sábado, abril 19, 2008

Que importa àquele a quem já nada importa que um perca e outro vença, se a aurora nasce sempre? Ricardo Reis preferia rosas à pátria.


Prefiro rosas

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis, um dos heterônimos de

Fernando Pessoa

(1888-1935)

Mais sobre Fernando Pessoa em

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa


2 comentários:

Jac disse...

Lindo!!! O poeta se deixa ficar num quase abandono diante dos fatos imutáveis...se permite apenas existir.
"Que importa àquele a quem já nada importa..." e "Que me aumenta na alma..."
Obrigada pela poesia de cada dia!!!

Rodrigo disse...

Denota as fases da vida.