quinta-feira, maio 06, 2010
Em 1940, em plena guerra mundial, Drummond já alertava para a insensibilidade da burguesia. Para os inocentes do Leblon, era fácil esquecer.
Inocentes do Leblon
Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.
Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)
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O que eu perdi não foi um sonho bom. Foi a felicidade da ignorância, a última rubra flor da mocidade, na dor de Abgar Renault.
Fim
O que eu perdi não foi um sonho bom,
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.
O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade,
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.
E dói - não esse gesto ausente, a que se apagam
as flores mais solares, mas uma hora,
- flor de momento numa breve aurora -
hora longínqua, esquiva e para sempre morta,
em cuja escura, inacessível porta
noturnos olhos cegamente vagam.
Abgar Renault
(1901-1995)
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quarta-feira, maio 05, 2010
Sou nada, e entanto agora eis-me centro finito do círculo infinito de mar e céus afora. Estou onde está Deus, confessa em versos Manuel Bandeira.
Embalo
No balanço das águas,
Ao trépido pulsar
Da máquina, embalar
As persistentes mágoas
Das peremptas feridas...
Beber o céu nos ventos
Sabendo a sonolentos
Sais e iodados relentos.
Anseios de insofridas
Esperas e esperanças
Diluem-se na bruma
Como na vaga a espuma
- Flores de espumas mansas -
Que a um lado e outro abotoa
Da cortadora proa.
Azuis de águas e céus...
Sou nada, e entanto agora
Eis-me centro finito
Do círculo infinito
De mar e céus afora.
- Estou onde está Deus.
Manuel Bandeira
(1886-1968)
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Para seu amor, Sophia de Mello Breyner criará um dia puro. Livre como o vento e repetido como o florir das ondas ordenadas.
Prece
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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terça-feira, maio 04, 2010
Nos lábios do menino Mario Quintana, queimava-se, ignorada, a palavra mágica. Poesia.
O menino louco
Eu te paguei minha pesada moeda,
Poesia...
Ó teus espelhos deformantes e límpidos
Como a água! Sim, desde menino,
Meus olhos se abriam insones como flores no escuro
Até que, longe, no horizonte, eu via
A Lua vindo, esbelta como um lírio...
Às vezes numa túnica de Infanta
Sonâmbula...Às vezes virginalmente nua...
E era branca como as nozes que os esquilos
descascam na mata...
Pura como um punhal de sacrifício...
(Em meus lábios queimava-se, ignorada,
a palavra mágica!)
Mario Quintana
(1906-1994)
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