domingo, fevereiro 05, 2012

Deixei de ser aquele que esperava, deixei de ser quem nunca fui. Nada se explica, nada me pertence, admite com tristeza Fernando Pessoa.


Deixei 

Deixei de ser aquele que esperava,
Isto é, deixei de ser quem nunca fui...
Entre onda e onda a onda não se cava,
E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fúria brava
É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada se explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.

Fernando Pessoa
(1888-1935)

Mais sobre Fernando Pessoa em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa 

Um comentário:

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Também postei esse em meu blog; muito lindo, assim como toda a poesia de Pessoa...