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quarta-feira, setembro 23, 2015

Para quem foi feito o mundo? Para aquele que o goze, diz Paulo Mendes Campos em sua balada do homem de fora.


Balada do homem de fora

Na alma dos outros há
searas de poesia;
em mim poeiras de prosa,
humilhação, vilania.

O pensamento dos outros
ala-se em frases castiças;
o meu é boi atolado
em palavras movediças.
No gesto dos outros vai
a elegância do traço;
no gesto torto que faço
surge a ponta do palhaço.
O trato dos outros tem
desprendimento, altruísmo;
venho do ressentimento
para os brejos do egoísmo.
O amor de muitos floresce
em sentimento complexo;
mas o meu é desconexo
anacoluto: do sexo.
Na face dos outros vi
a sintaxe do cristal;
na amálgama dos espelhos
embrulhei o bem no mal.
A virtude contra o crime
é um cartaz luminoso
dos outros todos; mas eu
posso ser o criminoso.
Os outros brincam de roda
(carneirinho, carneirão);
são puros como a verdade;
mas eu minto como um cão.
Há quem leia Luluzinha,
há quem leia pergaminhos;
leio notícias reversas
nos jornais de meus vizinhos.
Os outros ficaram bravos
ao pôr de lado o brinquedo,
bravos, leais, sans reproche;
mas eu guardei o meu medo.
Encaminha a mente deles
uma repulsa moral;
na minha pulsa o High Life
do mais turvo Carnaval.
Todos foram tão bacanas
na quadra colegial;
só eu não fui (mea culpa)
nem bacana, nem legal.
O trem dos outros tem
um ar etéreo e eterno;
às vezes ando vestido
como um profeta do inferno.
Muitos voam pelas pautas
que se desfazem nos astros;
amei Vivaldi, Beethoven,
Bach, Debussy, mas de rastros.
Certos olhos são vitrais
onde dá a luz de Deus;
Deus me deu os meus e os teus
para a dor dar-te adeus.
Há tanto moço perfeito
like a nice boy (inglês);
eu falo mais palavrões
que meu avô português.
Os outros são teoremas
lindos de geometria;
eu me apronto para a noite
nos pentes da ventania.
Para quem foi feito o mundo?
Para aquele que o goze.
Como gozá-lo quem gira
no perigeu da neuroses?
Copiei com canivete
este grifo de Stendhal:
"Nunca tive consciência
nem sentimento moral".
Faço meu Murilo Mendes
quanto à força de vontade:
"Sou firme que nem areia
em noite de tempestade".
Há gente que não duvida
quando quer ir ao cinema;
duvido de minha dúvida
no meu bar em Ipanema.
Outros, felizes, não bebem,
não fumam; eu bebo, fumo,
faço, finjo, forço, fungo,
fuço na noite sem rumo.
Outros amam Paris, praias,
cataventos, livros, flores,
apartamentos - a vida;
eu nem amo meus amores.
Os outros podem jurar
que me conhecem demais;
quando acaso penso o mesmo,
o demônio diz: há mais...
A infância dos outros era
o céu no tanque da praça;
a minha não teve tanque,
nem céu, nem praça, nem graça.
Até na morte encontrei
a divergência da sorte:
a deles, flecha de luz,
a minha, faca sem corte.
O espaço deles é onde
circunda a casa o jardim;
mas o meu espaço é quando
um parafuso sem fim.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

Mais sobre Paulo Mendes Campos em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Mendes_Campos


quinta-feira, dezembro 05, 2013

Ao seu amor, Paulo Mendes Campos diz que três coisas não consegue entender. O tempo, a morte, teu olhar.



Três coisas

Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.

A morte será o escuro?

Em teu olhar me procuro.


 
Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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quinta-feira, setembro 19, 2013

Para quem foi feito o mundo? Para aquele que o goze, diz Paulo Mendes Campos em sua balada do homem de fora.


Balada do homem de fora

Na alma dos outros há
searas de poesia;
em mim poeiras de prosa,
humilhação, vilania.

O pensamento dos outros
ala-se em frases castiças;
o meu é boi atolado
em palavras movediças.

No gesto dos outros vai
a elegância do traço;
no gesto torto que faço
surge a ponta do palhaço.

O trato dos outros tem
desprendimento, altruísmo;
venho do ressentimento
para os brejos do egoísmo.

O amor de muitos floresce
em sentimento complexo;
mas o meu é desconexo
anacoluto: do sexo.

Na face dos outros vi
a sintaxe do cristal;
na amálgama dos espelhos
embrulhei o bem no mal.

A virtude contra o crime
é um cartaz luminoso
dos outros todos; mas eu
posso ser o criminoso.

Os outros brincam de roda
(carneirinho, carneirão);
são puros como a verdade;
mas eu minto como um cão.

Há quem leia Luluzinha,
há quem leia pergaminhos;
leio notícias reversas
nos jornais de meus vizinhos.

Os outros ficaram bravos
ao pôr de lado o brinquedo,
bravos, leais, sans reproche;
mas eu guardei o meu medo.

Encaminha a mente deles
uma repulsa moral;
na minha pulsa o High Life
do mais turvo Carnaval.

Todos foram tão bacanas
na quadra colegial;
só eu não fui (mea culpa)
nem bacana, nem legal.

O trem dos outros tem
um ar etéreo e eterno;
às vezes ando vestido
como um profeta do inferno.

