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sexta-feira, janeiro 15, 2016

Ana Cristina Cesar demite o verso como quem acena. E vive como quem despede a raiva de ter visto.


Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

Ana Cristina Cesar
(1952-1083)
                                                                                                                                    
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terça-feira, junho 23, 2015

Este livro, meu filho, é jazz do coração. Enfie a carapuça e cante, puro açúcar branco e blue, diz em versos Ana Cristina Cesar.


Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Ana Cristina Cesar abriu curiosa o céu, afastando de leve as cortinas. Ela não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal, mas foi.


Fagulha

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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quarta-feira, janeiro 15, 2014

Este livro, meu filho, é jazz do coração. Enfie a carapuça e cante, puro açúcar e blue, jura Ana Cristina Cesar.


Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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quinta-feira, outubro 24, 2013

Ana Cristina Cesar queria um beijo que tivesse um blue e que imitasse feliz a delicadeza que mergulha no reino do prazer. Mas era um blue feliz.


Um beijo

Que tivesse um blue
Isto é
Imitasse feliz
A delicadeza, a sua
Assim como um tropeço
Que mergulha surdamente
No reino expresso
Do prazer
Espio sem um ai
As evoluções do teu confronto
À minha sombra
Desde a escolha
Debruçada no menu;
Um peixe grelhado
Um namorado
Uma água sem gás
De decolagem:
Leitor ensurdecido
Talvez embebecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue feliz.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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quarta-feira, agosto 28, 2013

Devagar, peça mais, e mais, e mais. Assim é a poesia de Ana Cristina César, inquieta e complexa como sua alma.


Flores do mais

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano da boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

Ana Cristina César
(1952-1983)
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terça-feira, abril 16, 2013

Ana Cristina César fez tudo para o seu amor gostar. Ela queria apenas carinho, mas tantas fez, tantas, tantas fez...


Samba-canção

Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone - taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...

Ana Cristina César
(1952-1983)

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sexta-feira, novembro 09, 2012

O navio desatraca. E Ana Cristina Cesar ainda o escuta folhear os últimos poemas com metade de um sorriso.


Ultimo adeus II

O navio desatraca
imagino um grande desastre sobre a terra
as lições levantam vôo,
agudas
pânicos felinos debruçados na amurada.

E na deck-chair
ainda te escuto folhear os últimos poemas
com metade de um sorriso.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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segunda-feira, outubro 15, 2012

Chove. E enquanto a chuva caía, no coração de Ana Cristina Cesar chovia a chuva do teu olhar.


Chove

A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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sexta-feira, setembro 14, 2012

O nome do gato assegura a vigília de Ana Cristina Cesar. O gato transcrito que antes era marca do seu rosto, garra no seu seio.


O nome do gato assegura minha vigília

O nome do gato assegura minha vigília
e morde meu pulso distraído
finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos
e patas emergentes. Mas onde repousa

o nome, ataque e fingimento,
estou ameaçada e repetida
e antecipada pela espreita meio adormecida
do gato que riscaste por te preceder e

perder em traços a visão contígua
de coisa que surge aos saltos
no tempo, ameaçando de morte
a própria forma ameaçada do desenho
e o gato transcrito que antes era
marca do meu rosto, garra no meu seio.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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segunda-feira, junho 25, 2012

Homem: Acorda! Em seu grito na antecâmera, Ana Cristina Cesar quer pensar ao apalpar, dizer ao conviver, parir ao repartir.


Deus na antecâmara

Mereço (merecemos, meretrizes)
Perdão (perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)

Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sanguinária

(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)

Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir

Filho
Pai
e
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós (com a gente) se dando

HOMEM: ACORDA!

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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quarta-feira, janeiro 04, 2012

Te acalma, minha loucura! Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados, no grito de Ana Cristina Cesar.



Casablanca

Te acalma. minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este sonho de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardias...

Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema...

As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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sexta-feira, novembro 04, 2011

Ana Cristina Cesar em um encontro de assombrar na Catedral. Frente a frente, com os olhos, dizendo, com os olhos, do silêncio que não é mudez.



Encontro de assombrar na Catedral  

Frente a frente, derramando enfim todas as
palavras , dizemos, com os olhos, do silêncio
que não é mudez.
E não toma medo desta alta compadecida
passional, desta crueldade intensa que te
toma as mãos.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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sexta-feira, setembro 23, 2011

Não é mentira. É outra a dor que dói em Ana Cristina Cesar.


Fisionomia

Não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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segunda-feira, agosto 22, 2011

Não é mentira a dor que dói em mim. É outra, no sofrimento de Ana Cristina Cesar.


Fisionomia

Não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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quarta-feira, outubro 06, 2010

Pouco antes de sua morte, Ana Cristina César acreditava que se amasse de novo esqueceria outros rostos que amou. Mas não conseguiu esquecer o seu amor.



Contagem regressiva

Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três a quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos

Ana Cristina César
(1952-1983)

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domingo, setembro 26, 2010

Na noite carioca, Ana Cristina Cesar apresenta a mulher mais discreta do mundo. A que não tem nenhum segredo.



Noite carioca

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiros no
contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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quarta-feira, maio 12, 2010

Este livro, meu filho, é jazz do coração. Enfie a carapuça e cante, puro açúcar branco e blue, diz em versos Ana Cristina Cesar.


Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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sábado, fevereiro 27, 2010

Naquele travelling, a câmera em rasante viajava. E de todas aquelas três vozes, Ana Cristina Cesar bebeu um pouco.


Travelling


Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e um regador,
Elizabeth reconfirmava, “Perder
é mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”,
dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. ‘É perigoso”,
ria Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco.

Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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quarta-feira, novembro 04, 2009

Ana Cristina Cesar tentou.


Tenho uma folha branca


Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:

mudo convite:

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.


Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

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