terça-feira, maio 06, 2014
Ceguinha, a boneca de pano rolou na sarjeta e o homem do lixo a levou. Nuinha, como quis Nosso Senhor.
Boneca de pano
Boneca de pano dos olhos de conta,
vestido de chita,
cabelo de fita,
cheinha de lã.
De dia, de noite, os olhos abertos,
olhando os bonecos que sabem marchar,
calungas de mola que sabem pular.
Boneca de pano que cai:
não se quebra, que custa um tostão.
Boneca de pano das meninas infelizes que
são guias de aleijados, que apanham pontas
de cigarro, que mendigam nas esquinas, coitadas!
Boneca de pano de rosto parado como essas meninas.
Boneca sujinha, cheinha de lã. -
Os olhos de conta caíram. Ceguinha
rolou na sarjeta. O homem do lixo a levou,
coberta de lama, nuinha,
como quis Nosso Senhor.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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segunda-feira, agosto 19, 2013
Para Jorge de Lima há, não sabe onde, outros ares e outras serras, outros limites. E diz, adeus irmã, que é que chora lá fora, a humanidade ou qualquer fonte?
Ó irmã
agora que as noites vêm cedo
e paira por tudo
uma tristeza enorme
e o silêncio é tão longo
que os cães enlouquecem nas ruas,
irmã, vem me relembrar
que crescemos juntos
quando os dias eram compridos e diferentes.
Irmã, se tu sabes signos
para mudar o tempo, vem.
Vem que eu quero fugir
para outras paragens
onde as gaivotas sejam menos inúteis
e haja um coração em cada porto;
e os pássaros do mar
tão lavados e tão alvos
e tão lentos e tão sabedores de viagens
venham esvoaçar
sobre o meu cachimbo
em que os cometas do céu se apagaram.
Irmã, nos meus ritmos
há colegas que gritam:
Daubler, Ehrenstein, Stramm, suicidas,
vagabundos, crianças,
operários, leprosos e prostitutas que
se lembram ainda de suas orações familiares.
Há não sei onde outros ares e outras serras,
outros limites, adeus irmã.
Ó que noite longa,
Ó que noite tão longa!
Que é que chora lá fora?
— A humanidade ou qualquer fonte?
quarta-feira, junho 12, 2013
Para Jorge de Lima, não há saída mais para esse beco. Tudo perdido, tudo consumado.
Pranto seco
O que há sob essa máscara é um pranto seco,
pranto final, sem lágrimas, calado.
A pele ressecou-se em fruto peco,
a fronte dolorida, o olhar parado.
Não há saída mais para esse beco.
Tudo perdido, tudo consumado.
O que há sob essa máscara é um pranto seco,
sem esponja de fel e último brado.
As formigas subiram pela fronte
e desceram ligeiras pelos cravos
das patas ressequidas, pelas unhas…
Cadáver seco em solitário monte,
sem complacências e sem desagravos,
sem madalenas e sem testemunhas.
quarta-feira, maio 22, 2013
Zefa, chegou o inverno, vai acontecer de tudo. Jorge de Lima está feliz, mas lembra à Zefa que tudo isso só com os poderes de Jesus Cristo.
Inverno
Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!
segunda-feira, fevereiro 13, 2012
Para Jorge de Lima, o Relógio, seu amigo, é a Vida em Segundos. E tudo encerra o segundo, a volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece.
O Relógio
Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos...
Consulto-te: um segundo! E quem sabe se agora,
Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos
Alma que filosofa e investiga e labora?
Há a morte de ceifar somas de moribundos.
O relógio trabalha...E um sorri e outro chora,
Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos
Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora...
Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,
Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético
Tem posturas de algoz e gestos de coveiro...
Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,
Tudo encerra o segundo, insólito - sintético.
A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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quinta-feira, março 18, 2010
Jorge de Lima sente que o século está podre. E pergunta ao Senhor Jesus, onde é que eu vou buscar poesia?
Adeus, poesia
Senhor Jesus, o século está podre.
Onde é que vou buscar poesia?
Devo despir-me de todos os mantos,
os belos mantos que o mundo me deu.
Devo despir o manto da poesia.
Devo despir o manto mais puro.
Senhor Jesus, o século está doente,
o século está rico, o século está gordo.
Devo despir-me do que é belo,
devo despir-me da poesia,
devo despir-me do manto mais puro
que o tempo me deu, que a vida me dá.
Quero leveza no vosso caminho.
Até o que é belo me pesa nos ombros,
até a poesia acima do mundo,
acima do tempo, acima da vida,
me esmaga na terra, me prende nas coisas.