Muitos voam pelas pautas
que se desfazem nos astros;
amei Vivaldi, Beethoven,
Bach, Debussy, mas de rastros.

Certos olhos são vitrais
onde dá a luz de Deus;
Deus me deu os meus e os teus
para a dor dar-te adeus.

Há tanto moço perfeito
like a nice boy (inglês);
eu falo mais palavrões
que meu avô português.

Os outros são teoremas
lindos de geometria;
eu me apronto para a noite
nos pentes da ventania.

Para quem foi feito o mundo?
Para aquele que o goze.
Como gozá-lo quem gira
no perigeu da neuroses?

Copiei com canivete
este grifo de Stendhal:
"Nunca tive consciência
nem sentimento moral".

Faço meu Murilo Mendes
quanto à força de vontade:
"Sou firme que nem areia
em noite de tempestade".

Há gente que não duvida
quando quer ir ao cinema;
duvido de minha dúvida
no meu bar em Ipanema.

Outros, felizes, não bebem,
não fumam; eu bebo, fumo,
faço, finjo, forço, fungo,
fuço na noite sem rumo.

Outros amam Paris, praias,
cataventos, livros, flores,
apartamentos - a vida;
eu nem amo meus amores.

Os outros podem jurar
que me conhecem demais;
quando acaso penso o mesmo,
o demônio diz: há mais...

A infância dos outros era
o céu no tanque da praça;
a minha não teve tanque,
nem céu, nem praça, nem graça.

Até na morte encontrei
a divergência da sorte:
a deles, flecha de luz,
a minha, faca sem corte.

O espaço deles é onde
circunda a casa o jardim;
mas o meu espaço é quando
um parafuso sem fim.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sexta-feira, setembro 06, 2013

No poema-sermão de Paulo Mendes Campos todos são bem-aventurados. Homens, mulheres, bichos, o Deus que cria o universo e o demônio que o perdoa.


Sermão do Diabo

Bem-aventurados os aleijados porque não distinguem as proporções dos
sentimentos morais e desenham triângulos tortos na areia.
Bem aventurados os cegos de nascença porque rangem quando rangem
nas curvas os astros do cosmos sem música.
Bem-aventuradas as mulheres feias porque trocam sinais com a Via-Láctea
e são tangíveis a todas as semáforas.
Bem-aventurados os que morrem nas catástrofes ferroviárias porque a vida
foi de repente a sinistra aventura.
Bem-aventurados os desequilibrados líricos porque inventam tristes
gnomonias.
Bem-aventurados os que perdem os filhos porque, incendiados, são hábeis
em distinguir a estrela do naufrágio.
Bem-aventurados os mendigos porque pertencem às searas mitológicas.
Bem-aventurados os suicidas porque chegam de armas na mão ao outro
lado.
Bem-aventurados os indigentes porque resumem as misérias da poesia.
Bem-aventurados os bêbados sem remédio porque se extinguem no crepúsculo
como o carvão.
Bem-aventurado o que alimenta um mal secreto porque pode telefonar à
hiena e convidá-la para jantar.
Bem-aventurado o indivíduo que tem o rosto deformado porque pode olhar
a morte nos olhos e interrogá-la.
Bem-aventurados enfim todos os homens, todas as mulheres, todos os
bichos, bem-aventurados o fogo e a água, bem aventurados as pedras
e as relvas, bem-aventurado o Deus que cria o universo e o demônio
que o perdoa.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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terça-feira, outubro 16, 2012

Paulo Mendes Campos acabou por compreender que a vida enganou a vida e o homem enganou o homem. Por isso, organizou seu sofrimento ao sofrimento de todos: se multiplicou a sua dor, também multiplicou a sua esperança.


Poema didático

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ?

Meu instante agora é uma supressão de saudades. Instante
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.
E não olhei a ferrovia - mas o homem que sangrou na ferrovia -
E não olhei a fábrica - mas o homem que se consumiu na fábrica -
E não olhei mais a estrela - mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho
De metafísicas magnificas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de frustrações em combate.
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem
- cabeça, tronco, membros, as pirações e bem estar...

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga advinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das necesidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -
Se podemos admiti-lo - não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da terra. Força - aos que o herdaram -
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança.


Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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quarta-feira, agosto 15, 2012

Ao seu amor, Paulo Mendes Campos diz que três coisas não consegue entender. O tempo, a morte, teu olhar.


Três coisas


Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.

A morte será o escuro?

Em teu olhar me procuro.
 
Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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terça-feira, julho 31, 2012

Para Paulo Mendes Campos, domingo era o instante das pausas, o pouso dos tristes, o porto do insofrido. E ele lia poemas nos parques.


Os domingos

Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança.
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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terça-feira, maio 08, 2012

Paulo Mendes Campos não entendia o tempo como agora, não sabia que o tempo cava na face um caminho escuro. O tempo é seu disfarce.



Sentimento do tempo

Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sexta-feira, março 23, 2012

Em sua balada, Paulo Mendes Campos está buscando o amor perfeito. Ela, o amor de sua vida.



Balada do amor perfeito

Pelos pés das goiabeiras,
pelos braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,
fui me aflorando.

Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
fui te aspirando.

Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs, cinerárias,
fui te esperando.

Por miosótis lacustres,
por teus cânticos ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
fui te encontrando.

Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
fui te avivando.

Me evadindo das molduras
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
fui me virando.

Pela rosa e o resedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
fui te levando.

Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
fui te enredando.

Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos,
pelo caule dos gemidos
fui te enflorando.

Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas
fui me plantando.

Por tuas tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
fui te escalando.

Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos.
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
fui me criando.

Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
fui te sugando.

Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamonos,
fui me espaçando.

Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
fui me apagando.

Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares,
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
fui me afastando.

Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pela flor que se desata,
pela lélia purpurata,
fui me arrastando.

Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
fui te deixando.

Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
fui te olvidando.

Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
vou te buscando.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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quarta-feira, novembro 02, 2011

O instante é tudo para Paulo Mendes Campos. Em seus olhos, o tempo é uma cegueira e a eternidade uma bandeira aberta em céu azul de solidões.



Tempo e eternidade 

O instante é tudo para mim que ausente
Do segredo que os dias encadeia
Me abismo na canção que pastoreia
As infinitas nuvens do presente.

Pobre do tempo, fico transparente
À luz desta canção que me rodeia
Como se a carne se fizesse alheia
À nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
E a minha eternidade uma bandeira
Aberta em céu azul de solidões.

Sem margens, sem destino, sem história
O tempo que se esvai é minha glória
E o susto de minh'alma sem razões.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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terça-feira, setembro 06, 2011

Trinta dias antes de ser assassinado, Federico Garcia Lorca narrou um episódio a Pablo Neruda que o contou a Paulo Mendes Campos. E ele escreveu um poema sobre o cordeiro branco devorado pelos negros porcos fascistas de Franco.


Balada com porcos negros

Há poetas que escrevem
Seguindo pelo caminho.
Ah, bons caminhos os levem!
Têm a medida do espaço
Do homem, tem o compasso
Do passo do passarinho.

Hay siento en el corazón
Un vago temblor de estrellas!

Por um caminho seguia
Federico, em Catalunha
Ou talvez Andaluzia.
Apagavam-se os círios,
Os delíquios, os delírios
Do céu. Ele achava os lírios,
Rindo à luz que os esparzia.

Pero mi senda se pierde
En el alma de lo niebla

Sabemos pouco demais
De um punhal que leva a gente
Ao aço de outros punhais,
Pouco do rio, do mar,
Das galerias do ar,
Da emboscada de um jaguar,
Dos segredos da serpente.

Qué antorcha iluminará
Los caminos en la Tierra?

Parou ao céu da campanha,
A alma crucificada.
Em pé, no mapa de Espanha.
La Coruña a nooeste.
San Sebastian a nordeste
E Sevilha a sudoeste.
Seu coração em Granada.

Si el azul es un ensueño
Que será de la inocencia?
 
Foi de Granada que veio
Uma briza azul, azul,
Dividindo-o pelo meio.
Teu caminho é o Norte.
Disse a brisa, pois a morte
No Sul traçou-te a sorte.
Rindo-se ele disse: O Sul...

Corazones de los niños!
Almas rudes de las piedras!

Sentiu-se só. Um cordeiro
Que pastava ali doçuras,
Veio ser o companheiro
De Federico, o suave,
A mais doce, a menos grave,
A mais gentil, a mais ave
De todas as criaturas.

Será la paz com nosotros
Como Cristo nos enseña?

A paz ali se assentava.
A morte não era nada.
Um cordeiro sustentava
O galho preso ao carvalho,
A folha presa a seu galho,
Na folha, a gota de orvalho.
E a morte em Granada.

Que será del corazón
Si el Amor no tiene flechas?

Pouco se sabe na terra
Da potestade do inferno
Que, secreta, lhe faz guerra.
Na barranca amanhecida,
Uma ovelha desvalida
Resuia o tempo, a vida
E o frescor novo do eterno.

La nieva cae de las rosas
Pero la del alma queda

Federico da planície
Viu surgir dois porcos pardos,
Negros de sua imundície.
Ai a carne destroçada!
Ai pureza devorada!
Ai cordeiro de Granada!
Ai as garras dos leopardos!

Todas las rosas son blancas
Tan blancas como mi pena

Dentes duros de suínos
Rasgando a lã da inocência!
Ai focinhos assassinos,
Ai misérias de quem ama!
Ai sangue sujo de lama!
Ai terrível epigrama
Da sinistra confidência!

Y si la muerte es la muerte
Que será de los poetas?

Repito a verdade estranha,
A visão crua, desnuda,
Deu-se nas terras de Espanha:
Um cordeiro branco, branco,
Devorado num barranco
Por negros porcos de Franco.

Quem me contou foi Neruda.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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quinta-feira, junho 02, 2011

Recife em mar de presságio, um poema não tem porto, vaga que devolve o morto às areias do naufrágio. De Paulo Mendes Campos, um poeta no bar.


Poeta no bar

Que fazer de um instrumento,
Violoncelo, fonte, flauta,
A buscar um sofrimento
Que se encontra além da pauta?
Quando perdemos a voz,
Fala de nós e por nós
O personagem sem medo
Cujas palavras de olvido
Compõem o outro sentido
Do segredo de um degredo.

