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segunda-feira, outubro 26, 2009

Em sua cantiga para Tom Jobim, Paulo Mendes Campos diz como se achar no paraíso, perdido. E como achar o poeta, de repente ou devagar.


Cantiga para Tom Jobim


Quem for além simplesmente
desse espelho transparente
há de sumir? ou se ver?
relembrar? ou esquecer?
Quem for além simplesmente
desse espelho transparente
há de sentir? ou sonhar?
prosseguir? ou regressar?
Mas quem acha uma seta
que lhe apontar o sentido
neste espelho, há de se achar
no paraíso, perdido,
onde achará o poeta,
de repente ou devagar.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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sexta-feira, setembro 11, 2009

No poema-sermão de Paulo Mendes Campos todos são bem-aventurados. Homens, mulheres, bichos, o Deus que cria o universo e o demônio que o perdoa.


Sermão do Diabo


Bem-aventurados os aleijados porque não distinguem as proporções dos
sentimentos morais e desenham triângulos tortos na areia.
Bem aventurados os cegos de nascença porque rangem quando rangem
nas curvas os astros do cosmos sem música.
Bem-aventuradas as mulheres feias porque trocam sinais com a Via-Láctea
e são tangíveis a todas as semáforas.
Bem-aventurados os que morrem nas catástrofes ferroviárias porque a vida
foi de repente a sinistra aventura.
Bem-aventurados os desequilibrados líricos porque inventam tristes
gnomonias.
Bem-aventurados os que perdem os filhos porque, incendiados, são hábeis
em distinguir a estrela do naufrágio.
Bem-aventurados os mendigos porque pertencem às searas mitológicas.
Bem-aventurados os suicidas porque chegam de armas na mão ao outro
lado.
Bem-aventurados os indigentes porque resumem as misérias da poesia.
Bem-aventurados os bêbados sem remédio porque se extinguem no crepúsculo
como o carvão.
Bem-aventurado o que alimenta um mal secreto porque pode telefonar à
hiena e convidá-la para jantar.
Bem-aventurado o indivíduo que tem o rosto deformado porque pode olhar
a morte nos olhos e interrogá-la.
Bem-aventurados enfim todos os homens, todas as mulheres, todos os
bichos, bem-aventurados o fogo e a água, bem aventurados as pedras
e as relvas, bem-aventurado o Deus que cria o universo e o demônio
que o perdoa.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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quinta-feira, junho 18, 2009

No belo poema de Paulo Mendes Campos, um menino ziguezagueava de chuteiras no campo de topázio. Era uma criança, frágil e forte.


Um menino


Ziguezagueava de chuteiras no campo de topázio, a seriema do crepúsculo em grito
indireto, macegas revelando serpentes frágeis, caminhava
com as mangas de uniforme encolhidas, o coração
priápico, a alma
plo avesso, imaginando encontrar um braço estendido, um ninho,
olhos femininos
de pássaro,
onde ele (só ele)
indefinidamente se esfregassse à vida.
Desceu o caminho do açude quando o martim-pescador regressava a seu mundo.
Água lisa e escura, o esperma do capim-gordura recendia,
os araticuns articulando-se ao verde
com os amarelos tortos e lenhosos de Van
Gogh. As torres se removiam quando cruzou a ponte,
suspirando, a trabalhar-se,
todos os pressentimentos farejando para sete ou oito sentidos,
sua avó ainda viva, compartilhando da inocência
montanhesa, somente agora perturbada: pois
ele aparecia enfim à tarde, mãos nos bolsos,
uma fome escancarada de espaço-tempo e maldade. Aparecia emfim
à tarde, para a tarde, com a tarde,
o frescor do pequeno porco-espinho, e o mal-estar
dos gambás que cheiravam mal antes da morte.
Caminhava pela casta masturbação dos verdes amarelos
que se remexiam,
os músculos a produzir um calor
que se perdia,
cuspindo o leite das margaridas mastigadas,
vacas chanfradas em flor para receber o girassol de um touro
subnutrido.

Uma criança. Frágil e forte.

Mas em laranjais de paraíso imprevisível.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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quarta-feira, abril 15, 2009

"Se", de Paulo Mendes Campos para seu filho. E para todos nós.


"If"



Meu filho, se acaso chegares, como eu cheguei a uma campina de horizontes
arqueados, não te intimidem o uivo do lobo, o bramido do tigre;
enfrenta-os nas esquinas da selva, olhos nos olhos, dedo firme no
gatilho.

Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em
que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe
e mais puro, e ajude a redimi-lo.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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quarta-feira, março 04, 2009

Em seu ofício, Paulo Mendes Campos cedo aprendeu que um poema não tem porto. Sabedorias de um poeta no bar.


Poeta no bar


Que fazer de um instrumento,
Violoncelo, fonte, flauta,
A buscar um sofrimento
Que se encontra além da pauta?
Quando perdemos a voz,
Fala de nós e por nós
O personagem sem medo
Cujas palavras de olvido
Compõem o outro sentido
Do segredo de um degredo.

Tudo que rói e escalavra,
Dente de marfim do mar,
Faca do vento a passar,
Lembra a busca da palavra.
Só conhecer a ciência,
Malarmaica paciência,
Capaz de achar a vogal
Que surde empós das toantes,
Escadindas consoantes
De uma pausa musical
Estas horas perdoadas,
Perdidas de quem nos ama,
São aflições combinadas
Às pantomimas do drama.
Um filamento de riso
Liga o inferno ao paraíso.
Se a noite esconde as estrelas,
Pode um palhaço brilhante
Dar um salto tão distante
Que seja digno de vê-las.

Este arlequim de pintura
Vai surgir aqui, apenas
Compare a sua figura
A minhas roupas terrenas.
Vão surgir do saltimbanco
Perfil, fonte, face e flanco.
Vou sofrer por artifício
O silêncio desta mesa
Que me exila na clareza
De meu puro sacrifício.

Recife em mar de presságio,
Um poema não tem porto
Vaga que devolve o morto
Às areias do naufrágio.


Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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segunda-feira, fevereiro 16, 2009

A lâmpada acesa enxerga a noite toda apagada, na insônia de Paulo Mendes Campos. O nome dela tem só seis letras, ele lê três livros de uma só vez.


Insônia


A lâmpada acesa enxerga
a noite toda apagada.

A chuva conta nos canos
a história das telhas velhas.

O soalho e os móveis conversam
nos cantos, aos estalidos.

Meu pulso soma dez tocos
de cigarro no cinzeiro.

Teu nome tem só seis letras.
Li três livros de uma vez.

Paulo Mendes Campos
(192-1991)

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quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Em sua balada, Paulo Mendes Campos diz que na alma dos outros há searas de poesia. Na dele, poeiras de prosa, humilhação, vilania.


Balada do homem de fora


Na alma dos outros há
searas de poesia;
em mim poeiras de prosa,
humilhação, vilania.

O pensamento dos outros
ala-se em frases castiças;
o meu é boi atolado
em palavras movediças.

No gesto dos outros vai
a elegância do traço;
no gesto torto que faço
surge a ponta do palhaço.

O trato dos outros tem
despreendimento, altruísmo;
venho do ressentimento
para os brejos do egoísmo.

O amor de muitos floresce
em sentimento complexo;
mas o meu é desconexo
anacoluto: do sexo.

Na face dos outros vi
a sintaxe do cristal;
no amálgama dos espelhos
embrulhei o bem no mal.

A virtude contra o crime
é um cartaz luminoso
dos outros todos; mas eu
posso ser o criminoso.

Os outros brincam de roda
(carneirinho, carneirão);
são puros como a verdade;
mas eu minto como um cão.

Há quem leia Luluzinha,
há quem leia pergaminhos;
leio notícias reversas
nos jornais de meus vizinhos.

Os outros ficaram bravos
ao pôr de lado o brinquedo,
bravos, leais, sans reproche;
mas eu guardei o meu medo.

Encaminha a mente deles
uma repulsa moral;
na minha pulsa o High Life
do mais turvo Carnaval.

Todos foram tão bacanas
na quadra colegial;
só eu não fui (mea culpa)
nem bacana, nem legal.

O terno dos outros tem
um ar etéreo e eterno;
às vezes ando vestido
como um profeta do inferno.

Muitos voam pelas pautas
que se desfazem nos astros;
amei Vivaldi, Beethoven,
Bach, Debussy, mas de rastros.

Certos olhos são vitrais
onde dá a luz de Deus;
Deus ne deu os meus e os teus
para a dor de dar-te adeus.

Há tanto moço perfeito
like a nice boy (inglês);
eu falo mais palavrões
que meu avô português.

