terça-feira, janeiro 06, 2009
Para Mario Quintana, era a flor da morte e era uma canção tão linda que só se poderia ler dançando. E que nada dizia, em sua graça ingênua.
A Canção
Era a flor da morte
E era uma canção...
Tão linda que só se poderia ler dançando
E que nada dizia
Em sua graça ingênua
Dos subterrâneos êxtases e horrores em que estavam
mergulhadas as suas raízes...
Mas estava fragilmente pintada sobre o véu do silêncio
Onde a morta jazia com os seus cabelos esparsos
Com os seus dedos sem anéis
Com os seus lábios imóveis
E que talvez houvessem desaprendido para sempre até
as sílabas com que outrora
pronunciavam meu nome...
Onde a morta jazia, na sua misteriosa ingratidão!
Era uma pobre canção,
Ingênua e frágil,
Que nada dizia...
Mario Quintana
(1906-1996)
Mais sobre Mario Quintana em
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Quintana
(/code)
(code)
Marcadores:
Mario Quintana
Para Manoel de Barros, os poetas têm na cabeça parafusos trocados e não de a menos. E é essa troca que provoca uma disfunção lírica nos poetas.
A disfunção
Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos.
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 - Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção de contiguidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
importância aos passarinhos do que aos senadores.
Manoel de Barros
Mais sobre Manoel de Barros em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_de_Barros
(/code)
(code)
Marcadores:
Manoel de Barros
De Hilda Hilst & Zeca Baleiro, na voz de Olívia Byington, "Ode Descontínua e Remota, para Flauta e Oboé, de Ariana para Dionísio, Canção VIII".
Link para download do poema no canal do Poemblog no Divshare:
http://www.divshare.com/download/5135443-477
Canção VIII
Se Clódia desprezou Catulo
E teve Rufus, Quintius, Gelius,
Inacius e Ravidus
Tu podes muito bem, Dionísio,
Ter mais cinco mulheres
E desprezar Ariana
Que é centelha e âncora
E refrescar tuas noites
Com teus amores breves.
Ariana e Catulo, luxuriantes
Pretendem eternidade, e a coisa breve
A alma dos poetas não inflama.
Nem é justo, Dionísio, pedires ao poeta
Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra.
Hilda Hilst
(1930-2004)
Mais sobre Hilda Hilst em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hilda_Hilst
(/code)
(code)
Marcadores:
Hilda Hilst
segunda-feira, janeiro 05, 2009
Cecília Meireles confessa que já nasceu desiludida, mas empresta ao mundo outra aparência e às palavras outra pronúncia. Ela nasceu para a Renúncia.
Beatitude
Corta-me o espírito de chagas!
Põe-me aflições em toda a vida:
Não me ouvirás queixas nem pragas...
Eu já nasci desiludida,
De alma votada ao sofrimento
E com renúncias de suicida...
Sobre o meu grande desalento,
Tudo, mais tudo, passa breve,
Breve, alto e longe como o vento...
Tudo, mais tudo, passa leve,
Numa sombra muito fugace,
- Sombra de neve sobre neve...-
Não deixando na minha face
Nem mais surpresas nem mais sustos:
- É como, até, se não passasse...
Todos os fins são bons e justos...
Alma desfeita, corpo exausto,
Olho as coisas de olhos augustos...
Dou-lhes nimbos irreais de fausto,
Numa grande benevolência
De quem nasceu para o holocausto!
Empresto ao mundo outra aparência
E às palavras outra pronúncia,
Na suprema benevolência
De quem nasceu para a Renúncia!...
Cecília Meireles
(1901-1964)
Mais sobre Cecília Meireles em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cec%C3%ADlia_Meireles
(/code)
(code)
Marcadores:
Cecília Meireles
Em belo poema, Miguel Torga diz que a Terra é sua aliada na criação, sua mulher, seu amor. Pela beleza que não sabe a pão, mas ao gosto da vida.
A terra
Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!
(/code)
(code)
Marcadores:
Miguel Torga
Assinar:
Postagens (Atom)