Tudo o que rói e escalavra,
Dente de marfim do mar,
Faca do vento a passar,
Lembra a busca da palavra.
Só conhecer a ciência,
Malarmaica paciência,
Capaz de achar a vogal
Que surde empós das toantes,
Escadindas consoantes
De uma pausa musical
Estas horas perdoadas,
Perdidas de quem nos ama,
São aflições combinadas
Às pantomimas do drama.
Um filamento de riso
Liga o inferno ao paraíso.
Se a noite esconde as estrelas,
Pode um palhaço brilhante
Dar um salto tão distante
Que seja digno de vê-las.

Este arlequim de pintura
Vai surgir aqui, apenas
Compare a sua figura
A minhas roupas terrenas.
Vão surgir do saltimbanco
Perfil, fronte, face e flanco.
Vou sofrer por artifício
O silêncio desta mesa
Que me exila na clareza
De meu puro sacritício.

Recife em mar de presságio,
Um poema não tem porto,
Vaga que devolve o morto
Às areias do naufrágio.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sexta-feira, março 18, 2011

Para quem foi feito o mundo? Para aquele que o goze, diz Paulo Mendes Campos em sua balada do homem de fora.



Balada do homem de fora

Na alma dos outros há
searas de poesia;
em mim poeiras de prosa,
humilhação, vilania.

O pensamento dos outros
ala-se em frases castiças;
o meu é boi atolado
em palavras movediças.

No gesto dos outros vai
a elegância do traço;
no gesto torto que faço
surge a ponta do palhaço.

O trato dos outros tem
desprendimento, altruísmo;
venho do ressentimento
para os brejos do egoísmo.

O amor de muitos floresce
em sentimento complexo;
mas o meu é desconexo
anacoluto: do sexo.

Na face dos outros vi
a sintaxe do cristal;
na amálgama dos espelhos
embrulhei o bem no mal.

A virtude contra o crime
é um cartaz luminoso
dos outros todos; mas eu
posso ser o criminoso.

Os outros brincam de roda
(carneirinho, carneirão);
são puros como a verdade;
mas eu minto como um cão.

Há quem leia Luluzinha,
há quem leia pergaminhos;
leio notícias reversas
nos jornais de meus vizinhos.

Os outros ficaram bravos
ao pôr de lado o brinquedo,
bravos, leais, sans reproche;
mas eu guardei o meu medo.

Encaminha a mente deles
uma repulsa moral;
na minha pulsa o High Life
do mais turvo Carnaval.

Todos foram tão bacanas
na quadra colegial;
só eu não fui (mea culpa)
nem bacana, nem legal.

O trem dos outros tem
um ar etéreo e eterno;
às vezes ando vestido
como um profeta do inferno.

Muitos voam pelas pautas
que se desfazem nos astros;
amei Vivaldi, Beethoven,
Bach, Debussy, mas de rastros.

Certos olhos são vitrais
onde dá a luz de Deus;
Deus me deu os meus e os teus
para a dor dar-te adeus.

Há tanto moço perfeito
like a nice boy (inglês);
eu falo mais palavrões
que meu avô português.

Os outros são teoremas
lindos de geometria;
eu me apronto para a noite
nos pentes da ventania.

Para quem foi feito o mundo?
Para aquele que o goze.
Como gozá-lo quem gira
no perigeu da neuroses?

Copiei com canivete
este grifo de Stendhal:
"Nunca tive consciência
nem sentimento moral".

Faço meu Murilo Mendes
quanto à força de vontade:
"Sou firme que nem areia
em noite de tempestade".

Há gente que não duvida
quando quer ir ao cinema;
duvido de minha dúvida
no meu bar em Ipanema.

Outros, felizes, não bebem,
não fumam; eu bebo, fumo,
faço, finjo, forço, fungo,
fuço na noite sem rumo.

Outros amam Paris, praias,
cataventos, livros, flores,
apartamentos - a vida;
eu nem amo meus amores.

Os outros podem jurar
que me conhecem demais;
quando acaso penso o mesmo,
o demônio diz: há mais...

A infância dos outros era
o céu no tanque da praça;
a minha não teve tanque,
nem céu, nem praça, nem graça.

Até na morte encontrei
a divergência da sorte:
a deles, flecha de luz,
a minha, faca sem corte.

O espaço deles é onde
circunda a casa o jardim;
mas o meu espaço é quando
um parafuso sem fim.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sábado, janeiro 29, 2011

Eu sonho que vivo sempre exaltado. Ah! Esta paixão de destruir-me à toa.



Translúcido

Rosas raras se alçavam puras
Eu sonho que vivi sempre exaltado.

Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.

Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.

Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.

Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,

Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.

A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.

Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.


Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sexta-feira, outubro 08, 2010

No testamento do Brasil, Paulo Mendes Campos quer que já se faça a partilha. E diz tudo o que ele quer, inclusive o vagido da esperança.



