sexta-feira, maio 06, 2011
Murilo Mendes visita-se ao espelho sem algemas. Munido de passaporte para este mundo, ou não?
Insônia
Ao longe um cão branquíssimo latindo
Divide a noite em duas.
Se aquele cão fosse negro
Talvez que eu pudesse dormir.
Pressinto uma bomba atômica
Adormecida num bosque.
Vivo ou morto estarei, inculpe ou réu?
Visito-me ao espelho: sem algemas.
Munido de passaporte para este mundo, ou não?
Murilo Mendes
(1901-1975)
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quinta-feira, maio 05, 2011
Para Alberto Caeiro, quando a erva crescer em cima de sua sepultura, seja este o sinal para lhe esquecerem de todo. Porque a natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
Quando a erva crescer
Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
Seja este o sinal para me esquecerem de todo.
A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
E se tiverem a necessidade doentia de "interpretar" a erva verde
sobre a minha sepultura,
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.
Alberto Caeiro, um dos heterônimos de
Fernando Pessoa
(1888-1935)
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quarta-feira, maio 04, 2011
Para Mario Quintana, quem ama inventa. Ele sabe o bem que faz haver sonhado e ter vivido o sonho.
Quem ama inventa
Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!
Mario Quintana
(1906-1994)
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terça-feira, maio 03, 2011
Ela pediu um poema em que o amor se exprima, tudo resumindo em palavras. E Nuno Júdice pergunta: mas o que fica nas palavras daquilo que se viveu?
Amor
Um poema, dizes, em que
o amor se exprima, tudo
resumindo em palavras.
Mas o que fica
nas palavras
daquilo que se viveu?
Um pó de sílabas,
o ritmo pobre da
gramática, rimas sem nexo...
Nuno Júdice
(1949)
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domingo, maio 01, 2011
Esta espécie de loucura, que é pouco chamar talento, não me traz felicidade. Porque sempre haverá sol ou sombra na cidade, mas em mim não sei o que há, admite Fernando Pessoa.
Esta espécie de loucura
Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
É que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento.
Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há.
Fernando Pessoa
(1888-1935)
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