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sexta-feira, outubro 23, 2015

Vi todas as coisas numa coisa só e compreendi tudo desde o princípio do Mundo, disse um apaixonado Dante Milano. Tudo pelo amor.


Corpo

Adorei teu corpo,
Tombei de joelhos.
Encostei a fronte,
O rosto, em teu ventre.
Senti o gosto acre
De santidade
Do corpo nu.
Absorvi a existência,
Vi todas as coisas numa coisa só,
Compreendi tudo desde o princípio do Mundo.

Dante Milano
(1899-1991)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Milano

quarta-feira, maio 08, 2013

Maior felicidade que amar uma mulher é amar uma cidade. Quem disse isso foi o poeta Dante Milano.


A cidade

Ao ver os altos castelos
Do Alhambra, dos Alijares
Lavrados à maravilha,
El-rei Don Juan dizia:
"Se tu quisesses, Granada,
Contigo me casaria
E te daria como arras
Córdova e Sevilha!"

"Não sou solteira nem viúva,
Sou casada, rei Don Juan,
Com Abenámar o Mouro,
Senhor que muito me quer."

Maior felicidade
Que amar uma mulher,
Amor de longo olhar
E presente saudade,
Amor muito maior
É amar uma cidade!

Dante Milano
(1899-1991)

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sexta-feira, janeiro 25, 2013

Nos versos de Dante Milano onde está a diferença entre o falso e o verdadeiro amor? Qual dos dois é o verdadeiro?


Poema do falso amor 


O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro

É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro falso. A diferença
Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?

Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isto faz crer que todo amor é falso

Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso!
Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor!

Dante Milano
(1899-1991)
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quinta-feira, maio 31, 2012

Vi todas as coisas numa coisa só e compreendi tudo desde o princípio do Mundo, disse em versos um apaixonado Dante Milano. Tudo pelo amor.


Corpo


Adorei teu corpo,
Tombei de joelhos.
Encostei a fronte,
O rosto, em teu ventre.
Senti o gosto acre
De santidade
Do corpo nu.
Absorvi a existência,
Vi todas as coisas numa coisa só,
Compreendi tudo desde o princípio do Mundo.

Dante Milano
(1899-1991)

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sábado, agosto 13, 2011

Dante Milano pede perdão à Lígia pelos poetas que a desnudam, a divinizam, a prostituem. Mas em seus versos inteira a possui.


Elegia a Lígia

Lígia, teu nome de elegia
Te dá ao corpo moço um ar antigo
E cria em meu ouvido lento ritmo
Que me arrasta o absorto espírito
Para o verso e sua inútil tortura.

Tôrso de ânfora esguia!
Só o que amou deveras um quadro, um vaso, um objeto precioso,
Pode sentir o relevo suave do teu ventre,
Corpo de mulher,
Forma antiga e novíssima.

Perdoa aos poetas que te desnudam, te divinizam, te prostituem.
Em meus versos inteira te possuo.
Que importa a fêmea que se nega?
Transformada em poema,
Amo-te ainda mais!
Ajoelho agarrado a teus joelhos,
Não com palavras de fé
Mas impudente e irreverente
Profanando mas adorando
A tua imagem desfigurada.

Dante Milano
(1899-1991)

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sábado, abril 10, 2010

Numa noite funda, fria e sem Deus, o desejo de Dante Milano é ter uma coisa branca bem junto dele. Para beijar, abraçar, para se sumir, se esquecer.


Imagem


Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Uma coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca,
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,

Uma coisa branca
Para me encostar

E afundar o rosto.
Talvez um seio,

Talvez um ventre,
Talvez um braço,

Onde repousar.
Eis o meu desejo,

Uma coisa branca
Bem junto de mim,

Para me sumir,
Para me esquecer,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.


Dante Milano
(1899-1991)

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terça-feira, novembro 24, 2009

Dante Milano toma um trago de tristeza na amurada do cais. E vai andando sem saber aonde o leva este amor.


A partida


Chego à amurada do cais,
Tomo um trago de tristeza.
Vem uma aura de beleza
Entontecer-me ainda mais.

Sinto um gosto de paixão
Dentro da boca amargosa.
Vem a morte deliciosa
Arrastar-me pela mão.

Vou seguindo sem olhar,
Vou andando sem rumor,
Ouvindo a vaga do mar
Bater na pedra da dor.

Vou andando sobre o mar,
Quem sabe onde irei parar?
Vou andando sem saber
aonde me leva este amor.