Testamento do Brasil

Que já se faça a partilha.
Só de quem nada possui
nada de nada terei.
Que seja aberto na praia,
não na sala do notário,
o testamento de todos.
Quero de Belo Horizonte
este píncaro mais áspero,
onde fiquei sem consolo,
mas onde floriu por milagre
no recôncavo da brenha
a campânula azulada.
De São João del-Rei só quero
as palmeiras esculpidas
na matriz de São Francisco.
Da Zona da Mata quero
o Ford envolto em poeira
por esse Brasil precário
dos anos vinte (ou twenties),
quando o trompete de jazz
ruborizava a aurora
cor de cinza de Chicago.
Do Alto do Rio Negro
quero só a solidão
compacta como o cristal,
quero o índio rodeando
o motor do Catalina,
quero a pedra onde não pude
dormir à beira do rio,
pensando em nós-brasileiros
- entrelaçados destinos -
como contas carcomidas
de um rosário de martírios.
De Lagoa Santa quero
o roxo da Sexta-feira,
quero a treva da ladeira,
os brandões da noite acesa,
quero o grotão dos cajus,
onde surgiu uma vez
no breu da noite mineira
uma alma doutro mundo.
Da porta pobre da venda
de todos os povoados
quero o silêncio pesado
do lavrador sem trabalho,
quero a quietude das mãos
como se fossem de argila
no balcão engordurado.
Ainda quero da vila
a ira que se condensa,
a dor imóvel e dura
como um coágulo no sangue.
Da Fazenda do Rosário
quero o mais árido olhar
das crianças retardadas,
quero o grito compulsivo
dos loucos, fogo-pagô
de entardecer calcinado,
a névoa seca e o não,
o não da névoa e o nada.
Da cidade da Bahia
quero os pretos pobres todos,
quero os brancos pobres todos,
quero os pasmos tardos todos.
Do meu Rio São Francisco
quero a dor do barranqueiro,
quero as feridas do corpo,
quero a verdade do rio,
quero o remorso do vale,
quero os leprosos famosos,
escrofulosos famintos,
quero roer como o rio
o barro do desespero.
Dos mocambos do Recife
quero as figuras mais tristes,
curvadas mal nasce o dia
em um inferno e lama.
Quero de Olinda as brisas,
brisas leves, brisas livres,
ou como se quer um sol
ou a moeda de ouro
quero a fome do Nordeste,
toda a fome do Nordeste.
Das tardes do Brasil quero,
quero o terror da quietude,
quero a vaca, o boi, o burro
no presépio do menino
que não chegou a nascer.
Dos domingos cor de cal
quero aquele som de flauta
tão brasileiro, tão triste.
De Ouro Preto o que eu quero
são as velhinhas beatas
e a água do chafariz
onde um homem se dobrou
para beber e sentiu
a pobreza do Brasil.
Do Sul, o homem do campo,
matéria-prima da terra,
o homem que se transforma
em cereal, vinho e carne.
Do Rio quero as favelas,
a morte que mora nelas.
De São Paulo quero apenas
a banda pobre da fruta,
as chagas do Tietê,
o livro de Carolina.
Do noturno nacional
quero a valsa merencórea
com o céu estrelejado,
quero a lua cor de prata
com saudades da mulata
das grandes fomes de amor.
Do litoral feito luz
quero a rude paciência
do pescador alugado.

Da aurora do Brasil
-bezerra parida em dor -
apesar de tudo, quero
a violência do parto
(meu vagido de esperança).

Paulo Mendes Campos
(192-1991)

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sábado, julho 10, 2010

Nascer, nasci em 1922, morrer, morri em mil novecentos e depois. É assim que Paulo Mendes Campos dá início aos seus motes no infinito.


Motes no infinito


nascer, nasci em 1922,
morrer, morri em mil novecentos e depois

as castanhas que me faltaram no frio de 37 em Barbacena
encontrei-as no outono de 49 no cais do Sena

ai flores, ai flores do verde pino
agora que sei que sou um menino

senhora de corpo delgado
nem todo jejum é sagrado

este livro que sempre se manteve fechado
de repente se me abriu de lado a lado

sem dor a árvore do papel
não se livra do mal do mel

eu nem sei quem dantes era
mesmo assim telefono à primavera

pré-história... história... pós-história...
e o borbulhar enfim da festa sem memória...

quem vinha de flor
não me deu amor

é ela que se manda a meu pesar
tão logo aquele Jumbo decolar

é do inferno do pobre (diz Hugô)
que é feito o paraíso do robô

não me dá amor vagar
no Arpoador sem parar

de calça à luz conivente
vai Leonor transparente

saudoso-imaginoso disse o mestre:
guerra como a de Tróia, nunca mais!

se meu amigo viesse e me visse,
se rindo de mim, diria, não disse!?

quem o mundo juntou sem ter partido
é comuna (Jesus) da linha justa

ao vagaroso passo dos meus bois
vou no meu vir-a-ser-antes-depois

poesia, bizarro contrabando
que seres fronteiriços vão passando

senhora mui louçã a quem chamei de flor
me disse alto e bom som: ora, não enche, pô!

aqui em Beagá, do alto dos picos,
sem dizer a ninguém crio o Dia do Fícus

minha mãe velida,
vê no que deu minha vida!

quando la festa è finita subito o lenta
il silenzio di ceneroni me spaventa

senhora formosa, por meu mal
ando em regime de amor e sal

descalça vai para a praia
Leonor, de biquíni de cambraia

quem pretende ir-se embora quando passa
lindo filme de bruma na vidraça?

sonhos, quem não os tem quando a garoa
de São Paulo nos leva à vida à-toa

meu ser evaporei na lida insana
que no meu tempo foi Copacabana

eu vi a Gioconda em Paris:
mamona lisa nunca vi

foi-se o perjurado, sumiu de Ipanema
sem deixar recado, sem telefonema

busca: não acharás a poesia:
vai-se o voar a pomba da palavra

busca: talvez acharás a poesia
quando o vôo sem pomba regressar

quem Jânio Quadros não entende
entender o mundo e seu pai pretende

amiga, tive recado
de seu amigo (coytado!)

