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domingo, março 04, 2012

Murilo Mendes viveu entre os homens. Que não o viram, não o ouviram, nem o consolaram.



Amor - Vida

Vivi entre os homens
Que não me viram, não me ouviram
Nem me consolaram.
Eu fui o poeta que distribui seus dons
E que não recebe coisa alguma.
Fui envolvido na tempestade do amor,
Tive que amar até antes do meu nascimento.
Amor, palavra que funda e consome os seres.
Fogo, fogo do inferno: melhor que o céu.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Murilo_Mendes

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Murilo Mendes diz que o tempo cria um tempo logo abandonado pelo tempo. E divulga o que nós não fomos em tempo algum.


O tempo

O tempo cria um tempo
Logo abandonado pelo tempo,
Arma e desarma o braço do destino.
A metade de um tempo espera num mar sem praias,
Coalhado de cadáveres de momentos ainda azuis.
O que flui do tempo entorna os pássaros,
Atravessa a pedra e levanta os monumentos
Onde se desenrola - o tempo espreitando - a ópera do espaço.
Os botões da farda do tempo
São contados - não pelo tempo.
O relojoeiro cercado de relógios
Pergunta que horas são.

O tempo passeia a música e restaura-se.
O tempo desafia a pátina dos espíritos,
Transfere o heroísmo dos heróis obsoletos,
Divulga o que nós não fomos em tempo algum.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Murilo_Mendes

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Aconteceu de tudo, até demoliram uma mulher a sons de clarinete. E Murilo Mendes escreve para se tornar invisível, para perder a chave do abismo.



A fatalidade

Um moço azul atirou-se de um jasmineiro
Os sinos perderam a fala
A fértil sementeira de espadas
Atrai o olhar das crianças

Não existem mais dimensões
Nem cálculos possíveis
O vento caminha
A léguas da história
As rosas quebram a vidraça.

Demoliram uma mulher
A sons de clarinete.

Escrevo para me tornar invisível,
Para perder a chave do abismo.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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quarta-feira, novembro 23, 2011

O anteontem de Murilo Mendes sorri sem jeito. E fica nos arredores do que vai acontecer, como menino que pela primeira vez põe calça comprida.


Pós-Poema 

O anteontem - não do tempo mas de mim -
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.

Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo;
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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segunda-feira, novembro 07, 2011

Se me amasses eu me transformaria no que sou. É o que tem a dizer Murilo Mendes ao anjo que precisa de outro anjo e ao espírito que vai anunciar e ao mesmo tempo espera ser anunciado.



Fantasia

1
Anjo que precisa de outro anjo,
Espírito que vai anunciar
E ao mesmo tempo espera ser anunciado.

Anjo que segura a palma de seus braços
E se contempla, desdobrando-se ao espelho.

Anjo felino que desconcerto entre sua forma e sua fôrma!

Regressa com as órbitas vazias
Até que possa conhecer-se um dia.

2.
És de espuma e seda,
És ao mesmo tempo centelha,
Forma futura do que advinhei em sonho.

Observo eternamente
O Horizonte convexo
Espiando chegares desdobrada em asa.

Se me amasses
Eu me transformaria no que sou.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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terça-feira, outubro 25, 2011

Dorme, dorme o que não foste, o que nunca serás. Dorme, que pena não poder me ver - puro - dormindo, diz a dor de Murilo Mendes.


Dorme

Dorme.
Dorme o tempo em que não podias dormir.
Dorme não só tu,
Prepara-te para dormir teu corpo e teu amor contigo.
Dorme o que não foste, o que nunca serás.
Dorme o incêndio dos atos esquecidos,
A qualidade a distância o rumo do pensamento.

O pássaro magnético volta-se,
As árvores trocam os braços,
O castelo parou de andar.

Dorme.
Que pena não poder me ver - puro - dormindo.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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quinta-feira, setembro 29, 2011

Murilo Mendes quer aquela mulher, profunda e romântica, para receber o diadema construído pela Poesia. E diz ao amor, aproxima-te.


O diadema

Eu quero uma mulher
Para receber o diadema
Construído na perfeição
Quero encontrar uma cabeça
Bela nobre casta e altiva
Filha do povo ou dos deuses
Preciso de uma mulher
Com a majestade no andar
Vaga e lisa a cabeleira
Mulher profunda romântica
Para receber o diadema
Construído pela Poesia.

Aproxima-te.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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sexta-feira, setembro 09, 2011

Onde a morte diz "Quero nascer"? Lá longe, para Murilo Mendes.