Dante Milano
(1899-1991)

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terça-feira, setembro 15, 2009

Dante Milano quer escrever sem pensar que um verso consolador venha vindo impressentido. Como o princípio do amor.


Descobrimento da poesia


Quero escrever sem pensar,
Que um verso consolador
Venha vindo impressentido
Como o princípio do amor.

Quero escrever sem saber,
sem saber o que dizer,
Quero escrever uma coisa
Que não se possa entender,

Mas que tenha um ar de graça,
De pureza, de inocência,
De doçura na desgraça,
De descanso na inconsciência.

Sinto que a arte já me cansa
E só me resta a esperança
De me esquecer do que sou
E tornar a ser criança.

Dante Milano
(1899-1991)

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terça-feira, agosto 18, 2009

No belo poema de Dante Milano, a tristeza cai da ponte como a poesia cai do céu. E o homem está embaixo, aparando as migalhas do infinito.


A ponte


O desenho da ponte é justo e firme, calmo e exato.
Nada poderá perturbar as suas linhas definitivas.
A sua arquitetura equilibra-se no ar
Como um navio na água, uma nuvem no espaço.
Embaixo da ponte há ondas e sombras.
Os mendigos dormem enrodilhados nos cantos.
Não têm forma humana. São sacos no chão.
Por momentos parece ouvir-se o choro de uma criança.
A água embaixo é suja,
O óleo coagula, em nódoas luminosas, reflexos lacrimejantes.
Um vulto debruçado sobre as águas
Contempla o mundo náufrago.
A tristeza cai da ponte
Como a poesia cai do céu.
O homem está embaixo aparando as migalhas do infinito.

A ponte é sombria como as prisões.
Os que andam sobre a ponte
Sentem os pés puxados para o abismo.
Ali tudo é iminente e irreparável,
Dali se vê a ameaça que paira.
A ponte é um navio ancorado.
Ali repousam os fatigados,
Ouvindo o som das águas, a queixa infindável,
Infindável, infindável...
Um apito dá gritos
A princípio crescendo em uivos, depois mantendo bem alto o apelo desesperado.
Passam navios. Tiros. Trovões.
Quando virá o fim do mundo ?
Por cima da ponte se cruzam
Reflexos de fogo, relâmpagos súbitos, misteriosos sinais.
Que combinam entre si os astros, inimigos da Terra ?
Quando virá o fim dos homens ?
A ponte pensa...

Dante Milano
(1899-1991)

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sexta-feira, maio 08, 2009

No poema de Dante Milano, o defunto recusa qualquer comunicação com a humanidade. Que lhe é de todo indiferente agora.


Terra de ninguém


A sala recende
A terra molhada,
A caule úmido e raíz apodrecida.

As flores sobre o cadáver
Contraem pétalas enregeladas.
A figura de cera no caixão bordado
Sorri como um cego sorri
Com ar de náusea.

Os convidados expandem uma tristeza festiva.
O defunto recusa
Qualquer comunicação com a humanidade
Que lhe é de todo indiferente agora.
(Ele que morreu "pela Causa" e recebe honras fúnebres.)

Em sua torre de marfim,
Sob o céu absoluto da paisagem devastada,
Reina, altivo. (Há coroas, há bandeiras na sala.)

Passante, descobre-te e não rias,
Respeita a morte e o fedor sê sua glória.

Dante Milano
(1899-1991)

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sábado, março 21, 2009

No beco escuro e noturno vem um gato rente ao muro. Para Dante Milano, os passos são de gatuno, os olhos são de assassino.


O beco


No beco escuro e noturno
Vem um gato rente ao muro.
Os passos são de gatuno.
Os olhos são de assassino.

Esgueirando-se, soturno,
Ele me fita no escuro.
Seus passos são de gatuno.
Seus olhos são de assassino.

Afasta-se, taciturno.
Espanta-o meu vulto obscuro.
Meus passos são de gatuno.
Meus olhos são de assassino.

Dante Milano
(1899-1991)

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segunda-feira, janeiro 26, 2009

Eu só quero uma coisa branca bem junto de mim. Para me sumir, para me esquecer, nesta noite fria e sem Deus, é tudo o que pede Dante Milano.


Imagem


Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Uma coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca,
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,

Uma coisa branca
Para me encostar

E afundar o rosto.
Talvez um seio,

Talvez um ventre,
Talvez um braço,

Onde repousar.
Eis o meu desejo,

Uma coisa branca
Bem junto de mim,

Para me sumir,
Para me esquecer,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.