Os outros são teoremas
lindos de geometria;
eu me apronto para a noite
nos pentes da ventania.

Para quem foi feito o mundo?
Para aquele que o goze.
Como gozá-lo quem gira
no perigeu da neurose?

Copiei com canivete
este grifo de Stendhal:
"Nunca tive consciência
nem sentimento moral".

Faço meu Murilo Mendes
quanto à força de vontade:
"Sou firme que nem areia
em noite de tempestade".

Há gente que não duvida
quando quer ir ao cinema;
duvido de minha dúvida
no meu bar em Ipanema.

Outros, felizes, não bebem,
não fumam; eu bebo, fumo,
faço, finjo, forço, fungo,
fuço na noite sem rumo.

Outros amam Paris, praias,
cataventos, livros, flores,
apartamentos - a vida;
eu nem amo meus amores.

Os outros podem jurar
que me conhecem demais;
quando acaso penso o mesmo,
o demônio diz: há mais...

A infância dos outros era
o céu no tanque da praça;
a minha não teve tanque,
nem céu, nem praça, nem graça.

Até na morte encontrei
a divergência da sorte:
a deles, flecha de luz,
a minha, faca sem corte.

O espaço deles é onde
circunda a casa o jardim;
mas o meu espaço é quando
um parafuso sem fim.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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segunda-feira, janeiro 12, 2009

Para Paulo Mendes Campos, nada existe mais abstrato do que o poema concreto. Mas depois de chamar a Jônia, ele viu como dói viver em Babilônia.


Do tresloucado


- E nada existe mais abstrato do que o poema concreto.
Na solitude entrei em meu lugar.
As velas acendi. Tomei vanádio.
Os dentes areei. Liguei o rádio.
Eu vinha do festim de Baltasar.
Anunciava o locutor: "No Estádio
Nabucodonosor vai terminar
a luta, patrocínio de Paládio."
As ninfas já não pintam no meu lar.
Desliguei, desligado, o aparelho.
Em mim, no céu, fundia-se o sol-posto.
Doíam-me a coluna e o joelho.
Para tomar mais um, chamei a Jônia,
meiga mestiça, que m'o pôs a gosto.
Vê como dói viver em Babilônia.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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quinta-feira, dezembro 11, 2008

Paulo Mendes Campos conta em versos o sonho de uma infância. Foi como ele viu a fantasia e a tristeza de seu ser.


Sonho de uma infância


Meu sonho, breve emoção.
A tarde deitada no limoeiro.
Paralelas de aço se agarrando no longe.
Há muito tempo que fui infeliz.
E desconhecia meu corpo embrulhado nas vestes.
Um cisne repetia o facílimo soneto do exílio.
Animais do ar esvoaçavam.
Flores se assustavam, muito altas, olhando o momento.
Nascia por nascer a vida tímida.
Os minutos respiravam cadenciados
Como a criança próxima à grande cachoeira.
Breve emoção da pedra, meu sonho
Ficava difícil,
Sol entre constelações remotas.
Sempre a palavra de um poema se perdia.
Um barco remava entre chamas, um coração se consumia,
A noite erguida apagava o meu desejo de pensar.
Vi como se desprende de um pântano a garça nua.

Vi a fantasia e a tristeza de meu ser.
Foi há muito, entre o mineral silencioso,
Há muito tempo que nasci da infância para crescer
Entre milícias douradas que marchavam cantando.

Deixarei meu destino como a pátria.
Renovando a aventura, reinarei entre vós.
Sonhos fiéis.
Sobe a fumaça na caligem de uma tarde chuvosa.
Sinto o aroma feliz do bife,
A friagem do ladrilho onde estraçalho um besouro,
O tinir da louça, a água caindo no zinco.
Estamos grandes, do tamanho de um defunto.
Morte, emoção de meu sonho.
Surda floresta que voa no vendaval e se esfacela.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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quinta-feira, novembro 20, 2008

Se devo a vida à morte, estamos quites. No belo poema de Paulo Mendes Campos, o epitáfio do poeta.


Epitáfio

Se a treva fui, por pouco fui feliz.
Se acorrentou-me o corpo, eu o quis.
Se Deus foi a doença, fui saúde.
Se Deus foi o meu bem, fiz o que pude.
Se a luz era visível, me enganei.
Se eu era o só, o só então amei.
Se Deus era a mudez, ouvi alguém.
Se o tempo era o meu fim, fui muito além.
Se Deus era de pedra, em vão sofri.
Se o bem foi nada, o mal foi um momento.
Se fui sem ir nem ser, fiquei aqui.

