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domingo, setembro 07, 2014

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, mais um dia afinal eu toparei comigo... Será que Mario de Andrade se encontrou mesmo ou ficou o esquecimento?


Eu sou trezentos

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios [beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Mario de Andrade
(1892-1945)

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quinta-feira, novembro 07, 2013

Um moço que sofria de paixão por causa duma índia que não queria ceder para ele, se levantou e desapareceu na água do rio. Para Mário de Andrade, neste rio tem uma iara...



Poema

Neste rio tem uma iara....
De primeiro o velho que tinha visto a iara
Contava que ela era feiosa, muito!
Preta gorda manquitola ver peixe-boi.
Felizmente velho já morreu faz tempo.
Duma feita, madrugada de neblina
Um moço que sofria de paixão
Por causa duma índia que não queria ceder pra ele,
Se levantou e desapareceu na água do rio.
Então principiaram falando que a iara cantava, era moça,
Cabelos de limo verde do rio...
Ontem o piá brincabrincando
Subiu na igara do pai abicada no porto,
Botou a mãozinha na água funda.

E vai, a piranha abocanhou a mãozinha do piá.

Neste rio tem uma iara...

Mário de Andrade
(1893-1945)

quarta-feira, junho 26, 2013

Abre-te boca e proclama, em plena praça da Sé, o horror que o Nazismo infame é. E sem piedade por ninguém, pede Mário de Andrade, conta os crimes que o estrangeiro tem.


Abre-te boca

Abre-te e proclama
Em plena praça da Sé,
O horror que o Nazismo infame
É.

Abre-te boca e certeira,
Sem piedade por ninguém,
Conta os crimes que o estrangeiro
Tem.

Mas exalta as nossas rosas,
Esta primavera louca,
Os tico-ticos mimosos,
Cala-te boca.

Mário de Andrade
(1892-1945)

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sexta-feira, dezembro 07, 2012

Manhãzinha, a italiana vem na praia do ribeirão, respira, afinal se espreguiça erguendo pros anjos o colo criador. E Mário de Andrade está lá, de olho nela.


Arraiada

Manhãzinha
A italiana vem na praia do ribeirão.
Vem derreada  e com a sombra do sono no canto dos olhos.
Põe a trouxa de roupas na lapa
E erguida fica um momentinho assim no Sol.
A narina dela mexe que nem peito de rolinha.
Mastiga a boca sem lavar
Que tem um visgo de banana e de café.
Respira
Afinal se espreguiça
Erguendo pros anjos o colo criador.

Mário de Andrade
(1892-1945)

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segunda-feira, novembro 12, 2012

Desabusado, Antônio Jerônimo pediu, só por debique, um tostão de chuva a "padim" padre Cícero. E foi atendido, veio uma trovoada enorme, que matou até o seu cavalo cardão.


Tostão de chuva

Quem é Antonio Jerônimo? É o sitiante
Que mora no Fundão
Numa biboca pobre. É pobre. Dantes
Inda a coisa ia indo e ele possuía
Um cavalo cardão.
Mas a seca batera no roçado...
Vai, Antônio Jerônimo um belo dia
Só por debique de desabusado
Falou assim: "Pois que nosso padim
Pade Ciço que é milagreiro, contam,
Me mande um tostão de chuva pra mim".
Pois então nosso "padim" padre Cícero
Coçou a barba, matutando, e disse:
"Pros outros mando muita chuva não,
Só dois vinténs. Mas pra Antônio Jerônimo
Vou mandar um tostão".
No outro dia veio uma chuva boa
Que foi uma festa pros nossos homens
E o milho agradeceu bem. Porém
No Fundão veio uma trovoada enorme
Quem numa átimo virou tudo em lagoa
E matou o cavalo de Antônio Jerônimo.
Matou o cavalo.

Mário de Andrade
(1892-1945)

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terça-feira, outubro 23, 2012

Profundo, Mário de Andrade sente imundo o seu coração. Os vícios viciaram-lhe na bajulação sem sacrifícios, sua alma corcunda como a Avenida São João.


Tristura

Profundo. Imundo meu coração...
Olha o edifício: Matadouros da Continental.
Os vícios viciaram-me na bajulação sem sacrifícios...
Minha alma corcunda como a avenida São João...

