terça-feira, maio 31, 2011
A mulher amada por Vinicius parece a flor colhida, justo no instante de tornar-se rosa. E pergunta a Voz ao poeta, por que deixá-la em haste?
Soneto da rosa tardia
Como uma jovem rosa, a minha amada...
Morena, linda, esgalga, penumbrosa
Parece a flor colhida, ainda orvalhada
Justo no instante de tornar-se rosa.
Ah, porque não a deixas intocada
Poeta, tu que és pai, na misteriosa
Fragrância do seu ser, feito de cada
Coisa tão frágil que perfaz a rosa...
Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste
Agora que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste
Tão dolorosamente pela vida?
Ela é rosa, poeta...assim se chama...
Sente bem seu perfumar...Ela te ama...
Vinicius de Moraes
(1913-1980)
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segunda-feira, maio 30, 2011
Nos versos de Cecilia Meireles, a solidão é o mar negro, mais eterno, mais terrível, mais profundo. É uma tristeza sem forma, vem para o mundo e retorna...
Solidão
Imensas noites de inverno,
com frias montanhas mudas,
é o mar negro, mais eterno,
mais terrível, mais profundo.
Este rugido das águas
é uma tristeza sem forma:
sobe rochas, desce fráguas,
vem para o mundo e retorna...
E a névoa desmancha os astros,
e o vento gira as areias:
nem pelo chão ficam rastros
nem, pelo silêncio, estrelas.
A noite fecha seus lábios
- terra e céu - guardado nome.
E os seus longos sonhos sábios
geram a vida dos homens.
Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.
Cecília Meireles
(1901-1964)
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domingo, maio 29, 2011
Em momento insone e triste, Fernando Pessoa não sabe quem há de ser. E sente que tudo isto lhe parece tudo, mas nada é isto, nada é assim.
Cansa sentir
Cansa sentir quando se pensa
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa.
Que tem por corpo o frio do ar.
Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.
Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.
(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo -
Ah! nada é isto, nada é assim).
Fernando Pessoa
(1888-1935)
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sábado, maio 28, 2011
Menotti del Picchia sabe que tem uma alma errante. E sente uma estranha delícia em tudo que passa e não dura, em tudo que foge e não pára.
Canção do meu sonho errante
Eu tenho a alma errante
e vago na terra a sonhar maravilhas...
Não paro um momento!
Eu busco irrequieto o meu sonho inconstante
e sou como as asas, as velas, as quilhas,
as nuvens, o vento...
Eu sou como as coisas inquietas: o veio
que canta na leira: a fumaça que voa
na espira que sobe das achas; o anseio
dos longos coqueiros esguios;
a esteira de prata que deixa uma proa
no espelho dos rios.
Ru tenho a alma errante...
Boêmio, o meu sonho procura a carícia
fugace, procura
a glória mendaz e preclara.
Sou como a vela fenícia
ao largo, uma vela distante...
Eu tenho a alma errante....
E me sinto uma estranha delícia
em tudo que passa e não dura,
em tudo que foge e não pára...
Menotti del Picchia
(1892-1988)
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sexta-feira, maio 27, 2011
Manuel de Barros foi forçado a admitir que viu como o adulto é sensato. Mas só depois que iniciou a sua ascensão para a infância.
Ascensão
Depois que iniciei a minha ascensão para a infância,
Foi que vi como o adulto é sensato!
Pois como não tomar banho nu no rio entre pássaros?
Como não furar lona de circo para ver os palhaços?
Como não ascender ainda mais até a ausência da voz ?
Ausência da voz é infantia, com t, em latim.)
Lá onde a gente pode ver o próprio feto do verbo -
ainda sem movimento.
Aonde a gente pode enxergar o feto dos nomes -
ainda sem penugens.
Por que não voltar a apalpar as primeiras formas da
pedra. A escutar
Os primeiros pios dos pássaros. A ver
As primeiras coisas do amanhecer.
Como não voltar para onde a invenção está virgem?
Por que não ascender de volta para o tartamudo!
Manuel de Barros
(1916)
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