a prosa de Malherbe não durou
o espaço duma rosa tipográfica

- ay Deus, val! - tudo legal?
- tudo legal! - ay Deus, val!

trespassa a nossa pálpebra a festa solar:
quando for noite, abrir os olhos devagar

dizia la bem talhada:
que gana de feijoada!

em caso de pasto disse a fremosinha:
quero filé grelhado sem batatinha

quando é hora do rush, o sol se esconde
e a passarada que não sabe aonde

senhora, agora, vos rogo, sem demora,
o meu coração Mendes tá na hora

na ribeira do rio vento frio
faz no meu rosto rugas quando rio

erros meus, má fortuna, amor ardente,
mais uma espondilose recumbente

terras lindas que (quanto tempo!) percorri
andam hoje a fazer turismo em mim

rio dos rios todos que vi ou não vi:
das barracas de Logos, nunca sou daqui

O poeta vende um pano tão diverso
que a seu reverso dá nome de verso

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sábado, junho 19, 2010

Ouro em pó, ouro cru, ouro cego, tempo é dinheiro. Que mundo este mundo, que tempo este tempo, no pensar poético de Paulo Mendes Campos.


Os relógios


Manhã de Nova Iorque com 30 milhões de relógios.
Óleo vesperal dos pontos hanseáticos.
Jardim pequinês.
Funcionário civil ouviu canto de pássaro pintado.
Que tempo foi em Pequim? Ópio de tempo,
indiferente. Noite.
Relógio.
Mandarim adormecido.
Funcionário civil ouviu pássaro pintado.
Hamburgo,
Hamburgo é um castelo
de água e de vento
com subsolos de mortuária madeira
cheirando a cereja açucarada.
Comovidos na serragem do silêncio
serve-se uma canja dourada
a dois amantes sem fome
divididos pelo mundo. Mundo
de torres subterrâneas,
descampados,
códigos, plataformas cinzentas,
aeroportos glaciais, olhos
celestiais além do cristal,
alto-falantes ordenando
que se beijem,
que se façam,
que se desfaçam,
e boa viagem! Que mundo
este mundo!
Príncipes instáveis o comandam,
metais gelados nos adeuses,
cidades e vidas
amputadas no passo da hélice, que mundo
este mundo! Hamburgo,
senadores com seus mantos de granito.
A tarde sem sol com seus relógios solenes.
Um grito dentro do museu.

Dois caças a jato, escuros
piratas, sobem ao céu da Holanda,
onde outrora voavam as vacas.
Tempo do homem, só,
com uma inútil identidade. Tempo
de olhar as barcaças do do Tâmisa antes
do repouso
no parque desfolhado. Este alento
petrificado nas abadias.
Firenze. Fiesole.
Andrea del Sarto cheirando a noite
no grito da coruja. Fiesole, Firenze,
espaço,
tempo,
muros e minutos
estrurados
numa ansiedade.

Troncos gotejam,
grito de água em lavabo cinzelado,
úmido é o mundo.
Como os úmidos telhados do Mar do Norte.
Luz acesa no Cáucaso, pão e vinho,
e o relógio; que o mundo
este mundo, que tempo
este tempo, que soturnidade
à beira dos rios:
sonâmbulos da ponte de Brooklin,
escumas escuras
do Elba, o Tejo sem reflexo, o Neva
de neve, o Neckar
com jovens eruditos bêbados, o Liffey,
os rins e os relógios
os rios e os relógios,
os restos dos rios e os relógios,
os rastos dos rios e os relógios
os rastos dos restos e os relógios
os restos dos rastos e os relógios
os rastos dos restos e os relógios
o rasto da lesma
sobre a pedra circular
do relógio.

Jardim em Pequim,
telefone gigantesco e mudo em Hamburgo,
tercetos geográficos em Florença,
sempre o homem
com o seu relogio.
Tempo é dinheiro
dinheiro é homem
homem é segredo.
Depois do homem
alguém vende o seu relógio.
Depois do amor
fica no ar o relógio.
Depois das flores removidas
o relógio do morto.
O relógio do morto.
Só depois que acaba o tempo
o ouro do sol e os anéis de Saturno
começam a roer os restos do relógio.

Entre o gordo
e o magro
a moeda de ouro

Todos os abortos
físicos e
cívicos
feitos por dinheiro

Entre o milionário
proletário
e o proletário
milionário
o paradoxo
monetário.

Tempo é dinheiro
relógios lineares
portais esgalgos do minuto gótico
colunata barroca para um beijo à tardinha
sagas de Harlem onde os mortos perseguem luas conversíveis
trópico de Câncer
nibelungos máabaratas trenodias
elzevires incunábulos portulanos
baldrocas oratórias, especulações fálicas, açougues suaves,
banqueiros de fulva juba, monopólios da infância, endossos
sexuais, numismáticos aduncos, filhos de cachorras e notários,
apólices dúbias, prostituições em exercício, fogueiras contra-
tuais, dobrões litúrgicos, porcentagem sobre lastros éticos,
chinas traídas, fregueses de arábias, leiloeiros de áfricas, tratos
de areia, ataúdes hipotecados, traficantes eletrônicos, títulos
letais, marchantes carismáticos, corretores de repúblicas sul-
americanas, agiotas atômicos, corsários aeronáuticos, provedores
de angélicas, esposas sonantes.