Dante Milano

(1899-1981)

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terça-feira, janeiro 13, 2009

Cala, poesia, diz um sofrido Dante Milano diante dos horrores da guerra. Ele compreende que a dor dos homens não pode se exprimir em nenhuma língua.


Vozes abafadas


O ruído vem de longe e quase não se escuta.
Passa no ar ou ruge dentro de nossos ouvidos?
Vem do centro da terra ou do terror das consciências?

São crianças chorando com medo da vida?
Soluços de mães que ignoram as causas?
Gritos alucinados de homens caídos sob as rodas do carro terrível?
São os últimos brados das pátrias esfaceladas,
Os uivos dos vento nas bandeiras das nações vencidas,
Ou no ventre do caos os vagidos do mundo futuro?

Cala, poesia,
A dor do homem não se pode exprimir em nenhuma língua.
Talvez a exprimisse o ai da cabeça separada do corpo que rola ensanguentada,
Talvez a escrevesse a mão hirta que no último gesto de horror largou a espada,
Talvez a disesse o grito sufocado, o pranto que salta, o suor frio, o olhar esbugalhado...
Ante o ricto dos mortos compreendo que a dor não se exprime
Em língua nenhuma e ainda que os homens falassem uma só língua.

Dante Milano
(1889-1991)

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quarta-feira, outubro 29, 2008

O passado carrega a minha vida para trás e eu de mim fiquei distante, diz Dante Milano. Ele sente que a hora da despedida é a da partida.


Ao tempo

Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,

Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?

Dante Milano
(1899-1991)

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quarta-feira, outubro 08, 2008

O amor de agora é o mesmo amor de outrora. E sinto na vida qualquer coisa de agora mas de eterno, diz em belos versos Dante Milano.


O amor de agora é o mesmo amor de outrora


O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.

Dante Milano
(1899-1991)

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quinta-feira, setembro 11, 2008

Teu abraço me esmaga, teu beijo me sufoca, por que me agarras? Assim dois inimigos se abraçam para lutar, diz Dante Milano sobre a forma de amor.


Em forma de amor


Por que me apertas com tanta força?
Por que não tiras os olhos dos meus?

Teu abraço me esmaga,
Teu beijo me sufoca,
Teus dedos se cravam nos meus cabelos,
Tua voz rouca parece exprimir num rugido o que as palavras não podem significar...

Por que me agarras?

Assim dois inimigos se abraçam para lutar.

Dante Milano
(1899-1991)

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sexta-feira, agosto 08, 2008

Vi todas as coisas numa coisa só e compreendi tudo desde o princípio do Mundo, disse em versos um apaixonado Dante Milano. Tudo pelo amor.


Corpo


Adorei teu corpo,
Tombei de joelhos.
Escostei a fronte,
O rosto, em teu ventre.
Senti o gosto acre
De santidade
Do corpo nu.
Absorvi a existência,
Vi todas as coisas numa coisa só,
Compreendi tudo desde o princípio do Mundo.

Dante Milano
(1899-1991)

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quinta-feira, junho 05, 2008

Estar atento diante do ignorado, reconhecer-se no desconhecido e compreender o que não tem sentido. Para Dante Milano, é preciso pensar ou esquecer.


Monólogo

Estar atento diante do ignorado,
reconhecer-se no desconhecido,
olhar o mundo, o espaço iluminado,
e compreender o que não tem sentido.

Guardar o que não pode ser guardado,
perder o que não pode ser perdido.
— É preciso ser puro, mas cuidado!
É preciso ser livre, mas sentido!

É preciso paciência, e que impaciência!
É preciso pensar, ou esquecer,
e conter a violência, com prudência,

qual desarmada vítima ao querer
vingar-se, sim, vingar-se da existência,
e, misteriosamente, não poder.

Dante Milano
(1899-1991)

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terça-feira, maio 20, 2008

De cair no chão, Dante Milano está bêbado de tristeza, de doçura, de incerteza. Ele sente rasgado o sonho, a ilusão sumindo, a emoção doendo.


Canção bêbeda


Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.

Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.

E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.

Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.

Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,

Bêbedo, bêbedo, bêbedo,

Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,

Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.

E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.

Dante Milano
(1899-1991)

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quinta-feira, abril 24, 2008

Tempo, vais para trás ou para diante, ou para diante e para trás? Em sua angústia, Dante Milano só sabe que a hora da despedida é a da partida.


Ao tempo

Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?

Dante Milano

(1899-1991)

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