quinta-feira, dezembro 06, 2007

Manuel Bandeira foi menino bem-nascido, feliz. Depois, veio o mau destino e fez dele o que quis, ficou esta pouca cinza fria.


Epígrafe


Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,

Turbou, partiu, abateu
Queimou sem razão nem dó -
Ah, que dor!
Magoado e só,
- Só - meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.

- Esta pouca cinza fria.

Manuel Bandeira
(1886-1968)

Mais sobre Manuel Bandeira em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Bandeira

2 comentários:

Anônimo disse...

É o verso mais lindo que alguém já escreveu no Universo. Jorge Eduardo Garcia

servusdeieomeioambiente.blogspot.com/ disse...

Sou filho de uma pernambucana, mas conheci Manuel Bandeira porque um irmão de meu pai, Carlindo, solteirão, morava no mesmo prédio que ele, na Avenida Beira Mar. Era num edifício de esquina, recuado, muito interessante. Anos depois, no célebre “ Vilariño" (na placa lia-se "Villarino"), na esquina das Avenidas Calógeras com Presidente Wilson, reencontrei-o, já que ele por lá passava para um bate-papo; tivemos a oportunidade de trocar algumas palavras.

Quando em menino, minha avó Sinhanana, recifense de boa cepa, leu-me esse verso e fui levado ao “Jardim das Delícias” -- aquele ao qual os kamikazes árabes são levados depois de um atentado -- e comentei isso com o poeta. Ele riu.

Hoje, já velho, vejo que aquela emoção infantil era profética, uma vez que ele, o poema, descreve a minha vida sem tirar nem por.

Benditos são os poetas que vivem e têm visões. Bandeira, no meu caso, vai muito além, pois me traz grandes emoções.