Para que me reflitas e me fites
estas turvas pupilas de cimento:
se devo a vida à morte, estamos quites.

Paulo Mendes Campos
(1922-1981)

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terça-feira, novembro 04, 2008

Em seu poema, Paulo Mendes Campos é restos de um menino que passou. Rastos erradios num caminho, que circunda a escuridão como os braços de um moinho.


Infância


Há muito, arquiteturas corrompidas,
Frustrados amarelos e o carmim
De altas flores à noite se inclinaram
Sobre o peixe cego de um jardim.
Velavam o luar da madrugada
Os panos do varal dependurados;
Usávamos mordaças de metal
Mas os lábios se abriam se beijados.
Coados em noturna claridade,
Na copa, os utensílios da cozinha
Falavam duas vidas diferentes,
Separando da vossa a vida minha.
Meu pai tinha um cavalo e um chicote;
No quintal dava pedra e tangerina;
A noite devolvia o caçador
Com a perna de pau, a carabina.
Doou-me a pedra um dia o seu suplício.
A carapaça dos besouros era dura
Como a vida — contradição poética —
Quando os assassinava por ternura.
Um homem é, primeiro, o pranto, o sal,
O mal, o fel, o sol, o mar — o homem.
Só depois surge a sua infância-texto,
Explicação das aves que o comem.
Só depois antes aparece ao homem.
A morte é antes, feroz lembrança
Do que aconteceu, e nada mais
Aconteceu; o resto é esperança.
O que comigo se passou e passa
É pena que ninguém nunca o explique:
Caminhos de mim para mim, silvados,
Sarçais em que se perde o verde Henrique.
Há comigo, sem dúvida, a aurora,
Alba sangüínea, menstruada aurora,
Marchetada de musgo umedecido,
Fauna e flora, flor e hora, passiflora,

Espaço afeito a meu cansaço, fonte,
Fonte, consoladora dos aflitos,
Rainha do céu, torre de marfim,
Vinho dos bêbados, altar do mito.
Certeza nenhuma tive muitos anos,
Nem mesmo a de ser sonho de uma cova,
Senão de que das trevas correria
O sangue fresco de uma aurora nova.
Reparte-nos o sol em fantasias
Mas à noite é a alma arrebatada.
A madrugada une corpo e alma
Como o amante unido à sua amada.

O melhor texto li naquele tempo,
Nas paredes, nas pedras, nas pastagens,
No azul do azul lavado pela chuva,
No grito das grutas, na luz do aquário,
No claro-azul desenho das ramagens,
Nas hortaliças do quintal molhado
(Onde também floria a rosa brava)
No topázio do gato, no be-bop
Do pato, na romã banal, na trava
Do caju, no batuque do gambá,
No sol-com-chuva, já quando a manhã
Ia lavar a boca no riacho.
Tudo é ritmo na infância, tudo é riso,
Quando pode ser onde, onde é quando.

A besta era serena e atendia
Pelo suave nome de Suzana.
Em nossa mão à tarde ela comia
O sal e a palha da ternura humana.
O cavalo Joaquim era vermelho
Com duas rosas brancas no abdômen;
À noite o vi comer um girassol;
Era um cavalo estranho feito um homem.
Tínhamos pombas que traziam tardes
Meigas quando voltavam aos pombais;
Voaram para a morte as pombas frágeis
E as tardes não voltaram nunca mais.
Sorria à toa quando o horizonte
Estrangulava o grito do socó
Que procurava a fêmea na campina.
Que vida a minha vida! E ria só.

Que âncora poderosa carregamos
Em nossa noite cega atribulada!
Que força do destino tem a carne
Feita de estrelas turvas e de nada!
Sou restos de um menino que passou.
Sou rastos erradios num caminho
Que não segue, nem volta, que circunda
A escuridão como os braços de um moinho.



Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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terça-feira, outubro 14, 2008

Eu vou por onde vou, vou pelas esquinas da treva, Copacabana acabou. Em versos, Paulo Mendes Campos caminha pelos encantos e mazelas do seu bairro.


Copacabana 1945


Ele é que é cheio, eu sou oco.

