quinta-feira, fevereiro 05, 2009
Uma moeda sem cara nem coroa, um laço nos cabelos e um murmúrio esquecido numa noite. É tudo o que pede Nuno Júdice ao seu amor.
Pedido
O que te peço:
uma moeda contra o vazio do coração,
sem cara nem coroa, valendo apenas
a brancura do teu corpo;
um laço nos cabelos, a prender
o fruto da tua alma que amadurece
nos meus olhos;
o murmúrio que esqueceste,
uma noite, num fundo de almofada,
e ainda voa na minha memória.
Nuno Júdice
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quarta-feira, fevereiro 04, 2009
Em seu bem-humorado auto-retrato, Manuel Bandeira se diz poeta ruim e cronista de província. E em matéria de profissão, um tísico profissional.
Auto-retrato
Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.
Manuel Bandeira
(1886-1968)
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"Feminina", o poema em que Mário de Sá-Carneiro assume que queria ser mulher. E disse quase tudo, com sua famosa ironia.
Feminina
Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés,
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.
Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer "potins" - muito entretida.
Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.
Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravangantes...
Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...
............................................................................................................
Ah, que te esquecesses sempre das horas
Polindo as unhas -
A impaciente das morbidezas louras
Enquanto ao espelho te compunhas...
............................................................................................................
A da pulseira duvidosa
A dos anéis de jade e enganos -
A dissoluta, a perigosa
A desvirgada aos sete anos...
O teu passado, sigilo morto,
Tu própria quasi o olvidaras -
Em névoa absorto
Tão espessamente o enredaras.
A vagas horas, no entretanto,
Certo sorriso te assomaria
Que em vez de encanto,
Medo faria.
E em teu pescoço
- Mel e alabastro -
Sombrio punhal deixara rasto
Num traço grosso.
A sonhadora arrependida
De que passados malefícios -
A mentirosa, a embebida
Em mil feitiços...
Mário de Sá-Carneiro
(1890-1916)
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- Sou a Cobra Norato, vou me amasiar com a filha da rainha Luzia. Assim, o modernista Raul Bopp escreveu um dos mais importantes poemas brasileiros.
Cobra Norato
(trechos)
I
Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-Fim
Vou andando caminhando caminhando
Me misturo no ventre do mato mordendo raíses
Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato
- Quero contar-te uma história
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar
A noite chega mansinho
Estrelas conversam em voz baixa
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a Cobra.
Agora sim
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo
Vou visitar a Rainha Luzia
Quero me casar com sua filha
- Então você tem que apagar os olhos primeiro
O sono escorregou nas pálpebras pesadas
Um chão de lama rouba a força dos meus passos
II
Começa agora a floresta cifrada
A sombra escondeu as árvores
Sapos beiçudos espiam no escuro
Aqui um pedaço de mato está de castigo
Arvorezinhas acocoram-se no charco
Um fio de água atrasada lambe a lama
- Eu quero é ver a filha da rainha Luzia!
Agora são os rios afogados
bebendo o caminho
A água resvala pelos atoleiros
afundando afundando
Lá adiante
a areia guardou os rastos da filha da rainha Luzia
- Agora sim
vou ver a filha da rainha Luzia
Mas antes tem que passar por sete portas
Ver sete mulheres brancas de ventre despovoados
guardadas por um jacaré
- Eu só quero a filha da rainha Luzia
Tem que entregar a sombra para o Bicho do Fundo
Tem que fazer mirongas na lua nova
Tem que beber três gotas de sangue
Ah só se for da filha da rainha Luzia!
A selva intensa está com insônia
Bocejam árvores sonolentas
Ai que a noite secou. A água do rio se quebrou
Tenho que ir-me embora
Me sumo sem rumo no fundo do mato
onde as velhas árvores grávidas cochilam
De todos os lados me chamam
- Onde vais Cobra Norato?
