quarta-feira, novembro 04, 2009

Ana Cristina Cesar tentou.


Tenho uma folha branca


Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:

mudo convite:

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.


Ana Cristina Cesar
(1952-1983)

Mais sobre Ana Cristina Cesar em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ana_Cristina_Cesar

terça-feira, novembro 03, 2009

No jogo do perde e ganha, Gullar diz que vida ele tem uma só. E que, a cada lance, a vida ou se perde ou se ganha com os demais.


Perde e ganha


Vida tenho uma só
que se gasta com a sola de meu sapato
a cada passo pelas ruas
e não dá meia-sola.

Perdi-a já
em parte
num poquer solitário,
mas a ganhei de novo
para um jogo comum.

E neste jogo a jogo
inteiro, a cada lance,
que a vida ou se perde ou se ganha com os demais
e assim se vive
que é a mais pura perda.

Ferreira Gullar

Mais sobre Ferreira Gullar em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ferreira_Gullar

No poema de Maria O'Neill, para a infeliz nada mais triste na terra que a vida alegre ir seguindo. O coração vai chorando, os lábios sempre sorrrindo.


Uma infeliz


Sou filha do alto Minho
e vim de lá enganada:
nesta Lisboa, tão boa,
é que me fiz desgraçada.

Nada mais triste na terra
que a vida alegre ir seguindo:
o coração vai chorando,
os lábios sempre sorrindo.

Eu não vivo do presente
nem pensando no futuro.
Que o agora é todo lama,
o depois é num monturo.

Ai, como os homens honrados
a mim me fizeram mal!
Fui criada entre carinhos,
findarei num hospital.

Não posso mostrar afeto
nem ter amor a ninguém,
que me pagam com dinheiro
atirado com desdém.

Só uma réstia de sol
alegra a minha janela:
é a lembrança do tempo
em que fui criança e bela.

Nada mais triste na terra
que a vida alegre ir seguindo:
o coração vai chorando,
os lábios sempre sorrindo.

Maria O'Neill
(1873-1932)

Mais sobre Maria O'Neill em
http://en.wikipedia.org/wiki/Maria_O%27Neill

domingo, novembro 01, 2009

Para Paulo Leminski, ao perder a lembrança grande coisa não se perde. Nuvens são sempre brancas e o mar continua verde.


Saudosa amnésia


Memória é coisa recente.
Até ontem, quem lembrava?
A coisa veio antes,
ou, antes, foi a palavra?
Ao perder a lembrança,
grande coisa não se perde.
Nuvens, são sempre brancas.
O mar? Continua verde.

Paulo Leminski
(1944-1989)

Mais sobre Paulo Leminski em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Leminski

No casulo há um homem, mas o fundo é o outro lado. E o mundo é o outro lado que começa, nos versos de Carlos Nejar.


Construção da noite


No casulo há um homem
mas o fundo é o outro lado.
No casulo de seu tempo há um homem,
mas o fundo é o outro lado.
É o casulo onde o homem foi achado,
mas o fundo é o outro lado.
É o terreno onde o homem foi lavrado,
mas o fundo é o outro lado.
É a treva onde o homem foi fechado,
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio de um homem soterrado,
mas o fundo é o outro lado.
Mas o fundo é o outro lado.

É a infância que nasce sobre o morto,
é a infância que cresce sobre o morto,
é o sol que madruga no seu rosto,
é um homem que salta do sol posto
e convoca outros homens para o sonho
e mistura-se à terra
e mistura-se ao sonho.

E o canto recomeça além do sonho,
além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado,
mas o fundo principia sem passado,
sem os montes, sem os barcos, sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado.
Tua terra verdadeira é o outro lado.
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa.
Tudo cessa,
tudo cessa.
Mas o mundo
é o outro lado
que começa.

Carlos Nejar

Mais sobre Carlos Nejar em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Nejar