segunda-feira, agosto 24, 2009

Cecília Meireles deixou passar a ronda lenta de muitas luas, mas a sua tristeza não diminuiu. E o seu Eleito não a vê, não a ouve, não a quer.


Novo poema da tristeza


Deixei passar a ronda lenta
De muitas luas,
Mas a minha tristeza não diminuiu...
Longe, longe,
O céu agora é deserto,
Como se houvesse morrido,
Como se houvesse acabado...
Sozinha, no meu luto,
Ergo as mãos,
Cheias de lágrimas,
Em oferenda...
Eleito, ó Eleito
Não me vês,
Não me ouves,
Não me queres!...
E vais deixar-me ficar assim
Toda a vida...
Oh! tem pena, ao menos,
Das aves,
Que podem vir beber
Nas minhas mãos,
E endoidecer depois,
Pelos ares,
Da tristeza que me endoidece...
Eleito, ó Eleito,
Deixei passar a ronda lenta
De muitas luas,
E a minha tristeza não diminuiu!...

Cecília Meireles
(1901-1964)

Mais sobre Cecília Meireles em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cec%C3%ADlia_Meireles

Um comentário:

Willians Rodrigues disse...

A tristeza não diminui apenas é manipulada, essa é minha visão sobre, a beleza do jogo de palavras e do despertar da curiosidade que Cecília faz me motiva a escrever e escrever...seja sobre amor ou tristeza.