E dizem que os polichinelos são alegres!
Eu nunca em guizos nos meus interiores arlequinais!...

Paulicéias, minha noiva... Há matrimônios assim...
Ninguém os assistirá nos jamais!
As permanências de ser um na febre!
Nunca nos encontramos...
Mas há rendez-vous na meia-noite do Armenonville...

E tivemos uma filha, uma só...
Batismos do sr. cura Bruma;

Água-benta das garoas monótonas...
Registrei-a no cartório da Consolação...
Chamei-a Solitude das Plebes...

Pobres cabelos cortados da nossa monja!

Mário de Andrade
(1892-1945)

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segunda-feira, setembro 10, 2012

Um moço que sofria de paixão por causa duma índia que não queria ceder para ele, se levantou e desapareceu na água do rio. Para Mário de Andrade, neste rio tem uma iara...


Poema

Neste rio tem uma iara....

De primeiro o velho que tinha visto a iara
Contava que ela era feiosa, muito!
Preta gorda manquitola ver peixe-boi.
Felizmente velho já morreu faz tempo.
Duma feita, madrugada de neblina
Um moço que sofria de paixão
Por causa duma índia que não queria ceder pra ele,
Se levantou e desapareceu na água do rio.
Então principiaram falando que a iara cantava, era moça,
Cabelos de limo verde do rio...
Ontem o piá brincabrincando
Subiu na igara do pai abicada no porto,
Botou a mãozinha na água funda.

E vai, a piranha abocanhou a mãozinha do piá.

Neste rio tem uma iara...

Mário de Andrade
(1893-1945)

quarta-feira, maio 16, 2012

Aceitará o amor como eu o encaro? O que será que ela respondeu a Mário de Andrade?


Aceitarás o amor como eu o encaro?...

Aceitarás o amor como eu o encaro ?
......Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada.
Não desejo também mais nada,
só te olhar, enquanto a realidade é simples,
e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições.
O encanto que nasce das adorações serenas.

Mário de Andrade
(1893-1945)

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terça-feira, abril 03, 2012

Mário de Andrade bem sabe que tudo é engano, mas sabendo disso persiste em se enganar. Ele quer amar a morte com o mesmo engano com que amou a vida.


Quarenta anos


A vida é para mim, esté se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.
Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar...Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado...Horrendo
Seria agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.
Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!...Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.

Mário de Andrade
(1893-1945)

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sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Em seu improviso do mal da América, Mário de Andrade se sente só branco, sem ar neste ar-livre da América! E se sente só branco, só branco em sua alma crivada de raças!


Improviso do mal da América


Grito imperioso de brancura em mim...

Éh coisa de minha terra, passados e formas de agora,
Éh ritmos de síncopa e cheiros lentos de sertão,
Varando contracorrente o mato impenetrável do meu ser...
Não me completam mais que um balanço de tango,
Que uma reza de indiano no templo de pedra,
Que a façanho do chin comunista guerreando,
Que prantina de piá, encastoado de neve, filho de lapão.

São ecos. Mesmos ecos com a mesma insistência filtrada
Que ritmos de síncopa e cheiro do mato meu.
Me sinto branco, fatalizadamente um ser de mundos que nunca vi.
Campeio na vida a jacumã que mude a direção destas igaras fatigadas
E faça tudo ir indo de rodada mansamente
Ao mesmo rolar de rio das aspirações e das pesquisas...
Não acho nada, quase nada, e meus ouvidos vão escutar amorosos
Outras vozes de outras falas de outras raças, mais formação, mais forçura.
Me sinto branco na curiosidade imperiosa de ser.

Lá fora o corpo de São Paulo escorre vida ao guampasso dos arranhacéus,
E dança na ambição compacta de dilúvios de penetras
Vão chegando italianos didáticos e nobres;
Vai chegando a falação barbuda de Unamuno
Emigrada pro quarto-de-hóspedes acolhedor da Sulamérica;
Bateladas de húngaros, búlgaros, russos se despejam na cidade...
Trazem vodca na sapiquá de veludo
Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta,
Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado.

