quinta-feira, agosto 26, 2010

Clarice Lispector berra e rasga suas entranhas profundas. Só lhe resta ficar nua, não tem mais nada a perder.



Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
 
Clarice Lispector
(1920-1977)

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Um comentário:

Descanso da Alma disse...

Que densidade, acabei visualizando-a rasgando a blusa e gritando num dia de chuva, como quem rasga a própria alma deixando-a completamente nua.

Abraços