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segunda-feira, agosto 03, 2015

A beleza não é lugar de perfeição. Estás só na casa imensa, só e velha, nos versos rascantes de Eugénio de Andrade.


Mulher ao espelho


A beleza não é lugar de perfeição.
Quando te vês ao espelho é a morte
que contemplas na sua chama. Até o sol,
que nos teus cabelos tanto aquecia
as mãos daqueles a quem davas o calor
mais íntimo, é agora um lugar frio.
Não digas que não és culpada: a traição
morava contigo, e sempre os homens,
sejam reis ou pastores, foram brutais
no seu desejo, como se amar uma mulher
não fosse o seu desígnio mais fundo
e só vingassem nela uma ferida oculta.
Não te escondas para chorar no escuro.
De nada te servem lágrimas agora
nem a lembrança furtiva das noites
abertas à demência, ao vigor, à raiva
de membros que ao rasgar-te a carne
te convertiam em sucessivas vagas
de luminosa sombra prolongadas.
Tu, coroada pelo amor de um rei,
já não despertas mais que piedade,
se tão cruel veneno pode ter um nome.
Estás só na casa imensa. Só e velha.
Escuta, são as pombas que regressam,
um ar fresco do sul varre o balcão,
traz sílabas leves, feitas de memória:
"Muito me tarda o meu amigo, muito..."
Fecha as portas. Agora dorme. Dorme.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

Mais sobre Eugénio de Andrade em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%A9nio_de_Andrade

quarta-feira, julho 01, 2015

Mortal e navegável. Assim é o amor para Eugénio de Andrade.


O amor


Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável

Eugénio de Andrade 
(1923-2005)

sexta-feira, abril 12, 2013

As palavras que te envio são interditas, meu amor. E a noite cresce apaixonadamente nos versos de Eugénio de Andrade.


As palavras interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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quarta-feira, março 27, 2013

A casa que Eugénio de Andrade só tem no poema ergue-se pedra a pedra. Um dia a casa será bosque e ele encontrará a fonte onde um rumor de água será só silêncio.


Metamorfoses da casa

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.


Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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terça-feira, agosto 28, 2012

Não oiças o rouxinol ou a cotovia, lembra Eugénio de Andrade. Porque é dentro de ti que toda a música é ave.


Encostas a face

Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou a cotovia?
Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves

à terra de tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também

foi sobre as dunas a exaltação.
Não oiças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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sábado, junho 02, 2012

Os amantes não tinham dinheiro. Mas em cada gesto que faziam um pássaro nascia dos seus dedos e penetrava nos espaços.


Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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sábado, janeiro 28, 2012

Ensina-me, ensina-me como se faz do barro essa canção, pede Eugénio de Andrade em versos. É pouco o que deseja, e desse pouco ele se despede.


Ensina-me

Ensina-me, ensina-me como se faz
do barro essa canção,
essa luz que vi mudada em pedra
viva nos teus olhos.

Estou a falar de mim como se não fora
estrangeiro, o espinho
indolor da neve cravado na garganta.
Já não desço à pequena praca

onde cantam os anjos: o anel
caíu à água.
Aqui, dizem, morre-se melhor: o ar
é frio, o campo raso, roxo o orvalho.

É pouco o que desejo,
e desse pouco me despeço.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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sexta-feira, dezembro 16, 2011

Eugénio de Andrade ouve falar da sua vocação mendicante. E sorri.



Oiço falar

Oiço falar da minha vocação
mendicante e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci à rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava à minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara, e doiravam
o chão. A música,
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria à minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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sexta-feira, outubro 21, 2011

Mortal e navegável. Assim é o amor para Eugénio de Andrade.


O amor

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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quarta-feira, outubro 05, 2011

Eugénio de Andrade lembra que ele ainda era pequeno. E ela já era uma mulher triste.


Eu era pequeno

Eu era pequeno
e tu uma mulher triste.
Esta tristeza é ainda
minha.

Mas só ela.
E a laranjeira.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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sábado, setembro 03, 2011

Para Eugénio de Andrade, há muito elas são velhas. E vestidas de preto até a alma.


Mulheres de preto

Há muito que são velhas, vestidas
de preto até a alma.
Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.
Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.
A língua, pedra também.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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sábado, julho 30, 2011

Com indiferença, Eugénio de Andrade diz que, embora seja inverno desde há muito, a vocação das folhas é ser ave. Ou música, quando no vento arde o coração da cal.