E de noite monótonos reunidos na mansarda, bancando conspiração,
As mulheres fumam feito chaminés sozinhas,
Os homens destilam vícios aldeões na catinga;
E como sempre entre eles tem sempre um que manda sempre em todos,
Tudo calou de sopetão, e no ar amulegado da noite que súa...
- Coro? Onde já se viu agora coro a quatro vozes, minha gente! -
São coros, coros ucranianos batidos ou místicos, Sehnsucht d'além-mar!
Home...Sweet home...Que sejam felizes aqui!

Mas eu não posso me sentir negro nem vermelho!
De certo que essas cores também tecem minha roupa arlequinal,
Mas eu não me sinto negro, mas eu não me sinto vermelho,
Me sinto só branco, relumeando caridade e acolhimento,
Purificado na revolta contra os brancos, as pátrias,
as guerras, as posses, as preguiças e ignorâncias!
Me sinto só branco agora, sem ar neste ar-livre da América!
Me sinto só branco, só branco em minha alma crivada de raças!

Mário de Andrade
(1893-1945)

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terça-feira, outubro 11, 2011

Na canção da depressão, Mário de Andrade sente estourar no coração devastado o riso da mãe-lua. E na solidão perdeu-se, nunca se alegrará.


Canção

....de árvores indevassáveis
De alma escura sem pássaros
Sem fonte matutina
Chão tramado de saudades
À eterna espera da brisa,
Sem carinhos ...como me alegrarei?

Na solidão solitude
Na solidão entrei.

Era uma esperança alada,
Não foi hoje mas será amanhã,
Há-de ter algum caminho
Raio de sol promessa olhar
As noites graves do amor
O luar a aurora o amor...que sei!

Não solidão, solitude,
Na solidão entrei
Na solidão perdi-me...

O agouro chegou. Estoura
No coração devastado
O riso da mãe-da-lua,
Não tive um dia! uma ilusão não tive!
Ternuras que não me viestes
Beijos que não me esperastes
Ombros de amigos fiéis
Nem uma flor apanhei.

Na solidão, solitude,
Na solidão entrei,
Na solidão perdi-me
Nunca me alegrarei.

Mário de Andrade
(1893-1945)

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sexta-feira, setembro 02, 2011

Mário de Andrade não queria de Rosa somente o abraço devagar e o beijo molhado. Ele queria possuir até o desgosto dela.


Rondó para você

De você, Rosa, eu não queria
Receber somente esse abraço
Tão devagar que você me dá,
Nem gozar somente este beijo
Tão molhado que você me dá...
Eu não queria só porque
Por tudo que você me fala,
Já reparei que no seu peito
Soluça o coração bem feito
De você

Pois então eu imaginei
Que junto com esse corpo magro,
Moreninho que você me dá,
Com a boniteza a faceirice
A risada que você me dá
E me enrabicham como o quê,
Bem que eu podia possuir também
O que mora atrás do seu rosto, Rosa,
O pensamento, a alma, o desgosto
De você.

Mário de Andrade
(1893-1945)

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sexta-feira, julho 08, 2011

Um rondó pra você, de Mário Andrade para Rosa. De quem ele tudo queria, até o pensamento, a alma, o desgosto dela.


Rondó pra você

De você, Rosa, eu não queria
Receber somente esse abraço
Tão devagar que você me dá,
Nem gozar somente esse beijo
Tão molhado de amor que você me dá...
Eu não queria só porque
Por tudo quanto você me fala,
Já reparei que no seu peito
Soluça o coração bem feito
De você.

Pois então eu imaginei
Que junto com esse corpo magro,
Moreninho que você me dá,
Com a boniteza a faceirice
A risada que você me dá,
E me enrabicham como o quê,
Bem que eu podia possuir também
O que mora atrás do seu rosto, Rosa,
O pensamento, a alma, o desgosto
De você.

Mário de Andrade
(1893-1945)

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quinta-feira, maio 19, 2011

Mário de Andrade se encanta com as duas costureirinhas que vêm pela rua das Palmeiras. Bonitas, Senhor! que até dão vontade pros homens da rua.


