesso de morte? Mudo evaporar-se de silêncios altos: eis a eternidade para Carlos Nejar.


Flagrante


Eia a eternidade.
Tudo se bifurca
nestas amplas margens
de águas insaciáveis
onde trilham remos.

É menear de ombros?
É alvor de coisas
nunca regressadas?
Rumores de lebre
por entre ruínas:
eis a eternidade.

Nada ali se trunca,
invisível bússola,
aluvião de sendas,
corda absoluta.
O que nela esmaga
é um jorrar de nuncas.
Eia a eternidade.

Busco a outra face
de alguém que não toco
e jamais percebo:
eis a eternidade.

Um puro acabar-se
de rotas palavras.
Início de arte?
Excesso de morte?
Mudo evaporar-se
de silêncios altos.

Eia a eternidade.

Carlos Nejar

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quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Carlos Nejar sente que há uma devastação nas coisas e nos seres. Mas as lavas soprarão, enquanto nós vivermos.


Poema da devastação


Há uma devastação
nas coisas e nos seres,
como se algum vulcão
abrisse as sobrancelhas
e ali, sobre esse chão,
pousassem as inteiras
angústias, solidões,
passados desesperos
e toda a condição
de homem sem soleira,
ventura tão curta,
punição extrema.

Há uma devastação
nas águas e nos seres;
os peixes, com seus viços,
revolvem-se no umbigo
deste vulcão de escamas.

Há uma devastação
nas plantas e nos seres;
o homem recurvado
com a pálpebra nos joelhos.
As lavas soprarão,
enquanto nós vivermos.

Carlos Nejar

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terça-feira, janeiro 19, 2010

Carlos Nejar sabe que amar é a mais alta constelação. E que aqui ficam as coisas.


Aqui ficam as coisas


Aqui ficam as coisas.

Amar é a mais alta constelação.

Os sapatos sem dono
tripulando
na correnteza-espaço
em que deitamos.

As minhas mãos telhado
no teu rosto de pombas.

Os corpos circulando
na varanda dos braços.

É a mais alta constelação.

Carlos Nejar

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domingo, novembro 01, 2009

No casulo há um homem, mas o fundo é o outro lado. E o mundo é o outro lado que começa, nos versos de Carlos Nejar.


Construção da noite


No casulo há um homem
mas o fundo é o outro lado.
No casulo de seu tempo há um homem,
mas o fundo é o outro lado.
É o casulo onde o homem foi achado,
mas o fundo é o outro lado.
É o terreno onde o homem foi lavrado,
mas o fundo é o outro lado.
É a treva onde o homem foi fechado,
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio de um homem soterrado,
mas o fundo é o outro lado.
Mas o fundo é o outro lado.

É a infância que nasce sobre o morto,
é a infância que cresce sobre o morto,
é o sol que madruga no seu rosto,
é um homem que salta do sol posto
e convoca outros homens para o sonho
e mistura-se à terra
e mistura-se ao sonho.

E o canto recomeça além do sonho,
além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado,
mas o fundo principia sem passado,
sem os montes, sem os barcos, sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado.
Tua terra verdadeira é o outro lado.
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa.
Tudo cessa,
tudo cessa.
Mas o mundo
é o outro lado
que começa.

Carlos Nejar

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segunda-feira, outubro 05, 2009

Nada tenho de meu, nem os sapatos que vão acompanhar este defunto. Não foram nunca meus, sonhos e fatos, reconhece com tristeza Carlos Nejar.


Poemas e sapatos


Nada tenho de meu, nem os sapatos
que vão acompanhar este defunto.
Nem tampouco montanhas e regatos
que habitavam o verso, nem o indulto

pode valer-me, o soldo, mero extrato
de contas. Nada tenho, nem o intuito
consome esta vontade ou desacato.
Desapareça o nome, seu reduto

de carne e bronze, a fome incorporada
e mais desapareça onde fecundos
são dias e são deuses nesta amada.

Não foram nunca meus - sonhos e fatos.
Nada tenho. Poemas e sapatos
irão reconhecer-me noutro mundo.

Carlos Nejar

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terça-feira, setembro 01, 2009

No cárcere injusto, secaram tudo, secaram a vida do homem. Mas a idéia não secam e brota do mundo, ensina Carlos Nejar.


Secaram o corpo


Secaram o corpo
que o sangue reveste;
secaram o corpo,
a idéia não secam.

É árida e dura
no cérebro fértil;
secaram os gestos,
a idéia não secam.

É híspida e crua,
de lance inflexível;
a guerra lhe fura
o peito e a figura.