Tenho aqui três arvorezinhas jovens à tua espera
- Não posso
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia
III
Sigo depressa machucando a areia
Erva-picão me arranhou
Caules gordos brincam de afundar na lama
Galhinhos fazem psiu
Deixa eu passar que vou pra longe
Moitas de tiririca entopem o caminho
- Ai Pai-do-mato!
quem me quebrou com mau-olhado
e virou meu rasto no chão?
Ando já com os olhos murchos
de tanto procurar a filha da rainha Luzia
O resto da noite me engole
Onde irei eu
que já estou com o sangue doendo
das mirongas da filha da rainha Luiza?
IV
Esta é a floresta de hálito podre
parindo cobras
Rios magros obrigados a trabalhar
A correnteza se arrepia
descascando as margens gosmentas
Raízes desdentadas mastigam lodo
Num estirão alagado
o charco engole a água do igarapé
Fede
O vento mudou de lugar
Um assobio assusta as árvores
Silêncio se machucou
Cai lá adiante um pedaço de pau seco:
Pum
Um berro atravessa s floresta
Chegam outras vozes
O rio se engasgou num barranco
Espia-me um sapo sapo
Aqui tem cheiro de gente
- Quem é você?
- Sou a Cobra Norato
Vou me amasiar com a filha da rainha Luzia
V
Aqui é a escola das árvores
Estão estudando geometria
- Vocês são cegos de nascença. Têm que obedecer ao rio
- Ai ai! Nós somos escravas do rio
- Vocês estão condenadas a trabalhar sempre sempre
Têm a obrigação de fazer folhas para cobrir a floresta
- Ai ai! Nós somos escravas do rio
- Vocês tem que afogar o homem na sombra
A floresta é inimiga do homem
- Ai ai! Nós somos escravas do rio
Atravesso paredes espessas
Ouço gritos miúdos de ai-me-acuda:
Estão castigando os pássaros
- Se não sabem a lição vocês têm que ser árvores
- Ai ai ai ai...
- O que é que você vai fazer lá em cima?
- Tenho que anunciar a lua
quando ela se levanta atrás do mato
- E você?
- Tenho que acordar as estrelas
em noites de São João
- E você?
- Tenho que marcar as horas no fundo da selva
Tuúg...Tiúg...Tiúg...
Twi. Twi-Twi.
XXXII
- E agora compadre
vou de volta pro Sem-fim
Vou lá para as terras altas
onde a serra se amontoa
onde correm os rios de águas claras
entre moitas de molungu
Quero levar minha noiva
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar
uma porta azul piquininha
pintada a lápis de cor
Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem bem
Ficar à sombra do mato
ouvir a jurucutu
águas que passam cantando
pra gente se espreguiçar
E quando estivermos à espera
que a noite volte outra vez
hei de lhe contar histórias
escrever nomes na areia
pro vento brincar de apagar
XXXIII
Pois é, compadre
Siga agora o seu caminho
Procure minha madrinha Maleita
diga que eu vou me casar
que eu vou vestir minha noiva
com um vestidinho de flor
Quero uma rede bordada
com ervas de espalhar cheiroso
e um tapetinho titinho
de penas de irapuru
No caminho
vá convidando gente pro Caxiri grande
Haverá muita festa
durante sete luas sete sóis
Traga a Joaninha Vintém o Pajé-pato Boi-Queixume
Não se esqueça dos Xicos Maria-Pitanga o João Ternura
O Augusto Meyer Tarsila Tatizinha
Quero povo de Belém de Porto Alegre de São Paulo
- Pois então até breve, compadre
Fico lá esperando
atrás das serras do Sem-fim
Raul Bopp
(1898-1984)
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terça-feira, fevereiro 03, 2009
Enquanto gira inteira a noite sobre a pátria desigual, Ferreira Gullar não diz que a vida é bela. Tampouco se nega a ela, diz Sim.
Digo sim
Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos de meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperança entre pulmões
e nuvens
Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no Carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.
A vida nós a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
- em meio à violência e a solidão dizendo
sim -
pelo espanto da beleza
pela flama de Thereza
pelo meu filho perdido
neste vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
- digo sim
Ferreira Gullar
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