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quarta-feira, outubro 14, 2015

Na angústia de Murilo Mendes, é necessário morrer de tristeza e de nojo. E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.


Angústia e reação

Há noites intransponíveis,
Há dias em que pára nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à idéia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Murilo_Mendes

quarta-feira, setembro 30, 2015

Murilo Mendes quer e precisa de uma mulher profunda e romântica. Para receber o diadema construído pela Poesia.



O diadema

Eu quero uma mulher
Para receber um diadema
Construído na perfeição
Quero encontrar uma cabeça
Bela nobre casta altiva
Filha do povo ou dos deuses
Preciso de uma mulher
Com a majestade no andar
Vasta e lisa a cabeleira
Mulher profunda romântica
Para receber o diadema
Construído pela Poesia.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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quarta-feira, setembro 16, 2015

Onde a morte diz "Quero nascer"? Lá longe, para Murilo Mendes.



Lá longe

Lá longe
Onde a polícia lavra os campos
Lá longe
Onde ninguém cresce nem diminui,
Lá longe
Onde navios de guerra dormem dentro de garrafas.
Lá longe
Onde Oriente e Ocidente
Debruçados à janela dialogam.
Lá longe
Onde cada um
Tem seu pão, sua dama e sua paz,
Lá longe
Onde os descantos antigos movem o rio,
Lá longe
Onde forma, palavra e energia se unem,
Lá longe
Onde Deus caminha com pés de alfombra,
Lá longe
Onde "Quero nascer" a morte diz.

Murilo Mendes
(1901-1975)


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sexta-feira, agosto 28, 2015

Presente, passado e futuro. A mulher em três tempos, por Murilo Mendes.


Mulher em três tempos

Minha boca está no presente,
O meu olhar, no passado,
Meu ventre está no futuro.
Minha boca toda a noite
Está na boca amorosa
Do meu marido atual,
Meu olhar está no olho
Do meu namorado antigo,
Meu ventre está no futuro
Do corpinho do meu filho.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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domingo, agosto 16, 2015

O dia em que Murilo Mendes confessou que gostaria de ter sido Adão. Para ser como o primeiro poeta, ao mesmo tempo pai, mãe, irmão, esposo e amante.


O primeiro poeta

Carne cansada!
E eu com os olhos desmedidamente abertos,
O coração aberto desde o amanhecer da vida.
Antes eu tivesse dormido um sono fundo
E o Criador fizesse nascer uma mulher do meu flanco,
Apresentando-me essa mulher filha da noite.
Ó Adão, só tu foste ao mesmo tempo pai, mãe, irmão, esposo e amante.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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quinta-feira, julho 16, 2015

Não bebo álcool, não tomo ópio nem éter, sou o embriagado de ti e por ti. E mil dedos apontam Murilo Mendes na rua, o homem fanático por uma mulher.


Poema do fanático

Não bebo álcool, não tomo ópio nem éter,
Sou o embriagado de ti e por ti.
Mil dedos me apontam na rua:
Eis o homem que é fanático por uma mulher.

Tua ternura e tua crueldade são iguais diante de mim
Porque eu amo tudo o que vem de ti.
Amo-te na tua miséria e na tua glória
E te amaria mais ainda se sofresses muito mais.

Caíste em fogo na minha vida de rebelado.
Sou insensível ao tempo - porque tu existes.
Eu sou fanático da tua pessoa,
Da tua graça, do teu espírito, do aparelhamento da tua vida.
Eu quisera formar uma unidade contigo
E me extinguir violentamente contigo na febre da minha, da tua, da nossa poesia.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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sábado, junho 20, 2015

Se me amasses eu me transformaria no que sou. É o que tem a dizer Murilo Mendes em sua fantasia de amor.


Fantasia

1
Anjo que precisa de outro anjo,
Espírito que vai anunciar
E ao mesmo tempo espera ser anunciado.

Anjo que segura a palma de seus braços
E se contempla, desdobrando-se ao espelho.

Anjo felino que desconcerto entre sua forma e sua fôrma!

Regressa com as órbitas vazias
Até que possa conhecer-se um dia.

2.
És de espuma e seda,
És ao mesmo tempo centelha,
Forma futura do que advinhei em sonho.

Observo eternamente
O Horizonte convexo
Espiando chegares desdobrada em asa.

Se me amasses
Eu me transformaria no que sou.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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segunda-feira, junho 01, 2015

Murilo Mendes diz que se seu amor qualquer dia o abandonar, ele não se suicidará. Escreverá mais poemas.


Arte de desamar


Meu amor é disponível,
A qualquer hora ele fecha;
A crise de convicção
É mesmo muito grande.

As pernas do meu amor
Distraem da metafísica,
O corpo do meu amor
Tem a vantagem sublime
De disfarçar o horizonte.

