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segunda-feira, junho 03, 2013

Depois de Canudos, Euclides da Cunha sente-se sem condições emocionais de escrever um poema. Melhor deixar uma página vazia.


Página vazia

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo, inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De guerra despiedada e aterradora,

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
Que possa figurar dignamente
Em vosso álbum gentil, minha senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
De nossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde, nesta folha lesse,
Perguntaria: “Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes?”

Euclides da Cunha
(1866-1909)

Mais sobre Euclides da Cunha em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Euclides_da_Cunha

segunda-feira, dezembro 12, 2011

No momento cruel da despedida, Euclides da Cunha não chorou. Mas sentiu a vida das lágrimas ao peso se curvar.


Despedida

No momento cruel da despedida
Gelado o lábio, mudo, hirto, sem ar,
Eu vi sua alma, de ilusões despida,
Tremer à luz de seu tão triste olhar.

E eu não chorei...Seu peito - a alva guarida
De minha alma - chorava em doudo arfar...
E eu não chorei, mas eu senti a vida
Das lágrimas ao peso se curvar!...

Saí, andei, corri, parei cansado.
Voltei-me e longe, longe eu vi asinha
- Garça de amor fugindo pr'a o passado

Branca, pura, ideal, - sua casinha -
E as lágrimas de amor deixei - domado -
Constelaram de dor a noite minha!

Euclides da Cunha
(1866-1909)

Mais sobre Euclides da Cunha em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Euclides_da_Cunha