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terça-feira, agosto 10, 2010
Fernando Pessoa, por Sophia de Mello Breyner. Semelhante a um deus de quatro rostos? Semelhante a um deus de muitos nomes?
Fernando Pessoa
Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo
Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que fostes como as ervas não colhidas
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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sábado, julho 03, 2010
Os índios procuraram e não encontraram, os revolucionários do meu tempo também. Como Sophia de Mello Breyner, também pergunto: será ainda possível?
O país sem mal
Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Una tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e carpinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal -
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado
Sophia de Mello Breyner
(1919=2004)
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quarta-feira, junho 02, 2010
A casa que eu amei foi destroçada. A vida sussurrada quebrou-se, não é minha, no momento triste de Sophia de Mello Breyner.
A casa
A casa que eu amei foi destroçada
A morte caminha no sossego do jardim
A vida sussurrada na folhagem
Subitamente quebrou-se não é minha
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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quarta-feira, maio 05, 2010
Para seu amor, Sophia de Mello Breyner criará um dia puro. Livre como o vento e repetido como o florir das ondas ordenadas.
Prece
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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quarta-feira, março 31, 2010
Aqui nesta praia não há nenhum vestígio de impureza. Aqui o tempo apaixonadamente encontra a própria liberdade, nos versos de Sophia de Mello Breyner.
Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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domingo, fevereiro 14, 2010
Sophia de Mello Breyner quer um dia branco, um mar de beladona, um movimento inteiro, unido, adormecido. Como um só momento.
Intervalo (II)
Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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domingo, janeiro 03, 2010
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos. A paz sem Vencedor e sem Vencidos, pede Sophia de Mello Breyner.
A Paz sem Vencedor e sem Vencidos
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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terça-feira, dezembro 15, 2009
Os amigos morriam, partiam, quebravam o rosto contra o tempo. E Sophia de Mello Breyner odiou o que era fácil, procurou-se na luz, no mar, no vento.
Biografia
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
Sophia de Melo Breyner
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terça-feira, outubro 27, 2009
No belo poema de Sophia Mello Breyner, nunca mais caminharás nos caminhos naturais. E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
Nunca mais
Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.
E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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quinta-feira, julho 09, 2009
Sophia de Mello Breyner diz que no poema ficou o fogo mais secreto. O fogo que esteve sempre muito longe e muito perto.
No poema
No poema ficou o fogo mais secreto
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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terça-feira, junho 23, 2009
Numa bela homenagem a Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner diz que ele é semelhante a um Deus de quatro rostos. E a um Deus de muitos nomes.
Fernando Pessoa
Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo
Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um Deus de quatro rostos
E és semelhante a um Deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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terça-feira, junho 09, 2009
A noite reúne a casa e o seu silêncio. E o vazio caminha em seus espaços vivos, nos belos versos de Sophia de Mello Breyner.
A noite e a casa
A noite reúne a casa e o seu silêncio
Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo
A noite reúne a casa a seu destino
Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento
O vazio caminha em seus espaços vivos
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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sábado, maio 16, 2009
Mesmo os que não viveram os horrores de uma ditadura, devem entender a força destes versos de Sophia de Mello Breyner. Democracia, sempre!
Exílio
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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segunda-feira, abril 13, 2009
Para Sophia de Mello Breyner, o poema é a liberdade. Sílaba por sílaba ele emerge, e como se os deuses o dessem, o fazemos.
Liberdade
O poema é
A liberdade
Um poema não se programa
Porém a disciplina
- Sílaba por sílaba -
O acompanha
Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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quarta-feira, abril 01, 2009
Com este lindo poema, Sophia de Mello Breyner comemora a Revolução dos Cravos. A madrugada que ela esperava para ver Portugal livre do salazarismo.
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emrgimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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terça-feira, fevereiro 10, 2009
São muitos os tempos vividos por Sophia de Mello Breyner, tempos para não serem esquecidos. Nunca, por ninguém!
Data
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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sábado, janeiro 17, 2009
Por maior que seja o desespero, nenhuma ausência é mais funda do que a tua. Em belo poema de amor, Sophia de Mello Breyner expõe todo seu sofrimento.
Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner
(1919-2004)
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sexta-feira, janeiro 09, 2009
Um poeta estava do outro lado do mar. E seus poemas caminharam com Sophia de Mello Breyner nos passeados campos de sua juventude.
Manuel Bandeira
Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar
Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava
Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"
Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um elétrico amarelo as decepava
Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado
Sophia de Mello Breyner
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domingo, dezembro 21, 2008
Para que ela fosse aquela perfeição, foram necessárias gerações de escravos. Um intenso desperdiçar de gente, nos versos de Sophia de Mello Breyner.
Retrato de uma princesa desconhecida
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um intenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Sophia de Mello Breyner
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sábado, novembro 15, 2008
A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça. E a vida toda deixava ali de ser a minha porque tu ias morrer, diz Sophia com todo o seu amor.
A pequena praça
A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça.
Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica das pequenas lojas
Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficam no canto desta praça
Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti
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Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica das pequenas lojas
Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficam no canto desta praça
Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti
Sophia de Mello Breyner
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