terça-feira, junho 17, 2008

No auge do nazismo, Bertolt Brecht alerta para o perigo que a propaganda representa para os povos. Infelizmente, uma lição não aprendida até hoje.


Necessidade da propaganda

1

É possível que em nosso país nem tudo ande como deveria andar.

Mas ninguém pode negar que a propaganda é boa.

Mesmo os famintos devem admitir

Que o Ministro da Alimentação fala bem.

2

Quando o regime liquidou mil homens

Num único dia, sem investigação nem processo

O Ministro da Propaganda louvou a paciência infinita do Führer

Que havia esperado tanto para ter a matança

E havia acumulado os patifes de bens e distinções

Fazendo-o num discurso tão magistral, que

Naquele dia não só os parentes das vítimas

Mas também os próprios algozes choraram.

3

E quando em um outro dia o maior dirigível do Reich

Se desfez em chamas, porque o haviam enchido de gás inflamável

Poupando o gás não-inflamável para fins de guerra

O Ministro da Aeronáutica prometeu diante dos caixões dos mortos

Que não se deixaria desencorajar, o que ocasionou

Uma grande ovação. Dizem que houve aplausos

Até mesmo de dentro dos caixões.

4

E como é exemplar a propaganda

Do lixo e do livro do Führer!

Todo mundo é levado a recolher o livro do Führer

Onde quer que esteja jogado.

Para propagar o hábito de juntar trapos*, o poderoso Gõring

Declarou-se o maior “juntador de crápulas” de todos os tempos

E para acomodar os crápulas* fez construir

No centro da capital do Reich

Um palácio ele mesmo do tamanho de uma cidade.

5

Um bom propagandista

Transforma um monte de esterco em local de veraneio.

Quando não há manteiga, ele demonstra

Como um talhe esguio faz um homem esbelto.

Milhares de pessoas que o ouvem discorrer sobre as auto-estradas

Alegram-se como se tivessem carros.

Nos túmulos dos que morreram de fome ou em combate

Ele planta louros. Mas já bem antes disso

Falava de paz enquanto os canhões passavam.

6

Somente através de propaganda perfeita

Pôde-se convencer milhões de pessoas

Que o crescimento do Exército constitui obra de paz

Que cada novo tanque é uma pomba da paz

E cada novo regimento uma prova de

Amor à paz.

7

Mesmo assim: bons discursos podem conseguir muito

Mas não conseguem tudo. Muitas pessoas

Já se ouve dizerem: pena

Que a palavra “carne” apenas não satisfaça, e

Pena que a palavra “roupa” aqueça tão pouco.

Quando o Ministro do Planejamento faz um discurso de louvor à nova impostura

Não pode chover, pois seus ouvintes

Não têm com que se proteger.

8

Ainda algo mais desperta dúvidas

Quanto à finalidade da propaganda: quanto mais propaganda há em nosso país

Tanto menos há em outros paises.


Bertolt Brecht

(1898-1956)

Mais sobre Bertolt Brecht em

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bertolt_Brecht

2 comentários:

Ana Paula disse...

Este MARAVILHOSO Blog, além de nos trazer doses diárias dos melhores e mais significativos poemas, que nos fazem sonhar, vermos e revermos nossos sentimentos, ainda nos proporciona reflexões e lições como esta de Brecht.
O título nos introduz aos versos que não devemos esquecer jamais!
Obrigada.
Ana Paula

Carmen Regina Dias disse...

eu fico de cara ... tudo que eu gosto, ainda que em doses homeopáticas, venho aqui,
e me é servido,
à francesa... maravilhoso.