segunda-feira, outubro 24, 2011

Dói-me quem sou, diz Alberto Caeiro. Para ele, é como se na imensa solidão de uma alma a sós consigo, o coração tivesse cérebro e conhecimento.


Dói-me

Dói-me quem sou. E em meio da emoção
Ergue a fronte de torre um pensamento
É como se na imensa solidão
De uma alma a sós consigo, o coração
Tivesse cérebro e conhecimento.

Numa amargura artificial consisto,
Fiel a qualquer idéia que não sei,
Como um fingido cortesão me visto
Dos trajes majestosos em que existo
Para a presença artificial do rei.

Sim, tudo é sonhar quanto sou e quero.
Tudo das mãos caídas se deixou.
Braços dispersos, desolado espero.
Mendigo pelo fim do desespero,
que quis pedir esmola e não ousou.

Alberto Caeiro, um dos heterônimos de

Fernando Pessoa
(1888-1935)

Mais sobre Fernando Pessoa em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

Um comentário:

Joana D'gleyze disse...

Sinceramente, esse é tocante.
É impressionante como leio Pessoa (Caeiro) e consigo me ler também.
Valeu, beijo.