segunda-feira, agosto 17, 2009

No beijo de um minuto, quantos segundos de espanto. No poema de Vinicius de Moraes, esse beijo cria a eternidade e a vida, de tanta morte.


Um beijo


Um minuto o nosso beijo
Um só minuto, no entanto
Neste minuto de beijo
Quantos segundos de espanto!
Quantas mães e esposas loucas
Pelo drama de um momento
Quantos milhares de bocas
Uivando de sofrimento!
Quantas crianças nascendo
Para morrer em seguida
Quanta carne se rompendo
Quanta morte pela vida!
Quantos adeuses efêmeros
Tornados o último adeus
Quantas tíbias, quantos fêmures
Quanta loucura de Deus!
Que mundo de mal-amadas
Com as esperanças perdidas
Que cardume de afogadas
Que pomar de suicidas!
Que mar de entranhas correndo
De corpos desfalecidos
Que choque de trens horrendo
Quantos mortos e feridos!
Que dízima de doentes
Recebendo a extrema-unção
Quanto sangue derramado
Dentro do meu coração!
Quanto cadáver sozinho
Em mesa de necrotério
Quantas mortes sem carinho
Quanto canhenho funéreo!
Que plantel de prisioneiros
Tendo as unhas arrancadas
Quantos beijos derradeiros
Quantos mortos nas estradas!
Que safra de uxoricidas
A bala, a punhal, a mão
Quantas mulheres batidas
Quantos dentes pelo chão!
Que monte de nascituros
Atirados nos baldios
Quantos fetos nos monturos
Quanta placenta nos rios!
Quantos mortos pela frente
Quantos mortos à traição
Quantos mortos de repente
Quantos mortos sem razão!
Quanto câncer sub-reptício
Cujo amanhã será tarde
Quanta tara, quanto vício
Quanto enfarte do miocárdio
Quanto medo, quanto pranto
Quanta paixão, quanto luto!...
Tudo isso pelo encanto
Desse beijo de um minuto:
Desse beijo de um minuto
Mas que cria, em seu transporte
De um minuto, a eternidade
E a vida, de tanta morte.

Vinicius de Moraes
(1913-1980)

Mais sobre Vinicius de Moraes em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vinicius_de_Moraes

2 comentários:

Rachel disse...

PERFEITO!

Parece um pouco aquelas cenas de Hollywood, quando o cara vai morrer e vê toda sua vida de novo...
O Vinícius de olhos fechados num beijo apaixonado viu todo o mundo sendo, existindo. Lindo!

li disse...

tinha um voz bonita, encantadora...
um tom firme, palavras certas, calmas, pausadas, na simples intenção de dizer.
apenas dizer pode ser algo muito especial...
apenas olhar, ou ainda, apenas estar presente.
tinha uma presença, como se diz nas artes cênicas, com tonos.
mas um andar também firme.
percebi isso tudo em dois segundos de observação, entre um ou outro chaqualhão do carro, cheio de tantas coisas, compras, instrumentos, etc.
então foi fatal! Mas disfarcei.
o aguardo também é uma necessidade na arte da conquista.
meu olhar precisaria ser tão forte para alcançar aquela voz.
meus pensamentos também precisariam ter tonos...
mas o maior trunfo, descobri, na estação seguinte: a cor nas asas da borboleta de Caeiro,
pois "No movimento da borboleta o movimento é que se move" (...)
o resultado meus caros... é todo e tão somente de Vinícius de Moraes: Um beijo

Aline Fonseca
Conto Verdadeiro