quarta-feira, novembro 26, 2008

A lavadeira, essa mulher, de mãos rudes, deformadas, olhar distante, parado no tempo. À ela, Cora Coralina faz deste poema seu altar de ofertas.


A lavadeira

Essa Mulher...
Tosca.Sentada. Alheada...
Braços cansados
Descansando nos joelhos...
olhar parado, vago,
perdida no seu mundo
de trouxas e espuma de sabão
- é a lavadeira.

Mãos rudes, deformadas.
Roupa molhada.
Dedos curtos.
Unhas enrugadas.
Córneas.
Unheiros doloridos
passaram, marcaram.
No anular, um círculo metálico
barato, memorial.

Seu olhar distante,
parado no tempo.
À sua volta
- uma espumarada branca de sabão

Inda o dia vem longe
na casa de Deus Nosso Senhor
o primeiro varal de roupa

festeja o sol que vai subindo
vestindo o quaradouro
de cores multicores.

Essa mulher
tem quarentanos de lavadeira.
Doze filhos
crescidos e crescendo.

Viúva, naturalmente.
Tranqüila, exata, corajosa.

Temente dos castigos do céu.
Enrodilhada no seu mundo pobre.

Madrugadeira.

Salva a aurora.
Espera pelo sol.
Abre os portais do dia
entre trouxas e barrelas.

Sonha calada.
Enquanto a filharada cresce
trabalham suas mãos pesadas.

Seu mundo se resume
na vasca, no gramado.
No arame e prendedores.
Na tina d’água.
De noite – o ferro de engomar.

Vai lavando. Vai levando.
Levantando doze filhos
Crescendo devagar,
enrodilhada no seu mundo pobre,
dentro de uma espumarada
branca de sabão.

Às lavadeiras do Rio Vermelho
da minha terra,
faço deste pequeno poema
meu altar de ofertas.

Cora Coralina

(1889-1985)

Mais sobre Cora Coralina em

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cora_Coralina

2 comentários:

Ronaldo disse...

O blog é ótimo, mas eu achei ridículo bloquear a opção de copiar os poemas aqui, esses poemas são de domínio publico, não pertencem a vocês, além do que os "poemas pertencem a quem precisa deles"
Grande abraço.

José Antonio disse...

Ronaldo,
O bloqueio a que você se refere é um problema técnico gerado, ao que parece, por um dos contadores.
Como não entendo nada dessa área, até hoje não consegui resolver o problema.
Mas como editor do Poemblog, posso lhe garantir que não existe a intenção de bloquear nada, principalmente porque, como você mesmo disse, "os poemas pertencem a quem precisa deles".
Pra copiar os poemas do blog, o que os nossos leitores têm feito é usar as funções Control C (copiar) e Control V (colar), o que resolve facilmente o problema.
Também tem sido muito usado o "envelope" do Blogger, de onde se pode enviar e-mails de todos os posts para qualquer endereço.
Obrigado pelo comentário.
Abraços,
José Antonio