I

As fichas finais do jogo
foram recolhidas: fecha-se
o cassino; abre-se em fogo

o coração que devora.
Vejo em vez de eternidade
no relógio minha hora.

E se quiser vejo a tua.
Às cinco tinhas encontro
num cotovelo de rua.

As cigarras do verão
tiniam quando sugavas
teu uísque com sifão.

Às onze no Wunder Bar
por meio acaso encontravas
a mulher que anda no ar.

Às três no Copacabana
uma torpeza uterina
pestana contra pestana.

Às quatro e pouco saías,
comias um boi às cinco,
às seis e meia morrias.

Às duas ressuscitavas,
às cinco tinhas encontro,
às sete continuavas.

II

A mensagem abortada
de Copacabana perde-se
na viração: não é nada.

Morre um homem na polícia.
Tantos casos. Não é nada:
os jornais dão a notícia.

Uma criança que come
restos na lata de lixo
não é nada: mata a fome.

Não é nada. A favela
pega fogo. Não é nada:
faz-se um samba para ela.

Um moço mata a família
e se mata. Não é nada:
poupa o drama à tua filha.

Uma menina estuprada.
Uma virgem cai do céu.
Nada. Copacabanada.

III

Dava um doce calafrio
no esmalte azul recortado
subito à tarde um navio.

O mistério transparente
do navio que passava
é ter tornado presente:

por fantasia do fado
naquele tempo ao passar
já parecia passado.

Quando ele achava o caminho
na ponta do Arpoador
eu ficava mais sozinho.

Pois um homem-gaivota
segue um barco, mesmo quando
não lhe conhece a derrota.

Latitude, longitude
compasso de meu exílio...
Um homem sempre se ilude.


E quando o mar sem navio
ficava, eu olhava para trás
e me embrulhava no Rio.

IV

Anoitecia em cristais,
em paz de pluma tornando
à dor de Minas Gerais.

A dor que dá mas devora
como um blues comercial
no carro, quando é a hora.

E quando à janela o cone
de sombra me abismava
eu ligava o telefone.

Esse aparelho surdia
da ramagem de meus brônquios,
negra liana, e subia

em tropismos machucados,
pelas calhas do silêncio,
pelos terraços pasmados,

pela traquéia das áreas,
como tromba de elefante
ou aranhas solitárias

articuladas ao fio,
como língua de serpente
a vasculhar o vazio,

a buscar qualquer canal
de anou (ou fosse miragem!)
no deserto vertical.

V

Às vezes chegava a lua
no despudor deslumbrante
da mulher que chega nua.

A mulher transvertebrada
entornando-se amorosa
nas vagas da madrugada.

Algumas foram no peito
do casto lençol do céu
para o cosmo do teu leito.

VI

Copacabana, golfão
sexual: soma dois corpos
mas divide solidão.

VII

Pelas piscinas suspensas,
pelas gargantas dos galos,
pelas navalhas intensas,

pelas trades comovidas,
pelos tamborins noturnos,
pelas pensões abatidas,
eu vou por onde vou; vou
pelas esquinas da treva:
Copacabana acabou.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991 )

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quarta-feira, setembro 24, 2008

No testamento do Brasil, Paulo Mendes Campos quer que já se faça a partilha. E diz tudo o que ele quer, inclusive o vagido da esperança.


