segunda-feira, março 16, 2009

Comigo me desavim, não posso viver comigo nem posso fugir de mim. Com esta temática, Sá de Miranda criou uma grande polêmica em pleno Século XIV.


Comigo me desavim

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo,
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.

Com dor, de gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?

Francisco Sá de Miranda
(1481-1556)

Mais sobre Francisco Sá de Miranda em
http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A1_de_Miranda

6 comentários:

carlos disse...

esse texto causa uma sensação de divisão interna,de um falta de unidade nesse individuo apresentado,sendo que ele se desentendeu consigo mesmo e não consegue mais viver junto a ele.
Mas,de acordo com ele,seria inviavel uma escapatoria. Essa divisão o leva a um estado de temeridade, de vulnerabilidade, o deixa distante de um estado de segurança, que seria quando há uma unidade corporal.

carlos disse...

muito bom esse poema!!
ai está a analise!!

Fernando Villalba disse...

Impresionante! Um poeta nascido no final do século XV, morto na segunda metade do século XVI, ter criado polémica com um poema no século XIV!

"pois que trago a mim comigo..."

Luciano disse...

Muito boa a sua observação, Fernando! Estas coisas acontecem!
No mais, esta dicotomia existe em todos nós, em diferentes graus, e Sá de Miranda colocou brilhantemente a questão neste poema.

João Esteves disse...

Sem surpresa nenhuma, constato que este blog é, por assim dizer, um empório cultural. Clap clap clap!

Isabela Soares disse...

Achei lindo, e me identifiquei muito com ele. É profundo e mesmo sendo um curto poema, é mais expressante do que muitos, que tem muitas palavras e não dizem nada. Ele desperta a dualidade que acredito eu que haja em todos nós, aquela que depois de um surto, acordamos pela manhã e dizemos: "Fui eu que fiz isso? Eu sou assim..."