quarta-feira, outubro 06, 2010
Para Cecília Meireles, a vida vai depressa e devagar. Mas a todo momento pensa que pode acabar, sem que ouçam seu lamento ou lhe possam responder.
Desapego
A vida vai depressa e devagar.
Mas a todo momento
penso que posso acabar.
Porque o bem da vida seria ter
mesmo no sofrimento
gosto de prazer.
Já não tenho vontade de falar
senão com árvores, vento,
estrelas, e águas do mar.
E isso pela certeza de saber
que nem ouvem meu lamento
nem me podem responder.
Cecília Meireles
(1901-1964)
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Pouco antes de sua morte, Ana Cristina César acreditava que se amasse de novo esqueceria outros rostos que amou. Mas não conseguiu esquecer o seu amor.
Contagem regressiva
Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três a quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
Ana Cristina César
(1952-1983)
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terça-feira, outubro 05, 2010
Só quando tiver setenta anos, quando acabar a adolescência, Leminski vai largar da vida louca. E ver tudo em sã consciência.
Quando eu tiver setenta anos
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
Paulo Leminski
(1944-1989)
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Quando eu morrer batam em latas, chamem palhaços e acrobatas. A um morto nada se recusa, grita em versos tristes Mário de Sá-Carneiro.
Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir.
Mário de Sá-Carneiro
(1890-1916)
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segunda-feira, outubro 04, 2010
Ao escrever seu auto-retrato, Manuel Bandeira se apresenta como sem família, religião ou filosofia. E em matéria de profissão, um tísico profissional.
Auto-Retrato
Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.
Manuel Bandeira
(1886-1968)
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