Testamento do Brasil


Que já se faça a partilha.
Só de quem nada possui
nada de nada terei.
Que seja aberto na praia,
não na sala do notário,
o testamento de todos.
Quero de Belo Horizonte
este píncaro mais áspero,
onde fiquei sem consolo,
mas onde floriu por milagre
no recôncavo da brenha
a campânula azulada.
De São João del-Rei só quero
as palmeiras esculpidas
na matriz de São Francisco.
Da Zona da Mata quero
o Ford envolto em poeira
por esse Brasil precário
dos anos vinte (ou twenties),
quando o trompete de jazz
ruborizava a aurora
cor de cinza de Chicago.
Do Alto do Rio Negro
quero só a solidão
compacta como o cristal,
quero o índio rodeando
o motor do Catalina,
quero a pedra onde não pude
dormir à beira do rio,
pensando em nós-brasileiros
- entrelaçados destinos -
como contas carcomidas
de um rosário de martírios.
De Lagoa Santa quero
o roxo da Sexta-feira,
quero a treva da ladeira,
os brandões da noite acesa,
quero o grotão dos cajus,
onde surgiu uma vez
no breu da noite mineira
uma alma doutro mundo.
Da porta pobre da venda
de todos os povoados
quero o silêncio pesado
do lavrador sem trabalho,
quero a quietude das mãos
como se fossem de argila
no balcão engordurado.
Ainda quero da vila
a ira que se condensa,
a dor imóvel e dura
como um coágulo no sangue.
Da Fazenda do Rosário
quero o mais árido olhar
das crianças retardadas,
quero o grito compulsivo
dos loucos, fogo-pagô
de entardecer calcinado,
a névoa seca e o não,
o não da névoa e o nada.
Da cidade da Bahia
quero os pretos pobres todos,
quero os brancos pobres todos,
quero os pasmos tardos todos.
Do meu Rio São Francisco
quero a dor do barranqueiro,
quero as feridas do corpo,
quero a verdade do rio,
quero o remorso do vale,
quero os leprosos famosos,
escrofulosos famintos,
quero roer como o rio
o barro do desespero.
Dos mocambos do Recife
quero as figuras mais tristes,
curvadas mal nasce o dia
em um inferno e lama.
Quero de Olinda as brisas,
brisas leves, brisas livres,
ou como se quer um sol
ou a moeda de ouro
quero a fome do Nordeste,
toda a fome do Nordeste.
Das tardes do Brasil quero,
quero o terror da quietude,
quero a vaca, o boi, o burro
no presépio do menino
que não chegou a nascer.
Dos domingos cor de cal
quero aquele som de flauta
tão brasileiro, tão triste.
De Ouro Preto o que eu quero
são as velhinhas beatas
e a água do chafariz
onde um homem se dobrou
para beber e sentiu
a pobreza do Brasil.
Do Sul, o homem do campo,
matéria-prima da terra,
o homem que se transforma
em cereal, vinho e carne.
Do Rio quero as favelas,
a morte que mora nelas.
De São Paulo quero apenas
a banda pobre da fruta,
as chagas do Tietê,
o livro de Carolina.
Do noturno nacional
quero a valsa merencórea
com o céu estrelejado,
quero a lua cor de prata
com saudades da mulata
das grandes fomes de amor.
Do litoral feito luz
quero a rude paciência
do pescador alugado.

Da aurora do Brasil
-bezerra parida em dor -
apesar de tudo, quero
a violência do parto
(meu vagido de esperança).

Paulo Mendes Campos
(192-1991)

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sábado, agosto 30, 2008

Quando a noite pare em sangue a madrugada, a prostituta chora as lágrimas todas de seus olhos. Em versos, Paulo Mendes Campos sofre e chora com ela.


A prostituta


Quando a noite pare em sangue a madrugada
As constelações se desorganizam
As nuvens se encapelam
Quando os guindastes do porto se espreguiçam
Os muros do fortim alvejam
O caçador submarino já pode olhar nos olhos
O mero adormecido
Quando a fome come a criança da colina suja
Os bichos humanos chegam à lavoura farejando a névoa
Os passageiros do ar visitam a lua nova
O seringueiro não sorri
O porco não sorri
Não sorri não sabe rir nunca soube rir
Como não sabe rir a formiga
O pedregulho
O mendigo
O bode rupestre da falésia aguilhoada
Quando a noite se encerra e há uma pausa
O membro do marido emurchece no lençol
Quando o Nilo estende as suas barbas velhas ao sol
Quando o Rio Amarelo silenciosamente dá as cartas
O Don abre seus braços aos trigais
O Amazonas apodrece
Quando o riacho acorda o homem descalço
Quando o rio todos os rios vão recuperando a memória
E contam sussurrando
A história do mastim do lorde
O chicote do dono
A botina do polícia
O gancho do corsário
O milionário tumefato com uma luz no ventre
A metamorfose do chacal
Quando os rios se recordam
E vão contando
Sussurrando
Conspirando
Enlaçando as cidades frias e cálidas
Enlaçando os campos
Como no tempo de faraós posessos que uivavam
Dos profetas de longas barbas sujas
Como no tempo dos cantochões do convento
Do archote ao pé do cadafalso
Milhões de homens milhões de batalhas milhões de febres
Milhões
Milhões de ratazanas históricas
De escravos
De crucificados
É quando
O rio se lembra com dificuldade
(Ela que foi pura)
E que vai cuspindo restos de lágrimas e lama
E se envergonha e quer morrer
É quando a prostituta se entreabe sobre a cama
E se fecha
E fica surda ao apelo do rio
E se entreabre devagar
E se fecha
Tímida flor que provocasse a náusea
Sentreabrindo
Se fechando
Opaca surda grossa
Na menstruação dolorosa de um grito que se fecha
No retraimento obsceno de um membro que emurchece
Então é quando a prostituta deveria sentar-se à margem do Hudson
E chorar
Chorar as lágrimas todas de seus olhos
De seus ouvidos
De suas narinas
De sua vagina
De suas mãos, de seus pés
Chorar as vezes que não chorou
Chorar o sangue o mênstruo o leite
Chorar como os rios choram sem tempo e surdos
Como o Conde Ugolino
As santas estigmatizadas
Chorar como choram os mendigos
Um pranto sujo
Um mênstruo rude
Um leite envenenado

