quarta-feira, novembro 04, 2009
Ana Cristina Cesar tentou.
Tenho uma folha branca
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite:
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.
Ana Cristina Cesar
(1952-1983)
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terça-feira, novembro 03, 2009
No jogo do perde e ganha, Gullar diz que vida ele tem uma só. E que, a cada lance, a vida ou se perde ou se ganha com os demais.
Perde e ganha
Vida tenho uma só
que se gasta com a sola de meu sapato
a cada passo pelas ruas
e não dá meia-sola.
Perdi-a já
em parte
num poquer solitário,
mas a ganhei de novo
para um jogo comum.
E neste jogo a jogo
inteiro, a cada lance,
que a vida ou se perde ou se ganha com os demais
e assim se vive
que é a mais pura perda.
Ferreira Gullar
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No poema de Maria O'Neill, para a infeliz nada mais triste na terra que a vida alegre ir seguindo. O coração vai chorando, os lábios sempre sorrrindo.
Uma infeliz
Sou filha do alto Minho
e vim de lá enganada:
nesta Lisboa, tão boa,
é que me fiz desgraçada.
Nada mais triste na terra
que a vida alegre ir seguindo:
o coração vai chorando,
os lábios sempre sorrindo.
Eu não vivo do presente
nem pensando no futuro.
Que o agora é todo lama,
o depois é num monturo.
Ai, como os homens honrados
a mim me fizeram mal!
Fui criada entre carinhos,
findarei num hospital.
Não posso mostrar afeto
nem ter amor a ninguém,
que me pagam com dinheiro
atirado com desdém.
Só uma réstia de sol
alegra a minha janela:
é a lembrança do tempo
em que fui criança e bela.
Nada mais triste na terra
que a vida alegre ir seguindo:
o coração vai chorando,
os lábios sempre sorrindo.
Maria O'Neill
(1873-1932)
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domingo, novembro 01, 2009
Para Paulo Leminski, ao perder a lembrança grande coisa não se perde. Nuvens são sempre brancas e o mar continua verde.
Saudosa amnésia
Memória é coisa recente.
Até ontem, quem lembrava?
A coisa veio antes,
ou, antes, foi a palavra?
Ao perder a lembrança,
grande coisa não se perde.
Nuvens, são sempre brancas.
O mar? Continua verde.
Paulo Leminski
(1944-1989)
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No casulo há um homem, mas o fundo é o outro lado. E o mundo é o outro lado que começa, nos versos de Carlos Nejar.
Construção da noite
No casulo há um homem
mas o fundo é o outro lado.
No casulo de seu tempo há um homem,
mas o fundo é o outro lado.
É o casulo onde o homem foi achado,
mas o fundo é o outro lado.
É o terreno onde o homem foi lavrado,
mas o fundo é o outro lado.
É a treva onde o homem foi fechado,
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio de um homem soterrado,
mas o fundo é o outro lado.
Mas o fundo é o outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto,
é a infância que cresce sobre o morto,
é o sol que madruga no seu rosto,
é um homem que salta do sol posto
e convoca outros homens para o sonho
e mistura-se à terra
e mistura-se ao sonho.
E o canto recomeça além do sonho,
além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado,
mas o fundo principia sem passado,
sem os montes, sem os barcos, sem o lago.
Tua vida verdadeira é o outro lado.
Tua terra verdadeira é o outro lado.
Tua herança verdadeira é o outro lado.
Tudo cessa.
Tudo cessa,
tudo cessa.
Mas o mundo
é o outro lado
que começa.
Carlos Nejar
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