A idéia perdura
no sangue mais pura;
secaram os gestos,
a idéia não secam.

Secaram-lhe os músculos
no cárcere injusto;
secaram-lhe a vida,
secaram-lhe tudo.

A idéia não secam
e brota do mundo.


Carlos Nejar

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terça-feira, agosto 04, 2009

Soprava o mar. E Carlos Nejar mudou, mudou de não mudar.


Se perguntas

I

Se perguntas onde fui,
devo dizer: o mar.
Estive sempre ali,
mesmo estando a mudar.

Foi ali que escrevi
tua pele, teu suor.
Ao tempo, seus faróis.
Não mudei de mudar.

II

O que mudou em mim,
senão andar mudando
sem nunca mais mudar?

Quem mudará em mim,
se não sei mudar?

III

Ou me mudei. Sou outro.
Outra ventura, outra
virtude, cadência,
remota criatura.

Então que se apresente.
Seja tenaz, plausível
esse rosto invisível
e áspero.

Mudei. Soprava o mar.
Mudei de não mudar.

Carlos Nejar

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domingo, junho 07, 2009

Para Carlos Nejar, é preciso esperar contra a esperança. Esperar, amar, criar e depois desesperar a esperança.


Contra a esperança


É preciso esperar contra a esperança.
Esperar, amar, criar
contra a esperança
e depois desesperar a esperança
mas esperar, enquanto
um fio de água, um remo,
peixes existem e sobrevivem
no meio dos litígios;
enquanto bater
a máquina de coser
e o dia dali sair
como um colete novo.

É preciso esperar
por um pouco de vento,
um toque de manhãs.
E não se espera muito.
Só um curto-circuito
na lembrança. Os cabelos,
ninhos de andorinhas
e chuvas. A esperança,
cachorro a correr
sobre o campo
e uma pequena lebre
que a noite
em vão esconde.

O universo é um telhado
com sua calha, tão baixo
e as estrelas, enxame
de abelhas na ponta.

É preciso esperar contra a esperança
e ser a mão pousada
no leme de sua lança.

E o peito da esperança
é não chegar;
seu rosto é sempre mais.
É preciso desesperar
a esperança
como um balde no mar.

Um balde a mais
na esperança
e sobre nós.

Carlos Nejar

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quarta-feira, abril 15, 2009

Coisas, coisas, vos amei por excesso. E a despeito do amor, as coisas todas se fizeram ao mar, lamenta Carlos Nejar em seus versos.


Coisas, coisas


A despeito do amor,
as coisas todas
de fizeram ao mar.
Não quis retê-las.
Não conheci regresso.
Coisas, coisas
vos amei por excesso.
E o universo
me foi alto preço.

Todos os bens
vendidos em leilão.
O ar vendido.
Os rios.
As estações.

Comprei arrobas de chuva
ao meu pomar.
Trouxe neblina
de arrasto
pela morte.

Comprei a noite
e dei o menor lance
ao horizonte.

Coisas, coisas,
vos amei por excesso.

Carlos Nejar

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sábado, março 14, 2009

O que está morto está morto, está morto. Mas todas as minhas raízes estão contigo, diz Carlos Nejar à sua amada.


Todas as minhas raízes


Todas as minhas raízes
estão contigo.

Que a fome, a sede
se renovem.
E sejamos tão antigos
no amor e novos
junto aos meses.
Sim, o pátio dos meses.

O ar já não pousa
sobre as coisas humanas.
O fusível do ar.

O que está morto
está morto
está morto.
Mas todas as minhas raízes
estão contigo.

As flores que nunca morrem,
são essas que em ti se movem.

Todas as minhas raízes,
as minhas raízes.
Até as mais aéreas.

Carlos Nejar

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quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Se perguntas, Carlos Nejar diz que não mudou de mudar. Ele é outro, mudou, mudou de não mudar.


Se perguntas


I

Se perguntas onde fui,
devo dizer: o mar.
Estive sempre ali,
mesmo estando a mudar.

Foi ali que escrevi
tua pele, teu suor.
Ao tempo, seus faróis.
Não mudei de mudar.

II

O que mudou em mim,
senão andar mudando
sem nunca mais mudar?

Quem mudará em mim,
se não sei mudar?

III

Ou me mudei. Sou outro.
Outra ventura, outra
virtude, cadência,
remota criatura.

Então que se apresente.
Seja tenaz, plausível
esse rosto invisível
e áspero.

Mudei. Soprava o mar.
Mudei de não mudar.

Carlos Nejar

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