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sábado, março 15, 2014

Mesmo que eu morra, o poema encontrará uma praia onde quebrar as suas ondas. E me levará no tempo, quando eu já não for eu, disso estava certa Sophia.


O Poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O
 poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Sophia de Mello Breyner 
(1919-2004)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Sophia_de_Mello_Breyner

sexta-feira, novembro 29, 2013

Os índios procuraram e não encontraram, os revolucionários do meu tempo também. Como Sophia de Mello Breyner, também pergunto: será ainda possível?


O país sem mal

Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Una tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e carpinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal -
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado

Sophia de Mello Breyner
(1919=2004)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Sofia_de_Melo_Breyner

sexta-feira, outubro 04, 2013

As pessoas sensíveis são capazes de fazer barbaridades, como ganhar dinheiro com o suor dos outros. Perdoai-lhes Senhor, porque eles sabem o que fazem


As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheias de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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segunda-feira, maio 27, 2013

Em nome de tua ausência construí com loucura uma grande casa branca. E ao longo das paredes te chorei, dizem as lágrimas de Sophia de Mello Breyner.


Em nome

Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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terça-feira, abril 30, 2013

Sophia de Mello Breyner diz que em todos os jardins ela há de florir e em todos beberá a lua cheia. E que um dia será ela o mar e a areia.


Em todos os jardins

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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segunda-feira, novembro 19, 2012

Logo após a derrubada da ditadura salazarista, Sophia de Mello Breyner já se revolta contra os capitalistas da palavra que querem se aproveitar da Revolução dos Cravos. E sua revolta está carregada de fúria e raiva.


Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu  porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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quarta-feira, outubro 03, 2012

Che Guevara, na visão de Sophia de Mello Breyner.


Che Guevara

Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos papetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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quarta-feira, agosto 22, 2012

A meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, por Sophia de Mello Breyner. E que ninguém repita o seu nome proibido.


Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal


Nunca mais
A tua face será pura, limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei Senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem possa viver
Sempre.
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei Senhor que possa morrer.

Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.

Ele não ficou para conosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto.
Intacta é a sua ausência
Como a estátua de um deus
Pouapada pelos invasores de uma cidade em ruínas.
Ele não ficou para assistir
 morte da verdade e à vitória do tempo.

Que ao longe,
Na mais longínqua praia,
Onde só haja espuma, sal e vento,
Ele se perca, tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento.

E que ninguém repita o seu nome proibido.

Sophia de Mello Breyner

(1919-2004)

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sábado, junho 16, 2012

Porque os outros se compram e se vendem, porque os outros se calam, mas tu não. Nos porquês, Sophia de Mello Breyner separa os homens dos canalhas.


Porque


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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segunda-feira, abril 16, 2012

Para Sophia de Mello Breyner, o poema é a liberdade. Sílaba por sílaba ele emerge, e como se os deuses o dessem, o fazemos.



Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
- Sílaba por sílaba -
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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sexta-feira, janeiro 27, 2012

No túmulo de Lorca, Sophia de Mello Breyner chora todos os outros mortos vítimas do fascismo franquista. Todos os que não foram poupados à patada da besta.



Túmulo de Lorca

Em ti choramos os outros mortos todos
Os que foram fuzilados em vigílias sem data
Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias
Tão ignorados que nem sequer podemos
Perguntar por eles imaginar seu rosto
Choramos sem consolação aqueles que sucumbem
Entre os cornos da raiva sob o peso da força

Não podemos aceitar. O teu sangue não seca
Não repousamos em paz na tua morte
A hora da tua morte continua próxima e veemente
E a terra onde abriram a tua sepultura
É semelhante à ferida que não fecha

O teu sangue não encontrou nem foz nem saída
De Norte a Sul de Leste a Oeste
Estamos vivendo afogados no teu sangue
A lisa cal de cada muro branco
Escreve que tu foste assassinado

Não podemos aceitar. O processo não cessa
Pois nem tu foste poupado à patada da besta
A noite não pode beber nossa tristeza
E por mais que te escondam não ficas sepultado

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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sábado, julho 16, 2011

Em seu pranto pelo dia de hoje, Sophia de Mello Breyner diz que nunca choraremos bastante quando vemos o gesto criador ser impedido. E por maneiras que sabemos que nem podem ser bem descritas.



Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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sábado, junho 18, 2011

Sophia de Mello Breyner e sua difícil relação com o Senhor.



Senhor

Senhor sempre te adiei
Embora sempre soubesse que me vias
Quis ver o mundo em si e não em ti
E embora nunca te negasse te apartei.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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segunda-feira, maio 16, 2011

Sophia de Mello Breyner se perdeu na sordidez de um mundo cruel. Mas se salvou na limpidez da terra.


Eu me perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar

Sophia de Mello Breyner 
(1919-2004)

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segunda-feira, abril 04, 2011

Sophia de Mello Breyner sabe que não é perfeição nem maravilha, E imperfeita, não pode comungar na perfeição aos deuses oferecida.


Pra minha imperfeição

Pra minha imperfeição está suspenso
Em cada flor da terra um tédio imenso.

Todo o milagre, toda a maravilha
Torna mais funda a minha solidão.
E todo o esplendor pra mim é vão,
Pois não sou perfeição nem maravilha.

As flores, as manhãs, o vento, o mar
Não podem embalar a minha vida.
Imperfeita não posso comungar
Na perfeição aos deuses oferecida.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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terça-feira, fevereiro 08, 2011

Ouve, como tudo é tranquilo e dorme liso. Fecha os olhos e dorme no mais fundo de tudo que nunca floresceu, nos versos de Sophia de Melo Breyner.



Ouve

Ouve:
Como tudo é tranquilo e dorme liso;
Claras as paredes, o chão brilha,
E pintados no vidro da janela
O céu, um campo verde, duas árvores.
Fecha os olhos e dorme no mais fundo
De tudo quanto nunca floresceu.

Não toques nada, não olhes, não te lembres.
Qualquer passo
Faz estalar as mobílias aquecidas
Por tantos dias de sol inúteis e compridos.

Não te lembres, nem esperes.
Não estás no interior dum fruto:
Aqui o tempo e o sol nada amadurecem.

Sophia de Melo Breyner
(1919-2004)

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segunda-feira, novembro 15, 2010

No jardim solitário e sem lua, tudo em volta de Sophia Mello Breyner estava vivo. Mas nada pôde acordar o seu grande êxtase perdido.


O jardim e a noite


Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.
Entre os canteiros cercados de buxo,
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.
Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente,
Calaram-se os meus sonhos perdidos.
Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.
Docemente a sonhar entra a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.
Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.
Só o vento passou e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

segunda-feira, setembro 27, 2010

O poema me levará no tempo quando eu já não for eu. E mesmo que eu morra, encontrará uma praia onde quebrar as suas ondas, diz Sophya de Mello Breyner.


Poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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terça-feira, setembro 14, 2010

Revoltada, Sophia de Mello Breyner lembra todos os que ousam lutar contra a opressão e são destruídos. É seu pranto feito pelo dia de hoje.

 
Pranto feito pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)

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segunda-feira, agosto 23, 2010

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar. Em seus versos, Sofia de Mello Breyner grita que o nosso tempo é pecado organizado.


Cantata da paz

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobre a lamentação
Dos povos destruidos
Dos povos destruçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado

Sofia de Mello Breyner
(1919-2004)

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