sábado, abril 04, 2009

Pouco antes do horror da guerra, Brecht dedicou este lindo poema aos que iam nascer. Para quando chegasse o momento do homem ser parceiro do homem.


Aos que vão nascer


1

É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar
Por acaso fui poupado (Se minha sorte acaba, estou perdido!)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso beber e comer, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d'água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

2

À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.

3

Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pemsem em nós
Com simpatia.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

Mais sobre Bertolt Brecht em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bertolt_Brecht

2 comentários:

Rachel disse...

Eu encenei a primeira parte desse poema numa peça sobre 1968, ano passado...foi uma experiência maravilhosa, dizer essas palavras como se eu tivesse passado realmente por tudo isso.

Anônimo disse...

Rachel, sem laivos de moralista, mesmo que pareça querer lhe corrigir, mas: você passa por tudo isso! Todos passamos... Antes, era mais fácil saber contra quem apontar o dedo e acusar. Antes, haviam ditadores e homens-monstros a quem culpar. Rachel, a mais valia podia ser rastreada em sua trajetória até o bolso do capitalista facilmente, e o grito amarrado na garganta encontrava os ouvidos culpados aos quais estremecia os tímpanos anestesiados aos lamentos da fome, sede, frio, indignidade, solidão, falta de sentido. Mas Rachel, hoje a mais valia foi distribuída através do planeta! Rachel, mais que informação e capital, a globalização redistribuiu a culpa da desgraça e da desumanização. Querida Rachel, lhe digo, olhe mais uma vez, mas olhe no fundo da vida mesma e, sozinha, declame o poema novamente... Ainda vivemos em tempos negros, fato! Mas, honra seja feita a quem nos honrou como seus pósteros, as armas e a visão de coisas que temos possibilidade de manusear hoje em dia, se assim quisermos, se assim escolhermos, são mais potentes graças àqueles que lutaram a vida inteira para que o Homem Fosse Parceiro do Homem. Rachel, vivemos em tempos negros. Mas chega a hora da luz romper estas trevas. Percebendo que o maior campo de combate se entricheirou dentro da sua mente e coração; dando-se conta de que todos os preconceitos de "raças", sexos, crianças, culturas e natureza, e toda a merda que sustenta a desumanização pela qual somos forçados a passar só se reproduzem nas próprias atitudes e ações pessoais (não no que você desejaria fazer, só no que você efetivamente faz!) no que as vezes julga ser o dia-a-dia mais banal; percebendo isto (e lhe afirmo: dói sabê-lo), você poderá escolher, simples assim! Escolher perpetuar trevas ou deixar a luz entrar no seu mundo compartilhado por aqueles que lhe são próximos (o único mundo do qual você irá dispor durante toda sua vida é o mundo dos que lhe são próximos - abra os olhos e dilate seu presente! Olhe em volta e se surpreenda).