sábado, maio 17, 2008

Ferreira Gullar nos ensina que o poema é uma coisa que não tem nada dentro. A não ser uma imprecisa voz que não quer se apagar - essa voz somos nós.


Não-coisa


O que o poeta quer dizer

No discurso não cabe

e se o diz é pra saber

o que ainda não sabe.


Uma fruta uma flor

um odor que relume...

como dizer o sabor,

seu clarão seu perfume?


Como enfim traduzir

na lógica do ouvido

o que na coisa é coisa

e que não tem sentido?


A linguagem dispõe

de conceitos, de nomes

mas o gosto da fruta

só o sabes se a comes.


só o sabes no corpo

o sabor que assimilas

e que na boca é festa

de saliva e papilas


invadindo-te inteiro

tal dum mar o marulho

e que a fala submerge

e reduz a um barulho,


um tumulto de vozes,

de gozos, de espasmos,

vertiginoso e pleno

como são os orgasmos


No entanto, o poeta

desafia o impossível

e tenta no poema

dizer o indizível:


subverte a sintaxe

implode a fala, ousa

incutir na linguagem

densidade de coisa


sem permitir, porém,

que perca a transparência

já que a coisa é fechada

à humana consciência.


O que o poeta faz

mais do que mencioná-la

é torna-la aparência

pura – e iluminá-la.


Toda coisa tem peso

uma noite em seu centro.

O poema é uma coisa

que não tem nada dentro,


a não ser o ressoar

de uma imprecisa voz

que não quer se apagar

- essa voz somos nós.


Ferreira Gullar

Mais sobre Ferreira Gullar em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ferreira_Gullar

2 comentários:

Johnn. disse...

na verdade o poema é do Ferreira Gullar



parabens pelo blog
aqui entro todos os dias e me deparo com lindos poemas!

José Antonio disse...

John,
Você tem toda razão; por uma falha nossa na edição com as novas ferramentas do Blogger, deixou de ser publicado o poema "Alumbramento", de Manuel Bandeira - que será publicado amanhã - e em seu lugar foi indevidamente publicado, com o título trocado, atribuído a Manuel Bandeira, o poema "Não-coisa". de Ferreira Gullar, do livro "Muitas vozes", 1999, que já estava programado para uma próxima postagem.
Muito obrigado pela sua pronta e generosa colaboração, sem a qual talvez nossa falha não tivesse sido percebida a tempo de fazermos as correções necessárias.
É de amantes da poesia como você que nos alimentamos para manter o Poemblog vivo.
Abraços,
José Antonio