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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terça-feira, julho 01, 2008

No princípio do amor, Paulo Mendes Campos sente a morte do amor antes da morte. Mas nos seios dourados de Eliana amanheceu.


No princípio do amor

No princípio do amor, outro amor que nos precede
adivinha no espaço o nosso gesto.
No princípio do amor, o fim do amor.
Folhagens irisadas pela chuva,
varandas traspassadas de luz, poentes de ametista,
palmeiras estruturadas para um tempo além de nosso tempo,
pássaros
fatídicos na tarde assassinada, ofuscação deliciosa
no lago - no princípio do amor
já é amor. E pode ser setembro
com o sol estampado na bruma fulva. Monótona
é a praça com o clarim sangüíneo do meio-dia.

No princípio do amor, o humano se esconde,
bloqueado na terra das canções, astro acuado
em galáxias que se destroçam. E tudo
é nada: nasce a flor e morre o medo
que mascara a nossa face. Navios
pegam fogo defronte da cidade obtusa,
precedida de um tempo que não é o nosso tempo.
No princípio do amor, sem nome ainda, o amor
busca os lábios da magnólia, o coração violáceo
da hortênsia, a virgindade da relva.
É, foi, será princípio de amor. A mulher
abre a janela do parque enevoado, globos irreais,
umidade, doçura,
enquanto o homem - criatura ossuda, estranha -
ri no fundo de torrentes profundas
e deixa de ir subitamente, fitando nada.
Isto se passa em salas nuas,
em submersas paisagens viúvas, argélias
tórridas, fiords friíssimos, desfiladeiros
escalvados, parapeitos de promontórios
suicidas, vilarejos corroídos de ferrugem,
cidades laminadas, trens subterrâneos,
apartamentos de veludo e marfim, províncias
procuradas pela peste, cordilheiras tempestuosas,
planícies mordidas pela monotonia do chumbo, babilônias
em pó, brasílias
de vidro, aviões infelizes em um céu
de rosas arrancadas, submarinos ressentidos
em sua desolação redundante, nas altas torres
do mundo isto se passa; e isto existe
dentro de criaturas inermes, anestesiadas
em anfiteatros cirúrgicos, ancoradas em angras
dementes, pulsando através de alvéolos artificiais,
criaturas agonizando em neblina parda,
parindo mágoa, morte, amor.
E isto se passa como um cavalo em pânico.
E isto se passa até no coração opulento
de mulheres gordas,
de criaturas meio comidas pelo saibro,
no coração de criaturas confrangidas entre o rochedo
e o musgo, no coração de
Heloísa, Diana, Maria,
Pedra, mulher de Pedro,
Consuelo, Marlene, Beatriz.

Olhar - anel primeiro do planeta Saturno.
Olhar, aprender, desviver.
Além da janela só é visível a escuridão.
Olhar - galgo prematuro da alvorada.
No princípio do amor, olhar
a escuridão; depois, os galgos prematuros da alvorada.
No princípio do amor, morte de amor antes da morte.
Amor. A morte. Amar-te a morte.
Sexos que se contemplam perturbados. No princípio do amor
o infinito se encontra.

No princípio do amor a criatura se veste
de cores mais vivas, blusas
preciosas, íntimas peças escarlates,
linhos sutis, sedas nupciais, transparências plásticas,
véus do azul deserto, pistilos de opalina,
corolas de nylon, gineceus rendados,
estames de prata, pecíolos de ouro, flor,
é flor,
é flor que se contempla contemplada.
Isto se passa de janeiro a dezembro
como os navios iluminados.

