quarta-feira, setembro 30, 2009

Ao menino que desapareceu de casa porque não passou no vestibular, Ferreira Gullar diz: não adianta fugir nem endoidar, é justa sua revolta.


Vestibular


Paulo Roberto Parreiras
desapareceu de casa
trajava calças cinza e camisa branca
e tinha dezesseis anos.
Parecia com teu filho, teu irmão,
teu sobrinho, parecia
com o filho do vizinho
mas não era. Era Paulo
Roberto Parreiras
que não passou no vestibular.

Recebeu a notícia quinta-feira à tarde,
ficou triste
e sumiu.
De vergonha? De raiva?
Paulo Roberto estudou
dura duramente
durante os últimos meses.
Deixou de lado os discos,
o cinema,
até a namoradinha ficou sem vê-lo.
Nem soube do carnaval.
Se ele fez bem ou mal
não sei: queria
passar no vestibular.
Não passou. Não basta
estudar?

Paulo Roberto Parreira
a quem nunca vi mais gordo,
onde quer que você esteja
fique certo
de que estamos do seu lado.
Sei que isso é muito pouco
para quem estudou tanto
e não foi classificado (pois não há mais
excedentes), mas
é o que lhe posso oferecer: minha palavra
de amigo
desconhecido.
Nessa mesma quinta-feira
em Nova York morreu
um menino de treze anos que tomava entorpecentes.
Em S.Paulo, outro garoto
foi preso roubando um carro.
E há muitos outros que somem
ou surgem como cometas ardendo em sangue, nestas noites,
nestas tardes,
nesses dias amargos.

Não sei pra onde você foi
nem o que pretende fazer
nem posso dizer que volte
para casa,
estude (mais?) e tente outra vez.
Não tenho nenhum poder,
nada posso assegurar.
Tudo que posso dizer-lhe
é que a gente não foge
da vida,
é que não adianta fugir.
Nem adianta endoidar.
Tudo o que posso dizer-lhe
é que você tem o direito de estudar.
É justa sua revolta:
seu outro vestibular.

Ferreira Gullar

Mais sobre Ferreira Gullar em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ferreira_Gullar

Mia Couto diz que conhece a sua morte, seu lugar esquivo, seu acontecer disperso. E se pergunta, agora que mais me poderei vencer?



Destino


à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Mia Couto
(1955)

Mais sobre Mia Couto em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mia_Couto

terça-feira, setembro 29, 2009

Não me matarei, diz Manuel Bandeira aos seus amigos. Mas confessa que tem vontade, uma vingança contra a condição humana de ser dotado de razão.


Canção do suicida


Não me matarei, meus amigos.
Não o farei, possivelmente.
Mas que tenho vontade, tenho.
Tenho, e, muito curiosamente,

Com um tiro. Um tiro no ouvido,
Vingança contra a condição
Humana, ai de nós! sobre-humana
De ser dotado de razão.

Manuel Bandeira
(1886-1968)

Mais sobre Manuel Bandeira em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Bandeira

Henriqueta Lisboa diz que a menina selvagem veio da aurora acompanhada de pássaros, estrelas-marinhas e seixos. Ela veio atrás das libélulas.


A menina selvagem


A menina selvagem veio da aurora
acompanhada de pássaros,
estrelas-marinhas
e seixos.
Traz uma tinta de magnólia escorrida
nas faces.
Seus cabelos, molhados de orvalho e
tocados de musgo,
cascateiam brincando
com o vento.
A menina selvagem carrega punhados
de renda,
sacode soltas espumas.
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios.
E há de relance, no seu riso,
gume de aço e polpa de amora.

Reis Magos, é tempo!
Oferecei bosques, várzeas e campos
à menina selvagem:
ela veio atrás das libélulas.

Henriqueta Lisboa
(1901-1985)

Mais sobre Henriqueta Lisboa em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Henriqueta_Lisboa

segunda-feira, setembro 28, 2009

Onde a cantiga tão doce que o meu amor cantava? Na canção do poeta difícil, Mario Quintana também quer saber até onde ele vai puxar esta carreta.


Canção do poeta difícil


A minha pena é áspera; a folha, que nem zinco!

Onde a cantiga tão doce
Que o meu amor cantava?

As palavras ficam-me nas linhas como urubus
plantados na cerca.

Quando eu era um passarinho
Morava numa gaiola
Que eu pensava que era um ninho...

Mas até onde, até onde eu vou puxar esta carreta?!

Quando eu era pequenino
Não usava ponto-e-vírgula...
Onde o arroio tão puro
Que de tão puro sumiu?

Mario Quintana
(1906-1994)

Mais sobre Mario Quintana em
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Quintana