Com indiferença

E por fim a manhã talvez comece
debaixo duma pedra
ou da noite escorra sobre as primeiras
violetas ou as últimas que sei eu.

Embora seja inverno desde há muito
a vocação das folhas é ser ave
ou música quando no vento
arde o coração da cal.

Ou o meu o meu.

Eugénio de Andrade
(1923-2005 )

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sábado, junho 25, 2011

No post scriputum de Eugénio de Andrade, ela está de pé na orla dos seus versos. Ainda quente dos beijos que ele lhe deu.


Post scriptum

Agora regresso à tua claridade.
Reconheço o teu corpo, arquitectura
de terra ardente e lua inviolada,
flutuando sem limite na espessura
da noite cheirando a madrugada.

Acordaste na aurora, a boca rumorosa
de um desejo confuso de açucenas;
rosa aberta na brisa ou nas areias,
alta e branca, branca apenas,
e mar ao fundo, o mar das minhas veias.

Estás de pé na orla dos meus versos
ainda quente dos beijos que te dei;
tão jovem, e mais que jovem, sem mágoa
- como no tempo em que tinha medo
que tropeçasses numa gota de água.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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segunda-feira, março 07, 2011

Diz homem, diz criança, diz estrela, e volta a dizer, homem, mulher, criança. Onde a beleza é mais nova, ensina em versos Eugénio de Andrade..



Faz uma chave

Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz homem, diz criança, diz estrela,
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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sábado, fevereiro 19, 2011

Na música que é tua, meus lábios torrenciais caem pesados, duros. E nunca mais, nos versos de amor de Eugénio de Andrade.



Os lábios

Na música que é tua,
meus lábios torrenciais
caem pesados, duros.
E nunca mais.

Despenham-se a prumo:
vidros ou punhais.
Arrastam-te ao fundo.
E nunca mais.


Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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terça-feira, setembro 21, 2010

Eugénio de Andrade deu a juventude, o vento e as areias. Agora, ele sabe como nasceu a alegria e fala de tudo quanto amou.


Até amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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quarta-feira, setembro 08, 2010

Eugénio de Andrade tem ainda uma coisa a dizer. São palavras que ele muito amou, que talvez ame ainda, elas são a casa, o sal da língua.


O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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segunda-feira, agosto 02, 2010

A beleza não é lugar de perfeição. Estás só na casa imensa, só e velha, nos versos rascantes de Eugénio de Andrade.



Mulher ao espelho


A beleza não é lugar de perfeição.
Quando te vês ao espelho é a morte
que contemplas na sua chama. Até o sol,
que nos teus cabelos tanto aquecia
as mãos daqueles a quem davas o calor
mais íntimo, é agora um lugar frio.
Não digas que não és culpada: a traição
morava contigo, e sempre os homens,
sejam reis ou pastores, foram brutais
no seu desejo, como se amar uma mulher
não fosse o seu desígnio mais fundo
e só vingassem nela uma ferida oculta.
Não te escondas para chorar no escuro.
De nada te servem lágrimas agora
nem a lembrança furtiva das noites
abertas à demência, ao vigor, à raiva
de membros que ao rasgar-te a carne
te convertiam em sucessivas vagas
de luminosa sombra prolongadas.
Tu, coroada pelo amor de um rei,
já não despertas mais que piedade,
se tão cruel veneno pode ter um nome.
Estás só na casa imensa. Só e velha.
Escuta, são as pombas que regressam,
um ar fresco do sul varre o balcão,
traz sílabas leves, feitas de memória:
"Muito me tarda o meu amigo, muito..."
Fecha as portas. Agora dorme. Dorme.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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terça-feira, junho 01, 2010

Foi para ti que criei as rosas e que pus no céu a lua. Foi para ti que deitei no chão um corpo aberto como os animais, no amor de Eugénio de Andrade.


Foi para ti que criei as rosas


Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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quinta-feira, maio 13, 2010

Não interrogues, não perguntes e não colecione dejetos, o teu destino és tu. Despe-te, não há outro caminho, ensina em versos Eugénio de Andrade.


Sobre o caminho


Nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra.

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença.

Não colecciones dejectos o teu destino és tu.

Despe-te
não há outro caminho.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

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