Eu quero uma voz mais forte que o poema,
mais forte que o inferno, mais dura que a morte:
eu quero uma força mais perto de Vós.
Eu quero despir-me da voz e dos olhos,
dos outros sentidos, das outras prisões,
não posso Senhor: o tempo está doente.
Os gritos da terra, dos homens sofrendo
me prendem, me puxam - me dai Vossa mão.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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quinta-feira, novembro 12, 2009
Para Jorge de Lima, o século está podre. E ele pergunta a Jesus, onde é que vou buscar poesia?
Adeus, poesia
Senhor Jesus, o séculos está podre.
Onde é que vou buscar poesia?
Devo despir-me de todos os mantos,
os belos mantos que o mundo me deu.
Devo despir o manto da poesia.
Devo despir o manto mais puro.
Senhos Jesus, o século está doente,
o século está rico, o século está gordo.
Devo despir-me do que é belo,
devo despir-me da poesia,
devo despir-me do manto mais puro
que o tempo me deu, que a vida me dá.
Quero leveza no vosso caminho.
Até o que é belo me pesa nos ombros,
até a poesia acima do mundo,
acima do tempo, acima da vida,
me esmaga na terra, me prende nas coisas.
Eu quero uma voz mais forte que o poema,
mais forte que o inferno, mais dura que a morte:
eu quero uma força mais perto de Vós.
Eu quero despir-me da voz e dos olhos,
dos outros sentidos, das outras prisões,
não posso Senhor: o tempo está doente.
Os gritos da terra, dos homens sofrendo
me prendem, me puxam - me dai Vossa mão.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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quarta-feira, junho 17, 2009
No poema de Jorge de Lima, o andarilho sem destino viu que não conhecia a Tarde que está oculta no tempo. Onde os horizontes são as nuvens que fogem.
Tarde oculta no tempo
O andarilho sem destino reparou então
que seus sapatos tinham a poeira indiferente
de todas as pátrias pitorescas;
e que seus olhos conservavam as noites e os dias
dos climas mais vários do universo;
e que suas mãos se agitaram em adeuses
a milhares de cais sem saudades e amigos;
e que todo o seu corpo tinha conhecido
as mil mulheres que Salomão deixou.
E o andarilho sem destino viu
que não conhecia a Tarde que está oculta no tempo
sem paisagens terrenas, sem turismos, sem povos,
mas com a vastidão infinita onde os horizontes
são as nuvens que fogem.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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quarta-feira, abril 08, 2009
Lá vem o acendedor de lampiões da rua, canta Jorge de Lima. Ele que doura a noite e ilumina a cidade, talvez não tenha luz na choupana em que habita.
O acendedor de lampiões
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: -
Ele que doura a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!
Jorge de Lima
(1893-1953)
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segunda-feira, março 09, 2009
Para Jorge de Lima, ter Arte é ter Paixão e não há Paixão sem Verso. Porque o verso é a Arte do Verbo.
Paixão e arte
Ter Arte é ter Paixão. Não há Paixão sem Verso...
O verso é a Arte do Verbo - o ritmo do som...
Existe em toda a parte, ao léu da Vida, asperso
E a Música o modula em gradações de tom...
Blasfemador, ardente, amoroso ou perverso
Quando a Paixão que o gera é Marília ou Manon...
Mas é sempre a Paixão que o faz vibrar diverso;
Se o inspira o Ódio é mau, se o gera o amor é bom...
Diz a História Sagrada e a Tradição nos fala
dum amor inocente (o mais alto destino):
A Paixão de Jesus, o perdão a Madala.
Homem, faze do Verso o teu culto pagão
E canta a tua Dor e talha o alexandrino
A quem te acostumou a ter Arte e Paixão.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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terça-feira, fevereiro 03, 2009
Em solilóquio sem fim e rio revolto, Jorge de Lima escuta consciência, lógica ou absurdo. E abre um último portão para a fuga completa da razão.
Solilóquio sem fim e rio revolto
Solilóquio sem fim e rio revolto -
mas em voz alta, e sempre os lábios duros
ruminando as palavras, e escutando
o que é consciência, lógica ou absurdo.
A memória em vigília alcança o solto
perpassar de episódios, uns futuros
e outros passados, vagos, ondulando
num implacável estribilho surdo.
E tudo num refrão atormentado:
memória, raciocínio, descalabro...
Há também a janela da amplidão;
e depois da janela esse esperado
postigo, esse último portão que eu abro
para a fuga completa da razão.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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quinta-feira, janeiro 15, 2009
Nos versos de Jorge de Lima, para não apanhar mais Maria Diamba falou que sabia fazer bolos. Virou cozinha e foi outras coisas para que tinha jeito.