Eu não amo meu amor,
Para que tapeação.
Não amo ninguém no mundo,
Nem eu mesmo, nem me odeio.

Meu amor é uma rede
Onde descanso da vadiação.
Os olhos do meu amor
São bastante distraídos,
Não vêem meu desamor.

Com o porta-seios moderno
Os seios do meu amor
Aparados à la garçonne
Ocupam lugar pequeno
No espaço do seu corpo.

Se meu amor qualquer dia
Me abandonar, ai de mim!
Eu não me suicidarei...
Escreverei mais poemas.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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quarta-feira, maio 13, 2015

A natureza nos separou, somente o sobrenatural poderá nos unir. O amor sem consolo de Murilo Mendes por sua Berenice.


O amor sem consolo

Não quero me livrar de ti
Só não te perdôo porque não me dás a amargura absoluta
Não tens o poder de me extinguir com um gesto, um olhar
E a minha esperança e o meu desespero
Não estão fundados em ti.

Antes de eu te conhecer Deus já me havia marcado
Não és meu punhal nem meu bálsamo
Não sou mais que um rejeitado de Deus, de ti - e de mim.
Talvez eu ame em ti o que tens parecido comigo.

Berenice, Berenice,
Existes realmente? És uma criação da minha insônia, da minha febre,
Ou a criadora da minha insônia, da minha febre?
Berenice, Berenice,
Por que não terminas tua crueldade, dando-me a palavra de vida,
Ou por que não começas tua ternura, impelindo-me ao suicídio?

Minha amiga cruel e necessária, Berenice,
Deixa-me descansar a cabeça no teu seio
E sonhar um instante que não existo,
Que não existes, que não existe Deus,
Nem o mundo, nem o demônio, nem a vida, nem a morte.

Eu te acompanho em teus anseios e em teu tédio.
Eu te olho com o olhar de quem herdou a solidão
Porque nunca estás em mim e comigo.
A natureza nos separou
Somente o sobrenatural poderá nos unir.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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terça-feira, fevereiro 18, 2014

Por amor àquela mulher, Murilo Mendes perdeu a noção do eu. E já não sabe mais se ele se salvará ou se danará.


Amor

Os rios falam de ti,
Tantos peixes migradores
Trazem-te cartas do Oriente!

Os anjos circulam suspirando
Em torno da colméia de teus lábios.

Disfarçado em jardineiro
O Hóspede vem te visitar.

Preso ao teu corpo dia e noite
Perdi a noção do eu
E te amo tanto que não sei mais
Se me salvo ou me danarei.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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domingo, dezembro 29, 2013

Não bebo álcool, não tomo ópio, nem éter, sou o embriagado de ti e por ti. E mil dedos apontam Murilo Mendes na rua, o homem fanático por uma mulher.


Poema do fanático

Não bebo álcool, não tomo ópio nem éter,
Sou o embriagado de ti e por ti.
Mil dedos me apontam na rua:
Eis o homem que é fanático por uma mulher.

Tua ternura e tua crueldade são iguais diante de mim
Porque eu amo tudo o que vem de ti.
Amo-te na tua miséria e na tua glória
E te amaria mais ainda se sofresses muito mais.

Caíste em fogo na minha vida de rebelado.
Sou insensível ao tempo - porque tu existes.
Eu sou fanático da tua pessoa,
Da tua graça, do teu espírito, do aparelhamento da tua vida.
Eu quisera formar uma unidade contigo
E me extinguir violentamente contigo na febre da minha, da tua, da nossa poesia.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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domingo, outubro 27, 2013

A uma mulher, Murilo Mendes dedicou um dos mais belos poemas de amor da língua portuguesa. Em versos plenos de amor e dor.


A uma mulher

Não tendo podido te criar
Nem tendo sido criado por ti
Eu me vingo do destino enxertando-me no teu ser.
Jamais conseguirás te libertar de mim
Porque eu te sitiei com a chama do amor,
Porque rondei durante dias e noites o Coração de Deus
A fim de extrair dele o segredo da ternura.
Todos os que te olham pensam logo em mim,
Todos os que me olham pensam logo em ti.
Eu sou tua cicatriz que nunca se há de fechar.
Eu te perseguirei até depois da minha morte
E virei a ti no murmúrio dos ventos, no lamento das ondas,
Na angústia e na alegria dos poetas meus sucessores,
Nas almas grandes limitadas pelo físico.
Sentado nas nuvens eternas eu te esperarei
E me nutrirei através dos tempos da nostalgia de ti.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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terça-feira, outubro 01, 2013

Deprimido, Murilo Mendes diz que a mulher não é o amor, a poesia é o amor. E a poesia da ausência da mulher é equivalente à poesia da posse da mulher.


A desconsoladora

Mulher, eu te procuro continuamente. É mais fácil achar Deus, do que te
achar.