OURO EM PÓ
OURO CRU
OURO CEGO
TEMPO É DINHEIRO

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sábado, abril 24, 2010

No retraimento obsceno de um membro que emurchece, a prostituta deveria chorar as lágrimas todas de seus olhos. É o que diz Paulo Mendes Campos.


A prostituta


Quando a noite pare em sangue a madrugada
As constelações se desorganizam
As nuvens se encapelam
Quando os guindastes do porto se espreguiçam
Os muros do fortim alvejam
O caçador submarino já pode olhar nos olhos
O mero adormecido
Quando a fome come a criança da colina suja
Os bichos humanos chegam à lavoura farejando a névoa
Os passageiros do ar visitam a lua nova
O seringueiro não sorri
O porco não sorri
Não sorri não sabe rir nunca soube rir
Como não sabe rir a formiga
O pedregulho
O mendigo
O bode rupestre da falésia aguilhoada
Quando a noite se encerra e há uma pausa
O membro do marido emurchece no lençol
Quando o Nilo estende as suas barbas velhas ao sol
Quando o Rio Amarelo silenciosamente dá as cartas
O Don abre seus braços aos trigais
O Amazonas apodrece
Quando o riacho acorda o homem descalço
Quando o rio todos os rios vão recuperando a memória
E contam sussurrando
A história do mastim do lorde
O chicote do dono
A botina do polícia
O gancho do corsário
O milionário tumefato com uma luz no ventre
A metamorfose do chacal
Quando os rios se recordam
E vão contando
Sussurrando
Conspirando
Enlaçando as cidades frias e cálidas
Enlaçando os campos
Como no tempo de faraós possessos que uivavam
Dos profetas de longas barbas sujas
Como no tempo dos cantochões do convento
Do archote ao pé do cadafalso
Milhões de homens milhões de batalhas milhões de febres
Milhões
Milhões de ratazanas históricas
De escravos
De crucificados
É quando
O rio se lembra com dificuldade
(Ela que foi pura)
E vai cuspindo restos de lágrimas e lama
E se envergonha e quer morrer
É quando a prostituta se entreabre sobre a cama
E se fecha
Túmida flor que provocasse a náusea
Sentreabrindo
Se fechando
Opaca surda grossa
Na menstruação dolorosa de um grito que se fecha
No retraimento obsceno de um membro que emurchece
Então é quando a prostituta deveria sentar-se à margem do Hudson
E chorar
Chorar as lágrimas todas de seus olhos
De seus ouvidos
De suas narinas
De sua vagina
De suas mãos, de seus pés
Chorar as vezes que não chorou
Chorar o sangue o mênstruo o leite
Chorar como os rios choram sem tempo e surdos
Como o conde Ugolino
As santas estigmatizadas
Chorar como choram os mendigos
Um pranto sujo
Um mênstruo rude
Um leite envenenado.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Retrato do artista aos 7 anos. Assim, Paulo Mendes Campos nos presenteia com um de seus mais belos poemas.


Retrato do artista aos 7 anos


Para dizer-te sem mentira o que é o artista,
Abram-se algumas portas, fecham outras,
A fim de insinuar-se aqui a reciprocidade dos gestos.
Vai buscar depois a sequência dos retratos.
Demora o pensamento no instantâneo do trapézio,
Procura concordar opostos horizontes.
Um sino de manhã assume seu coração e o mundo:
É Natal, e o aroma de maçãs estrangeiras
Vem do escritório fechado. Que pode o artista menino,
Entre os pressurosos prenúncios duma data,
Senão precipitar o seu prazer, abrir as portas prematuras,
Espiar pelos caixilhos da vidraça e pasmar-se?
Um artista (precisarás sabê-lo) não tem tempo.
À noite, quando se recolhe ao dormitório,
Entre irmãos e primos já dormidos,
O ruído da água na caixa o concentra, porque a vida
Não se vê de um lance, apenas se advinha dentro das paredes,
E se articula e se desfaz sob tantas indiretas alusões.
No princípio tudo é subterrâneo, e esse caráter secreto
Aponta ao artista as premissas invisíveis de seu ofício.
Um pássaro rufla no jardim, um trem de ferro parte ou chega,
Um cavalo do esquadrão se recolhe à estrebaria.
O menino abre seus olhos de artista e continua.
Não pressuponhas de sua inocência, nem temas de seu desamparo:
Tudo nele é uma força que se quebra e reagrupa;
Sua doçura é esbelta e varonil como um toureiro;
Seu fascinante horror é um sentido a mais, só isso.
Ei-lo diante da vitrina com a sua jaquetade veludo,
A bengalinha de futuro explorador da madrugada,
Seu pequeno sentimento de criatura moderna tão antiga.
Detrás do cristal, um boneco do tamanho dum homem
(Ou um homem) de cara escarlate, pálpebras azuis,
Imóvel e impecavelmente sinistro em sua casaca;
Eis o menino, mito em formação, diante do novo mito urbano,
Demorando-se a advinhá-lo entre o horror e o amor
De novas formas (ou sentidos) que a vida convocou.
Um boneco do tamanho de um homem ou um homem?
Um segredo a mais no mundo ou o mundo?
É crepúsculo e as portas de aço se cercam com rancor.
Súbito, os olhos do boneco ou do homem
Reviram-se em suas órbitas metálicas,
E aquela cara escarlate inclina-se, rápida, mecânica.
A um palmo da face do menino artista;
Seu grito de horror e amor o sufoca e paralisa,
Enquanto o boneco (ou homem) ri um riso de adulta solidão.
Só então, a caminho do jantar,
Fazendo passes com a bengala quimérica,
Aprende que sua vida vai ser um susto (e vale a pena).

