terça-feira, julho 05, 2011
Sutil, intuitiva, ela é grande e miserável. E Murilo Mendes sente que o orgulho dela só é igual à sua timidez.
A desejada
Sutil, intuitiva, és grande e miserável.
Teu orgulho só é igual à tua timidez.
Eu te veria num convento espanhol
Onde se dance: castanholas em homenagem ao Senhor;
Através do parlatório
Apunhalando os aficionados
Com esses olhos retraídos e lascivos.
Teus dentes afiados, vivos,
Profanaram as hóstias..
Ornamento essencial,
Pela tua finura não pertences a este mundo:
E nunca te entregarás de todo.
Pensas entrentanto dia e noite
No amor definitivo
Que até hoje não te foi anunciado.
Entre tua essência íntima e teu destino
O drama se desenrola.
Elemento de grandeza,
Enfim conseguistes me alterar.
Não passarei em vão pela tua grade.
Celebro teu encanto cruel,
Tua arte de dissimular,
Teu espírito e finura
- Ó tranquila perturbadora -,
Essa coreografia felina,
Tudo que amo com lucidez,
Tudo que outros vão arrebatar,
Mutilando a golpes implacáveis,
Desfazer em pedaços -
E que a piedosa poesia
Reconstitui antecipadamente.
Murilo Mendes
(1901-1975 )
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segunda-feira, julho 04, 2011
Alberto Caeiro leu quase duas páginas do livro de um poeta místico. E riu como quem tem chorado muito.
Li hoje
Li hoje quase duas páginas
Do livro de um poeta místico,
E ri como tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas flores, se sentisse, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar.
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores sao apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.
Alberto Caeiro, um dos heterônimos de
Fernando Pessoa
(1888-1935)
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domingo, julho 03, 2011
Guimarães Rosa ia triste, com a tristeza comum dos fatigados. E a sua tristeza pesava mais do que todos os pesos.
Desterro
Eu ia triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, ridícula e honesta, bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta...
Coagulada em preto,
a noite isolou as cousas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar-mais-de-trem...
Guimarães Rosa
(1908-1967)
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sábado, julho 02, 2011
Para Augusto dos Anjos, o Fim das Coisas mostra-se medonho. A humanidade vai pesar seu gênio e encontrar o mundo, que ela encheu, vazio.
O fim das coisas
Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente
O milagre estupendo da aeronave!
Rasgue os broncos basaltos negros, cave,
Sôfrego, o solo sáxeo: e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo da orbe, invente
A lâmpada aflogística de Davy!
Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho
Como o desaguadouro atro de um rio...
E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!
Augusto dos Anjos
(1884-1914)
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sexta-feira, julho 01, 2011
O bonde de Mario Quintana passa pelo Mercado. Mas ele sabe que o que há de bom mesmo não está à venda.
Meu bonde passa pelo Mercado
Meu bonde passa pelo Mercado.
Mas o que há de bom mesmo não está à venda,
O que há de bom não custa nada.
Este momento de euforia é a flor da eternidade.
E essa minha alegria inclui também minha tristeza
- a nossa tristeza...
Tu não sabias, meu companheiro de viagem?
Todos os bondes vão para o infinito!
Mario Quintana
(1906-1994 )
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