No princípio do amor
o corpo da mulher é fruto sumarento,
como a polpa do figo, fruto,
fruto em sua nudez sumarenta, essencial, pois
tudo no mundo é uma nudez expectante
como o corpo da mulher no princípio do amor.

Fruto na sombra: mas é noite.
Noite por dentro e por fora do fruto.
Nas laranjas de ouro.
Nos seios crespos de Eliana
Nas vinhas que se embriagam de esperar.
Ramagens despenteadas, recôncavos expectantes,
cinzeladas umbelas, estigmas altivos,
é noite,
é flor, é fruto.

Mas nos seios dourados de Eliana
amanheceu.

Paulo Mendes Campos

(1922-1991)

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sábado, maio 03, 2008

Há um lado em mim que já morreu, às vezes penso se esse lado não sou eu. Esta a dúvida maior de Paulo Mendes Campos, às voltas com os seus lados.


Os lados


Há um lado bom em mim.
O morto não é responsável
Nem o rumor de um jasmim.
Há um lado mau em mim,
Cordial como um costureiro,
Tocado de afetações delicadíssimas.

Há um lado triste em mim.
Em campo de palavra, folha branca.

Bois insolúveis, metafóricos, tartamudos,
Sois em mim o lado irreal.

Há um lado em mim que é mudo.
Costumo chegar sobraçando florilégios,
Visitando os frades, com saudades do colégio.

Um lado vulgar em mim,
Dispensando-me incessante de um cortejo.
Um lado lírico também:

Abelhas desordenadas de meu beijo;
Sei usar com delicadeza um telefone,
Não me esqueço de mandar rosas a ninguém.

Um animal em mim,
Na solidão, cão,
No circo, urso estúpido, leão,
Em casa, homem, cavalo...

Há um lado lógico, certo, irreprimível, vazio
Como um discurso.
Um lado frágil, verde-úmido.
Há um lado comercial em mim,
Moeda falsa do que sou perante o mundo.

Há um lado em mim que está sempre no bar,
bebendo sem parar.

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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domingo, março 30, 2008

Paulo Mendes Campos sente ser apenas o entreposto de um corpo vivo e outro morto. E admite, ele é que é cheio, eu sou oco.



O Morto

Por que celeste transtorno
tarda-me o cosmo do sangue
o óleo grosso do morto?

Por que ver pelo meu olho?
Por que usar o meu corpo?
Se eu sou vivo e ele morto?

Por que pacto inconsentido
(ou miserável acordo)
Aninhou-se em mim o morto?

Que prazer mais decomposto
faz do meu peito intermédio
do peito ausente do morto?

Por que a tara do morto
é inserir sua pele
entre o meu e o outro corpo.

Se for do gosto do morto
o que como com desgosto
come o morto em minha boca.

Que secreto desacordo!
ser apenas o entreposto
de um corpo vivo e outro morto!

Ele é que é cheio, eu sou oco.

Paulo Mendes Campos(1922-1991)

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quarta-feira, março 05, 2008

Nunca o Diretor do Imposto de Renda recebeu uma Declaração tão correta como a de Paulo Mendes Campos.


Declaração de Males

Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.

Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios... the pule cast of throught... sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

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segunda-feira, janeiro 28, 2008

Despede o teu pudor, diz com paixão Paulo Mendes Campos. E pressente: teus pés roçando nos meus pés, escuto o respirar da noite que te leva.


Despede teu pudor

Despede teu pudor com a camisa
E deixa alada louca sem memória
Uma nudez nascida para a glória
Sofrer de meu olhar que te heroíza

Tudo teu corpo tem, não te humaniza
Uma cegueira fácil de vitória
E como a perfeição não tem história
São leves teus enredos como a brisa

Constante vagaroso combinado
Um anjo em ti se opõe à luta e luto
E tombo com um sol abandonado

Enquanto amor se esvai a paz se eleva
Teus pés rocando nos meus pés escuto
O respirar da noite que te leva.

Paulo Mendes Campos

(1922-1991)

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segunda-feira, novembro 26, 2007

Para Paulo Mendes Campos, domingo era o instante das pausas, o pouso dos tristes, o porto do insofrido. E ele lia poemas nos parques.


Os domingos

Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança.
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Paulo Mendes Campos

(1922-1991)

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