Lá longe

Lá longe
Onde a polícia lavra os campos
Lá longe
Onde ninguém cresce nem diminui,
Lá longe
Onde navios de guerra dormem dentro de garrafas.
Lá longe
Onde Oriente e Ocidente
Debruçados à janela dialogam.
Lá longe
Onde cada um
Tem seu pão, sua dama e sua paz,
Lá longe
Onde os descantos antigos movem o rio,
Lá longe
Onde forma, palavra e energia se unem,
Lá longe
Onde Deus caminha com pés de alfombra,
Lá longe
Onde "Quero nascer" a morte diz.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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segunda-feira, agosto 15, 2011

O dia em que Murilo Mendes confessou que gostaria de ter sido Adão. Para ser como o primeiro poeta, ao mesmo tempo pai, mãe, irmão, esposo e amante.


O primeiro poeta

Carne cansada!
E eu com os olhos desmedidamente abertos,
O coração aberto desde o amanhecer da vida.
Antes eu tivesse dormido um sono fundo
E o Criador fizesse nascer uma mulher do meu flanco,
Apresentando-me essa mulher filha da noite.
Ó Adão, só tu foste ao mesmo tempo pai, mãe, irmão, esposo e amante.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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terça-feira, julho 05, 2011

Sutil, intuitiva, ela é grande e miserável. E Murilo Mendes sente que o orgulho dela só é igual à sua timidez.



A desejada

Sutil, intuitiva, és grande e miserável.
Teu orgulho só é igual à tua timidez.

Eu te veria num convento espanhol
Onde se dance: castanholas em homenagem ao Senhor;
Através do parlatório
Apunhalando os aficionados
Com esses olhos retraídos e lascivos.
Teus dentes afiados, vivos,
Profanaram as hóstias..
Ornamento essencial,
Pela tua finura não pertences a este mundo:
E nunca te entregarás de todo.
Pensas entrentanto dia e noite
No amor definitivo
Que até hoje não te foi anunciado.
Entre tua essência íntima e teu destino
O drama se desenrola.

Elemento de grandeza,
Enfim conseguistes me alterar.
Não passarei em vão pela tua grade.
Celebro teu encanto cruel,
Tua arte de dissimular,
Teu espírito e finura
- Ó tranquila perturbadora -,
Essa coreografia felina,
Tudo que amo com lucidez,
Tudo que outros vão arrebatar,
Mutilando a golpes implacáveis,
Desfazer em pedaços -
E que a piedosa poesia
Reconstitui antecipadamente.

Murilo Mendes
(1901-1975 )

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quinta-feira, maio 26, 2011

Murilo Mendes sabe como são fundamentais os sofrimentos de segundo plano. Mais o que mesmo lembrar? ah sim, esta arrastada caranguejola da vida.


Poema pessoal

Levanto-me da carruagem de paixões e plumas
Aparentemente guiada pelas irmãs Bronté.

Deu uma tristeza agora nos telhados.

As cigarras sublinham a tarde emparedada,
O trovão fechou o piano.
Surge antecipadamente o arco-íris,
Aliança temporária de Deus com o homem,
Sem a solidez da eucaristia:
Surge sobre encarcerados, órfãos, marginais,
Sobre os tristes e os sem-solução.

Dos quatro cantos de mim mesmo
Irrompe um Dedo terribilíssimo que me acusa
Porque sem os olhar deixo de lado
Os restos agonizantes do mundo.

Transformou-se agora o céu.
Céu patinado, que escureza.
Céu sempre futuro e amargo,
Como são fundamentais
Estes sofrimentos de segundo plano!

Mais o que mesmo lembrar?
Ah sim - esta arrastada caranguejola da vida.


Murilo Mendes
(1901-1975)

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sexta-feira, maio 06, 2011

Murilo Mendes visita-se ao espelho sem algemas. Munido de passaporte para este mundo, ou não?


Insônia

Ao longe um cão branquíssimo latindo
Divide a noite em duas.
Se aquele cão fosse negro
Talvez que eu pudesse dormir.

Pressinto uma bomba atômica
Adormecida num bosque.

Vivo ou morto estarei, inculpe ou réu?
Visito-me ao espelho: sem algemas.
Munido de passaporte para este mundo, ou não?

Murilo Mendes
(1901-1975)

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sábado, abril 23, 2011

Murilo Mendes vê os pobres chegarem, nus e famintos. E reconhece: nós os fizemos assim.