Sambinha

Vêm duas costureirinhas pela rua das Palmeiras.
Afobadas braços dados depressinha
Bonitas, Senhor! que até dão vontade pros homens da rua.
As costureirinhas vão explorando perigos...
Vestido é de seda.
Roupa-branca é de morim.

Falando conversas fiadas
As duas costureirinhas passam por mim.
- Você vai?
- Não vou não!
Parece que a rua parou para escutá-las.
Nem trilhos sapecas
Jogam mais bondes um pro outro.

E o Sol da tardinha de abril
Espia entre as pálpebras sapiroquentas de duas nuvens.
As nuvens são vermelhas.
A tardinha cor-de-rosa.

Fiquei querendo bem aquelas duas costureirinhas...
Fizeram-me peito batendo
Tão bonitas, tão modernas, tão brasileiras!
Isto é...
Uma era ítalo-brasileira.
Outra era áfrico-brasileira.
Uma era branca.
Outra era preta.

Mário de Andrade
(1893-1945)

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quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Sete anos levaram numa pendenga a Câmara Paulista e Gonçalo Pires por causa de cama, cobertor, lençol e colchão. Segundo Mário de Andrade, paulista emperrando, não cede não.



Moda da cama de Gonçalo Pires

Gonçalo Pires possui uma cama,
Em nossa vila não tem mais nenhuma,
Gonçalo Pires se dá um estadão,
Só ele na terra dorme gostoso
Em traste bonito de estimação.

Delém, dem! dem"... O sr. Ouvidor,
Representante de Felipe IV,
Já vem subindo pelo Cubatão.
O dr. Antonio Rebelo Coelho
Vem nesta vila fazer correição.

Delém! Dem! Dem!... São Paulo nos acuda!
Se agita a Municipalidade,
Ouvidor-geral não dorme no chão!
Gonçalo Pires não quer emprestar
Cama cobertor lençol e colchão.

Mas os vereadores são bons paulistas
E Francisco Jorge, o procurador,
Recebe da Câmara autorização:
Trará a cama de Gonçalo Pires,
Ele que deixe de mangação!

Gonçalo Pires resmunga, peleja,
Mas a autoridade é da Autoridade,
Lá vêm pelas ruas em procissão,
Cobertos de olhos relampeando inveja
Cama cobertor lençol e colchão.

Que úmido frio...Das várzeas em torno
Da noite vazia que não tem fim
Dissolve as casinhas a cerração...
O Ouvidor-geral sonha em cama boa
E Gonçalo Pires dorme no chão.

Delém! dem! dem!... O Ouvidor vai-se embora.
Sai mais festejado que quando entrou...
A Câmara impa de satisfação.
Mas os vereadores são bons paulistas:
- Que entregue-se a cama com prontidão.

Gonçalo Pires rejeita o bem dele.
Não dorme em cheiro de ouvidor-geral...
Se reune a Câmara em nova sessão.
- Lave-se o lençol! indica o notário.
Qual! Gonçalo empaca no rejeição.

Sete anos levam nessa pendenga
A Câmara Paulista e Gonçalo Pires,
Paulista emperrando, não cede não.
E a História não sabe que fim levaram
Cama cobertor lençol e colchão.

Mário de Andrade
(1893-1945)

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sexta-feira, novembro 05, 2010

Mário de Andrade, a moça linda, três séculos de família, burra como uma porta, um amor, e o grã-fino do despudor, burro como uma porta, um coió.


Moça linda bem tratada

Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.

Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.

Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência...

Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta de pobre arromba:
Uma bomba.

Mário de Andrade
(1893-1945)

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quarta-feira, julho 21, 2010

Em sua toada sem álcool, Mário de Andrade sente a certeza de ser nesta vida fingimento de alguém nas artes. Antes fraco covarde diante desta vida.



Toada sem álcool


Certeza de ser nesta vida
Fingimento de alguém nas artes,
Antes fraco inerme covarde,
Covarde diante desta vida.

Chuçadas e lapos berrantes,
Klaxon, terror! sem automóvel...
Antes triste traste covarde
Diante dos morros desta vida.

Ninguém sabe da solitude
Que enche o meu peito sem emprego,
O qual comunga todo dia
Na missa-baixa do abandono.