Maria Diamba
Para não apanhar mais
falou que sabia fazer bolos:
virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
Não falou mais:
Viram que sabia fazer tudo,
até mulecas para a Casa-Grande.
Depois falou só,
só diante da ventania
que ainda vem do Sudão;
falou que queria fugir
dos senhores e das judiarias deste mundo
para o sumidouro.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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sexta-feira, novembro 21, 2008
Nos versos de Jorge de Lima, a água é mansa, a água é doida, nada nadador! Senão, que restará de ti, nadador? Nada, nadador.
Poema do nadador
A água é falsa, a água é boa.
Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
aqui é fria, ali é morna
a água é fêmea.
Nada, nadador!
A água sobe, a água desce,
a água é mansa, a água é doida.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Senão, que restará de ti, nadador?
Nada, nadador.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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segunda-feira, novembro 03, 2008
O avô da avó de Jorge Lima morreu também corcovado, carregando um cristo de maçaranduba. E ele adora o Cristo turista, de braços abertos na montanha.
Cristo Redentor do Corcovado
O avô de minha avó
Morreu também corcovado
Carregando um cristo de maçaranduba
Que protegia os passos vagarosos da família.
Arranjei velocidade.
Virei homem de cimento armado.
Adoro esse Cristo turista
De braços abertos
Que procura equilíbrio
Na montanha brasileira.
Os homens de fé têm esperança n' Ele,
Porque Ele é ligeiro, porque Ele é ubíquo,
Porque Ele é imutável.
Ele acompanha o homem de cimento armado
Através de todas as substancias,
Através de todas as perspectivas,
Através de todas as distancias
Jorge de Lima
(1893-1953)
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terça-feira, setembro 02, 2008
Caminhos de Mundaú, caminhos de curvas. De onde Jorge de Lima veio para a cidade onde ninguém sabe o que é caminho.
Caminhos de minha terra
Caminhos inventados por quem não tem pressa de ir-se embora.
Pelos que vão à escola.
Pelos que vão à vila trabalhar.
Pelos que vão ao eito.
Pelos que deixam a terra como eu deixei um dia...
Pelos que levam quem se despede da vida que é tão bela...
À minha terra ninguém chega: ela é tão pobre.
Dizem que tem bons ares para os tísicos -
mas os tísicos não vão lá: é tão difícil ir-se lá...
Caminhos de minha terra onde perdi
os olhos e os passos da meditação...
Caminhos em que ceguinhos e aleijados podem
ir sem olhos e sem pernas: eles não atropelam
os pobrezinhos.
Alguém quer partir e eles dizem:
- não vás: toma lá uma goiaba madura,
um pitanga, uma ingá e dão como
as mãos dos missionários que dão tudo,
cajus, pitombas, araçás a todos os meninos do lugar.
Caminhos que ainda têm orvalhos e sonâmbulos bacuraus,
e têm ninhos suspensos nas ramadas.
Ali perto, na Curva do Encantado
onde mataram de emboscada um cangaceiro,
há uma cruz de pitombeira...
Quem passa joga uma pedra,
reza baixinho:
Padre Nosso que estais no céu
santificado seja o vosso nome
venha a nós...
Aquela cruz do cangaceiro é milagrosa,
já me curou dum puxado que
eu peguei na escola da professora -
minha tia Bárbara de Olivedo Cunha Lima -
Mundaú! - soube depois
que quer dizer rio torto.
Quem te inventou Mundaú, das minhas lavadeiras seminuas,
dos meus pescadores de traíras? -
Mundaú! - rio torto - caminho de curvas,
por onde eu vim para a cidade
onde ninguém sabe o que é caminho.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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sábado, maio 24, 2008
Apenas eu te aceito, não te quero nem te amo, dor do mundo. E como Homero, aceito a provação que me surgir, diz Jorge de Lima às suas dores.
Dor do mundo
Apenas eu te aceito, não te quero
nem te amo, dor do mundo. Há honraria
que nos abate como um punho fero
mas aceitamos com sobrançaria.
A um vate grego certo rei severo
vazou-lhe os olhos para não fugir.
Ó dor do mundo, eu vivo como Homero,
aceito a provação que me surgir.
Homero a tua história sinto-a; e urdo
o teu destino, o meu e o de teu rei.
Mas só teus olhos nossos passos guiam,
e inda tens vozes para o mundo surdo,
e luz para os outros cegos, luz que herdei
com a aceitação dos olhos que não viam.
