quarta-feira, outubro 31, 2012

Para Miguel Torga, aquela luz maluca na noite, coração que palpita por tudo o que há de vir, ninguém vê, ninguém crê. Senão quem teve o desespero de partir.


Farol

Luz maluca na noite, coração
Que palpita por tudo o que há de vir:
Ninguém te vê, ninguém te crê, senão
Quem teve o desespero de partir.

Quem se venceu na própria solidão,
E num frágil veleiro quis abrir
O mar salgado de uma condição
Onde a altura do céu vinha cair.

Quem, afogado em pranto, reconhece
No teu aceno inquieto e tutelar
Outra vida mais larga que amanhece,

Fresca de pressentir e germinar,
Lá numa praia branca onde apodrece
Quem nela só consegue naufragar.

Miguel Torga 
(1907-1995)

Mais sobre Miguel Torga em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Torga

terça-feira, outubro 30, 2012

Dedicado a Murilo Mendes, Cassiano Ricardo escreveu o poema Indômitus. E trinta pombos azuis em formação geométrica voltarão ao navio.


Indômitus


O mar é uma esmeralda suja.
Recifes de coral repontam como flores de sangue salpicado de espuma.
(Coisa que explica naturalmente sangue róseo dos náufragos.)

As espadas dos peixes aguerridos
(os espadartes) trançam cintilações de prata
em campo blau, como num escudo.
O escudo de Netuno contra o casco do Indômitus.
A arte de navegar entre espadas
não é tão fácil, senão a mais oscilante das
artes.

Não consta da rosa-dos-ventos...
Se bem que uma rosa-dos-ventos é rosa
mas apenas no nome.
Antes, a chamaremos de mal-me-quer
até Dunquerque.

Indômitus está dançando agora entre duas espécies de estrelas.

A hora não é pra considerações em torno do
que possa acontecer.

É a hora do sangue-frio. Porque os peixes,
como os capitães, são animais de sangue-frio.

A hora é do vento
pela proa, ou a maubordo (não bombordo).
Nasce uma flor no mastro, um flama (não flâmula).
Indômitus então navega em plena rosa cega.

Uma fulguração súbita escreve no ar uma frase.
Thamuz, Thamuz, panmegas tethneka. Fulmotondro.
O comandante está dizendo à sua maruja que não há
no dicionário uma palavra mas bonita do que arquipélago.

Trinta pombos azuis em formação geométrica voltarão ao navio.

Cassiano Ricardo
(1895-1974)

Mais sobre Cassiano Ricardo em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cassiano_Ricardo

segunda-feira, outubro 29, 2012

Manuel Bandeira confessa a seu tudo, sua amada e sua amiga que gosta pouco do amor ideal objeto só. E que do amor só carnal não gosta.


Soneto sonhado

Meu tudo, minha amada e minha amiga,
Eis, compendiada toda num soneto,
A minha profissão de fé e afeto,
Que à confissão, posto aos teus pés, me obriga.

O que n'alma guardei de muito antiga
Experiência foi pena e ansiar inquieto.
Gosto pouco do amor ideal objeto
Só, e do amor só carnal não gosto miga.

O que há de melhor no amor é iluminância,
Mas, ai de nós! não vem de nós. Viria
De onde? Dos céus?... Dos longes de distância?...

Não te prometo os estos, a alegria,
A assunção...Mas em toda circunstância
Ser-te-ei sincero como a luz do dia.

Manuel Bandeira
(1886-1968)

Mais sobre Manuel Bandeira em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Bandeira

domingo, outubro 28, 2012

No fim de um arremedo de amor, Alexander Search diz adeus. E ainda pergunta: será que devo sorrir diante disso, ou não?


Eu desejei tantas vezes que este arremedo de amor

Eu desejei tantas vezes que este arremedo de amor
Entre nós findasse agora.
Mas nem para mim mesmo consigo fingir
Que uma vez chegado este fim eu chegaria a uma felicidade plena.

Tudo é também partida.
Nosso dia mais feliz também nos torna um dia mais velhos.
Para alcançar as estrelas, temos que ter também a escuridão.
A hora mais fresca é também a mais fria.

Não ouso hesitar em aceitar
Sua carta de separação, no entanto, desejo
Com vago sentimento de ciúme que mal posso rejeitar

Que nos caberia ainda um caminho diferente.
Adeus! Será que devo sorrir diante disso, ou não?
O sentimento agora perde-se em meus pensamentos.

Alexander Search, um dos heterônimos de

Fernando Pessoa
(1888-1935)

Mais sobre Fernando Pessoa em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa


sexta-feira, outubro 26, 2012

Para Guilherme de Almeida, infeliz de quem passa no mundo procurando no amor felicidade. A mais linda ilusão dura um segundo e dura a vida inteira uma saudade.


Amor, felicidade

Infeliz de quem passa no mundo,
procurando no amor felicidade:
a mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.

Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a jóia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade...

Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz diz,

percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!

Guilherme de Almeida
(1890-1968)

Mais sobre Guilherme de Almeida em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_de_Almeida