Os pobres

Chegam nus, chegam famintos
À grade dos nossos olhos.
Expulsos da tempestade de fogo
Vêm de qualquer parte do mundo,
Ancoram na nossa inércia.

Precisam de olhos novos, de outras mãos,
Precisam de arados e sapatos,
De lanternas e bandas de música,
Da visão do licorne
E da comunidade com Jesus.

Os pobres nus e famintos
Nós os fizemos assim.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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sexta-feira, março 25, 2011

Murilo Mendes diz que ninguém sabe se a manhã traz promessa de prazer. E que os braços espantam os restos da noite.


A manhã

Ninguém sabe se a manhã
Traz promessa de prazer.
Anônimas sanfoninas
Alternam como sábias.

Transformou-se o vento de ontem,
Agora sopra sereno.

Sai um homem para o trabalho,
Saem dois, saem três, saem mil
Pensando na volta.
Ontem não havia
Aquela roseira em pé,
E a carícia d'agora
Desapareceu no ar.

Os braços espantam
Os restos da noite.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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quarta-feira, janeiro 19, 2011

Os pobres, nus e famintos, precisam de tudo. Com coragem, Murilo Mendes reconhece a grande verdade: nós os fizemos assim.



Os pobres

Chegam nus, chegam famintos
À grade dos nossos olhos.
Expulsos da tempestade de fogo
Vêm de qualquer parte do mundo,
Ancoram na nossa inércia.

Precisam de olhos novos, de outras mãos,
Precisam de arados e sapatos,
De lanternas e bandas de música,
Da visão do licorne
E da comunidade com Jesus.

Os pobres nus e famintos
Nós os fizemos assim.


Murilo Mendes
(1901-1975)

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segunda-feira, dezembro 06, 2010

Muitos versos sem mim não poderão existir. Sou poeta irrevogavelmente, afirma com pouca modéstia Murilo Mendes.


Manhã

As estátuas sem mim não podem mover os braços
Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar seus maridos

Muitos versos sem mim não poderão existir.

É inútil deter as aparições da musa
É difícil não amar a vida
Mesmo explorado pelos outros homens
É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas
Sou poeta irrevogavelmente.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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quinta-feira, outubro 28, 2010

A uma mulher, Murilo Mendes dedicou um dos mais belos poemas de amor da língua portuguesa. Em versos plenos de amor e dor.


A uma mulher

Não tendo podido te criar
Nem tendo sido criado por ti
Eu me vingo do destino enxertando-me no teu ser.
Jamais conseguirás te libertar de mim
Porque eu te sitiei com a chama do amor,
Porque rondei durante dias e noites o Coração de Deus
A fim de extrair dele o segredo da ternura.
Todos os que te olham pensam logo em mim,
Todos os que me olham pensam logo em ti.
Eu sou tua cicatriz que nunca se há de fechar.
Eu te perseguirei até depois da minha morte
E virei a ti no murmúrio dos ventos, no lamento das ondas,
Na angústia e na alegria dos poetas meus sucessores,
Nas almas grandes limitadas pelo físico.
Sentado nas nuvens eternas eu te esperarei
E me nutrirei através dos tempos da nostalgia de ti.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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segunda-feira, outubro 11, 2010

Na angústia de Murilo Mendes, é necessário morrer de tristeza e de nojo. E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.



Angústia e reação 

Há noites intransponíveis,
Há dias em que pára nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à idéia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.


Murilo Mendes
(1901-1975)
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quinta-feira, setembro 16, 2010

Acerco-me de ti a passos lentos, medindo o gozo do teu respirar. Já que dormes, irei me revelar o início do teu ser, íntimo a ti, nos versos de amor de Murilo Mendes..



Mulher dormindo

No teu leito de silfos e de sonho
Dormes, pendida a máquina do braço.
Uma vasta arquitetura de montanhas
Ergue defronte a sua construção.

Acerco-me de ti a passos lentos,
Medindo o gozo do teu respirar.
Súbito, feroz, de mim se aparta
A forma com que antigamente fui.

Na verdade inda ignoro tua essência:
Uma nuvem de códigos nos envolve
Que tento decifrar nesse abandono

Do teu corpo, camélias e coral.
Já que dormes, irei me revelar
O início do teu ser, íntimo a ti.

Murilo Mendes
(1901-1975)

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terça-feira, setembro 07, 2010

Companheiro, eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma. Sou todos e sou um, somos todos poetas, no grito de Murilo Mendes.



Somos todos poetas

Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.


Murilo Mendes
(1901-1975)

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