Jorge de Lima
(1893-1853)
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terça-feira, maio 06, 2008
Não te chamo Eva, nem te dou nenhum nome de mulher nascida. Mas te chamo a que desceu do luar para causar as marés, diz Jorge de Lima ao seu amor.
O nome da musa
Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida,
nem de fada, nem de deusa, nem de musa, nem de sibila, nem de terras,
nem de astros, nem de flores.
Mas te chamo a que desceu do luar para causar as marés
e influir nas coisas oscilantes.
Quando vejo os enormes campos de verbena agitando as corolas,
sei que não é o vento que bole mas tu que passas com os cabelos soltos.
Amo contemplar-te nos cardumes das medusas que vão para os mares boreais,
ou no bando das gaivotas e dos pássaros dos pólos revoando sobre as terras geladas
Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida.
O teu nome deve estar nos lábios dos meninos que nasceram mudos,
nos areais movediços e silenciosos que já foram o fundo do mar,
no ar lavado que sucede as grandes borrascas,
na palavra dos anacoretas que te viram sonhando
e morreram quando despertaram,
no traço que os raios descrevem e que ninguém jamais leu.
Em todos esses movimentos há apenas sílabas do teu nome secular
que coisas primitivas escutaram e não transmitiram às gerações .
Esperemos, amigo, que searas gratuitas nasçam de novo,
e os animais de criação se reconciliem sob o mesmo arco-íris
então ouvireis o nome da que não chamo Eva
nem lhe dou nenhum nome de mulher nescida.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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segunda-feira, março 24, 2008
Nos versos de Jorge de Lima, a única fábrica que o operário tem é a sua mulher. Ela fabrica anjos para o Senhor Jesus e braços para o senhor burguês.
Mulher proletária
Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.
Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.
Jorge de Lima
(1893-1953)Mais sobre Jorge de Lima em
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terça-feira, fevereiro 26, 2008
Nos versos de Jorge de Lima, o homem deve se lembrar que é apenas um pobre esquimó entre o gelo da terra e a última noite que o libertou do mundo.
As palavras de despedida
E ouvirás em cada século que passa
um ruído que se perde no tempo;
e o último cometa que apenas passou ontem;
e os oceanos renovarem suas águas muitas vezes.
Verás várias constelações te enviarem seus raios e se extinguirem depois.
Confrontarás tua infância com a dos filhos do Sol.
Reconhecerás as estrelas que jogaram pedras
quando eras um simples homem nos caminhos da vida.
Recensearás como Abraão os astros que puderes contar.
Contemplarás a morte prematura das luas
e a vida misteriosa das estrelas.
Reconstituirás o jogo da criação e o trono da primeira mulher.
Avistarás centenas de milhões de eclipses se produzirem simultaneamente.
E centenas de milhões de labaredas em espiral subirem até o trono do Mestre.
E te lembrarás que eras um pobre esquimó entre o gelo da terra
e a última noite que te libertou do mundo.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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sábado, agosto 11, 2007
Em Invenção de Orfeu, Jorge de Lima pede que o céu jamais lhe dê a tentação funesta de adormecer ao léu, na lomba da floresta. E penetrou-se do Verbo.
“O céu jamais me dê a tentação funesta”
(de invenção de Orfeu”)
O céu jamais me dê a tentação funesta
de adormecer ao léu, na lomba da floresta,
onde há visgo, onde certa erva sucosa e fria,
carnívora decerto o sono nos espia.
Que culpa temos nós dessa planta da infância,
de sua sedução, de seu viço e constância?
Minha cabeça estava em pedra, adormecida,
quando me sobreveio a cena pressentida.
Em sonâmbulo arriei as mãos e os pés culpados
dos passos e do gesto em vão desperdiçados.
Despi-me de outros bens, de glória mais modesta:
reserva-me por fim a minha pobre testa
confundida com a pedra em meio da floresta.
Que doces olhos têm as coisas simples e unas
onde a loucura dorme inteira e sem lacunas!
Agora posso ver as mãos entrecruzadas
e as plantas de meus pés nas entranhas amadas,
nesse início que é a clara insônia verdadeira.
Ó seres primordiais que sois testa e viseira,
restituo-me em vós, sangue e máscara vividos,
desejo de esquecer tempo e espaço existidos;
e em vós e em vossa paz meus solilóquios paro-os
penetro-me do Verbo em seus silêncios claros,
invisto-me de vós, vossa fronte me espia
através dessa pedra em que nasce o meu dia.
Jorge de Lima
(1893-1953)
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