Mas, rapazes, não tenho a culpa
De ter faltado em minha vida
O amigo que me defendesse,
Aquele que eu defenderia.

Mário de Andrade
(1893-1945)

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terça-feira, junho 15, 2010

Em seu improviso do rapaz morto, Mário de Andrade diz que o corpo é um gesto que parou no meio do caminho. Um gesto que a gente esqueceu.


Improviso do rapaz morto


Morto, suavemente ele repousa sobre as flores do caixão.

Tem momentos assim em que a gente vivendo
Esta invenção de interesses e de lutas tão bravas,
Se cansa de colher desejos e preocupações.
Então pára um instante, larga o murmúrio do corpo,
A cabeça pendida cessa de imaginar,
E o esquecimento suavemente vem.
Quem que então goze as rosas que o circundam?
A vista bonita que o automóvel corta?
O pensamento que o heroíza?...
O corpo é que nem véu largado sobre um móvel,
Um gesto que parou no meio do caminho,
Gesto que a gente esqueceu.
Morto, suavemente ele se esquece sobre as flores do caixão.

Não parece que dorme, nem digo que sonhe feliz, está morto.
Num momento da vida o espírito se esqueceu e parou.
De repente ele assustou com a bulha do choro em redor,
Sentiu talvez um desaponto muito grande
De ter largado a vida sendo forte e sendo moço.
Teve despeito e não se moveu mais.
E agora ele não se moverá mais.

Vai-te embora!, vai-te embora, rapaz morto!
Oh, vai-te embora que não te conheço mais!
Não volta de-noite circular no meu destino
A luz da tua presença e o teu desejo de pensar!
Não volta oferecer-me a tua esperança corajosa,
Nem me pedir para os teus sonhos a conformação da Terra!

O universo muge de dor aos clarões dos incêndios.
As inquietudes cruzam-se no ar alarmadas,
E é enorme, insuportável minha paz!
Minhas lágrimas caem sobre ti e és como um Sol quebrado!
Que liberdade em teu esquecimento!
Que independência firme na tua morte!
Óh, vai-te embora que não te conheço mais!

Mário de Andrade
(1893-1945)

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sexta-feira, maio 28, 2010

Beijos mais beijos, Mário de Andrade vem de amores com a sua amada. São milhões de beijos proferidos, insaciáveis.


Beijos mais beijos


Beijos mais beijos,
Milhões de beijos preferidos,
Venho de amores com a minha amada,
Insaciáveis.

Rosas mais rosas,
Milhões de rosas paulistanas,
Venho de sustos com a minha amiga,
Implacáveis.

Luzes mais luzes,
Luzes perdidas na garoa,
Trago tristezas no peito vivo,
Implacáveis.

Ideais, ideais,
Ideais raivosos do insofrido,
Trago verdades novas na boca,
Insaciáveis.

Jornais, jornais,
Notícias que enchem e esvaziam,
- Me dá uma bomba sem retardamento,
Implacável!

Horas mais horas,
Rio do meu mistério esquivo,
- Me dá violetas pelos meus dedos
Insaciáveis...

Mário de Andrade
(1893-1945)

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quinta-feira, abril 22, 2010

Quem foi que disse que não vivo satisfeito? Eu danço, diz com satisfação Mário de Andrade.


Quem dirá que não vivo satisfeito! Eu danço!


Dança a poeira no vendaval.
Raios solares balançam na poeira.
Calor saltita pela praça
pressa
apertos
automóveis
bamboleios
Pinchos ariscos de gritos
Bondes sapateando nos trilhos...

A moral não é roupa diária!

Sou bom só nos domingos e dias-santos!
Só nas meias o dia-santo é quotidiano!
Vida
arame
crimes
quidam
cama e pança!
Viva a dança!
Dança viva!
Vivedouro de alegria!
Eu danço.
Mãos e pés, músculos, cérebro...
Muito de indústria me fiz careca,
Dei um salão aos meus pensamentos!
Tudo gira,
Tudo vira,
Tudo salta,
Samba,
Valsa,
Canta,
Ri!

Quem foi que disse que não vivo satisfeito?
EU DANÇO!

Mário de Andrade
(1893-1945)

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