quarta-feira, novembro 30, 2011
Para Oswald de Andrade, desde Bilac somos internacionalistas e portugueses júniors. E desde a Prosopopéia somos brasileiros.
Estrondam em ti as iaras
Desde Bilac
Somos internacionalistas e portugueses júniors
Gostamos de Camembert, do Nilo, de Frinéia e de Marx
Carvões do mar
Náufragos entre sustos e paisagens
- "I don't know my elders!".
Desde Gonzaga
Somos pastores e desembargadores
Desde a Prosopopéia
Somos brasileiros.
Oswald de Andrade
(1890-1954)
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terça-feira, novembro 29, 2011
Da filha do rei Manuel Bandeira só viu a cor dos cabelos. O seu corpo ele jamais conhecerá.
A filha do rei
Aquela cor de cabelos
Que eu vi na filha do rei
- Mas vi tão subitamente -
Será a mesma cor da axila,
Do maravilhoso pente?
Como agora o saberei?
Vi-a tão subitamente!
Ela passou como um raio:
Só vi a cor dos cabelos.
Mas o corpo, a luz do corpo?...
Como seria o seu corpo?...
Jamais o conhecerei!
Que eu vi na filha do rei
- Mas vi tão subitamente -
Será a mesma cor da axila,
Do maravilhoso pente?
Como agora o saberei?
Vi-a tão subitamente!
Ela passou como um raio:
Só vi a cor dos cabelos.
Mas o corpo, a luz do corpo?...
Como seria o seu corpo?...
Jamais o conhecerei!
Manuel Bandeira
(1886-1968)
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segunda-feira, novembro 28, 2011
Dormes, que penso e mensagens tristes lhe envio. Pensamentos, nada mais, diz Cecília em seu acalanto.
Acalanto
Dorme, que eu penso.
Cada qual assim navega
pelo seu mar imenso.
Eatarás vendo. Eu estou cega.
Nem te vejo nem a mim.
No teu mar, talvez se chega.
Este, não tem fim.
Dorme, que eu penso.
Que eu penso neste navio
clarividente em que vais.
Mensagens tristes lhe envio.
Pensamentos - nada mais.
Cecília Meireles
(1901-1964)
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domingo, novembro 27, 2011
Drummond tem apenas duas mãos e o sentimento do mundo. E sabe que ficará sozinho em um amanhecer mais noite que a noite.
Sentimento do mundo
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não dosseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.
Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)
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sábado, novembro 26, 2011
Enre os pequenos e os grandes lábios, os sábios ainda discutem se amor é troca ou entrega louca. Leminski também.
se
amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cinco mil sentidos
está livre de mal-entendidos?
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios
no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?
a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cinco mil sentidos
está livre de mal-entendidos?
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