Todo salto mortal pode causar a morte de um pequeno artista.
Mas um artista de verdade não cai jamais no picadeiro.
Precário é seu equilíbrio entre avô e avó,
Indecifráveis são as figuras de seu corpo na barra do parque.
Embora os tambores da matina anunciem o seu fracasso,
Um artista de verdade não cai jamais no picadeiro.
Eis que ele é dono dum cão à boca da noite
E começa a desprezá-lo logo depois do amanhecer;
Chama-se Lord, Jim ou Bob, e seu olhar é tão úmido e baço
Que o artista pequeno o percebe até as entranhas da morte,
E a experiência não vale, e perece, prematura.
Mas a quem amar se for preciso amar?
O que amar se amar for o amor?
É bom tocar a resina dos troncos e prová-la,
Prever no espaço a geometria da bola de borracha,
Passar os dedos levemente sobre o musgo,
Desviar a caravana comercial das formigas.
Ele ainda não sabe, e por isso se afasta,
Que as resinas correspondem a mil formas de sentir,
A bola quer narrar um desenho contido,
As formigas pastam em searas de rubro sentido.
Impaciente, o menino artista declina de qualquer entendimento
E vai buscar a evasão das águas,
Total no breve instante do mergulho,
Invisível e só e nu e soberbo em sua redoma.
Úmido, sobre a pedra morna do remanso,
O sol não o distingue dos pequenos répteis friorentos;
Ou sobre o trampolim, voltado à simples profundidade do céu,
Um gosto de cloro nos lábios, um galo vesperal em seus ouvidos,
Pressente em círculos efêmeros encadear-se o momento
Indivisível, como um livro de gravuras ao contrário.
Com está longe e tão perto o momento à beira do lago,
Quando poderá passear sob as ramagens, pensando
Que sua vida não é ponto imóvel no tempo
Mas luz que se desloca em cintilações diferentes,
Recompondo o ontem no amanhã, e o amanhã num agora intenso,
Associando sem dissenção, os aviões, os alcantilados,
E o mendigo que costura a sua roupa no vão de um esgoto.
De arco e tocadeira ou rolando um pneu sobre o passeio,
Ele retorna à casa, no momento da luz aglutinada,
Quando, empurrando de volta a carrocinha de sorvete,
Um homem de pescoço de girafa olha vidrado acima do horizonte.
As cidades acabam no aclive da montanha ou na linha do oceano,
Mas, ao escurecer, um bote ganha o mar alto contra o vento,
E na montanha, a meio caminho das casas e da toca do morcego,
Um homem chamado Arquimedes ou Estêvão ou Morandi
Rodeou o seu mundo de cedros altos e mastins.
O menino artista ama somente o que sabe.
Divergentes são seus caminhos de ida e de volta
Sobre o muro que se ramifica, reunindo e apartando as famílias:
Este limite entre as criaturas é a sua propriedade,
De onde pode ver cada quintal, de cor e alma diferentes,
Para contar no momento oportuno o que se passa no mundo.
Perdoa-lhe a natureza de espião, indispensável
À causa da poesia. E o perdoa ainda
Se escuta às portas, destampa os frascos de perfume,
Prova a terra, fuma restos de cigarro, espetala as flores,
Se vasculha as gavetas e velhas canastras,
Se desafina o piano, queima as mãos no fogo,
Se sempre reinventa o seu inferno exuberante,
Se bebe sangue ou fere a própria carne,
Se tem a idéia de saber se é possível viver sem respirar.
Grimpando aos últimos galhos da mangueira,
Despencando-se dos andaimes duma casa em construção,
Escondendo-se na cripta fresca duma torre,
O menino cumpre a sua missão de artista,
Antes de dormir. Antes de atravessar o espelho
Deformante do sono, onde prossegue o seu trabalho.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sábado, janeiro 16, 2010

Josette é tudo o que quiser o poema de Paulo Mendes Campos. Mas, seus olhos, calmaria de ilhas verdes, ah, são seus olhos.


Josette


Colunas do teu corpo. O real
Das coxas longas onde se implanta o ventre
Leve. O branco do seio
Dando o leite do sonho ao animal
Da noite acostumado a sofrer sede.
Teu perfil tem a linha imaginária
Das mais felizes frases literárias.
És quem tu és, és a rosa e o rosicler.
Quando caminhas vais frisando a rua
De uma eloquência clara de escultura.
És sol agora, ontem na praia foste a lua.
És tudo o que quiser o meu poema,
Mas não és o orvalho que roreja nem és pura.
Possuis a elegância de uma ave
De pés espapaçados (as mais belas)
E tens do mar o frescor suave e a voz tão grave.
Como a vaga empinada que se espraia
Abres equestres movimentos no vento. Teus cabelos
São as últimas lembranças lúcidas que me restam.
Calmaria de ilhas verdes, teus olhos,
Ah,
São teus olhos.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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