Tenho por ti uma grande atração e repulsão - ao mesmo tempo.

Eu, adormeço com teu amor e deperto com o ódio a ti. E te destruo e te
construo a todo o instante.

Hás de me perseguir até a imortalidade. A paz da mulher não é a paz de
Deus.

A mulher não é o amor. A poesia é o amor. A poesia da ausência da mulher
é equivalente à poesia da posse da mulher.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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segunda-feira, junho 10, 2013

A tarde move-se entre os galhos das mãos de Murilo Mendes. E dentre os primeiros véus surge Maria da Saudade que, sem querer, canta.


Poema da tarde

A tarde move-se entre os galhos de minhas mãos.
Uma estrela aparece no fim deste meu sangue,
Minha nuca recebeu o hálito fino de uma rosa branca.
Todas as formas servem-se mutuamente,
Umas em pé, outras se ajoelhando, outras sentadas,
Regando o coração e a cabeça do homem:

E dentre oe primeiros véus surge Maria da Saudade
Que, sem querer, canta.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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segunda-feira, maio 06, 2013

Presente, passado e futuro. A mulher em três tempos, por Murilo Mendes.


Mulher em três tempos

Minha boca está no presente,
O meu olhar, no passado,
Meu ventre está no futuro.
Minha boca toda a noite
Está na boca amorosa
Do meu marido atual,
Meu olhar está no olho
Do meu namorado antigo,
Meu ventre está no futuro
Do corpinho do meu filho.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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segunda-feira, janeiro 14, 2013

Em seu poema chicote, Murilo Mendes diz que nasceu para não nascer. É que para ele nada existe sem amor.


Poema chicote

Eis o tabuleiro do abismo
Com esfinge, quimeras e grifo.

O céu debruado em ódio
Mostra o peito de arlequim.

Eternidade madrasta,
Meu pensamento me queima
Terrível. Já estou com medo
De avançar para mim mesmo.

Nada existe sem amor.

Esposa que te negaste,
É tarde! em torno de mim
O mito rói a realidade
Cortinas negras abafam
Meu invicto coração.
Ó Deus como tardas a vir
Nas asas do teu enigma!

Nasci para não nascer.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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segunda-feira, novembro 26, 2012

Murilo Mendes sofre com ciúme até do pai e da mãe da mulher amada, sem falar do homem que a desvirginou. E também de Deus, que o matando poderia extinguir enfim seu ciúme.


Poesia do ciúme

Eu nunca poderia aplacar esta ânsia absoluta,
Esta gana que tenho de ti
- Mesmo se te possuísse.
Eu tenho ciúme do teu pai e da tua mãe,
Eu tenho ciúme daquele que te desvirginou,
Eu tenho ciúme de Deus
Que fundiu o molde da tua alma rebelada,
De Deus que me matando poderia
Extinguir enfim meu ciúme
Na noite total sem pensamento e sem sexo.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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sexta-feira, agosto 24, 2012

Mulher, por que te alimentas de mim desde o princípio? Ah, quando descerá sobre mim a paz antiga, pergunta com tristeza Murilo Mendes.


Mulher

Mulher, o mais terrível e vivo dos espectros,
Por que te alimentas de mim desde o princípio?
Em ti encontro as imagens da criação:
És pássaro, és flor, pedra e onda variável...
Mais que tudo, a nuvem que volta e se consome.
Dormir, sonhar - que adianta, se tu existes?
Se fostes forma somente! és idéia também.
Ah, quando descerá sobre mim a paz antiga.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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domingo, agosto 05, 2012

Beber, beber um grande copo de tuas lágrimas até cair no chão. Foi assim que Murilo Mendes escreveu um poema descolocado.


Poema descolocado

1

Ninguém sabe onde terminam
Os caminhos de incêndio
Em que é gostoso dormir.

Perdi-me no labirinto
Para melhor me encontrar.
Os destroços do céu
Desabam sobre mim tremor de pensamento.

2

Beber
Beber um grande copo de tuas lágrimas
Até cair no chão.

Morrer para despistar,
Morrer pelo imprevisto
Pela dama que se apagou.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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terça-feira, abril 17, 2012

Para Murilo Mendes, a mulher não é o amor, a poesia é o amor. E a poesia da ausência da mulher é equivalente à poesia da posse da mulher.



A desconsoladora

Mulher, eu te procuro continuamente. É mais fácil achar Deus, do que te
achar.

Tenho por ti uma grande atração e repulsão - ao mesmo tempo.

Eu, adormeço com teu amor e deperto com o ódio a ti. E te destruo e te
construo a todo o instante.

Hás de me perseguir até a imortalidade. A paz da mulher não é a paz de
Deus.

A mulher não é o amor. A poesia é o amor. A poesia da ausência da mulher
é equivalente à poesia da posse da mulher.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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