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sexta-feira, outubro 30, 2009

Nossos inimigos dizem: a luta terminou. Mas nós dizemos: ela começou, ensina Bertolt Brecht em seus versos de luta.


Nossos inimigos dizem


Nossos inimigos dizem: A luta terminou.
Mas nós dizemos: ela começou.

Nossos inimigos dizem: A verdade está liquidada.
Mas nós dizemos: Nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: Mesmo que ainda se conheça a verdade
Ela não pode mais ser divulgada.
Mas nós a divulgamos.

É a véspera da batalha.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta.
É o dia antes da queda
De nossos inimigos.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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quinta-feira, agosto 13, 2009

Em seu elogio ao aprendizado, Bertolt Brecht diz para aqueles cuja hora chegou: Aprenda o mais simples! Nunca é tarde demais!


Elogio do aprendizado


Aprenda o mais simples! Para aqueles
Cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!

Aprenda, homem no asilo!
Aprensa, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Frequente a escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.

Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: o que é isso?
Você tem que assumir o comando.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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domingo, maio 24, 2009

Em plena ascensão do nazismo, Bertolt Brecht descobre algumas semelhanças entre governos e jovens artistas. Um poema para ser muito pensado.


O governo como artista

1

Na construção de palácios e estádios
Gasta-se muito dinheiro. Nisso
O governo se parece com o jovem artista que
Não teme a fome, quando se trata
De tornar seu nome famoso. No entanto
A fome que o governo não teme
É a fome de outros, ou seja
Do povo.

2.

Assim como o artista
O governo dispões de poderes sobrenaturais
Sem que lhe digam algo
Sabe de tudo. O que sabe fazer
Não aprendeu. Nada aprendeu.
Sua formação tem falhas, entretanto
É magicamente capaz
De em tudo interferir, tudo determinar
Também o que não compreende.

3.

Um artista pode, como se sabe, ser um tolo e no entanto
Ser um grande artista. Também nisso
O governo parece um artista. Dizem de Rembrandt
Que ele não pintaria de outra maneira, se tivesse nascido sem mãos.
Assim também pode-se dizer do governo
Que não governaria de outro modo
Talvez nascido sem cabeça.

4.

Espantoso no artista
É o dom da invenção. Quando ouvimos o governo
Descrevendo a situação, dizemos
Como inventa! Pela economia
O artista tem apenas desprezo, e bem assim
É notório como o governo despreza a economia. Naturalmente
Ele tem alguns ricos patronos. E como todo artista
Vive do dinheiro que arrecada.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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sábado, abril 04, 2009

Pouco antes do horror da guerra, Brecht dedicou este lindo poema aos que iam nascer. Para quando chegasse o momento do homem ser parceiro do homem.


Aos que vão nascer


1

É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar
Por acaso fui poupado (Se minha sorte acaba, estou perdido!)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso beber e comer, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d'água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

2

À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.

3

Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pemsem em nós
Com simpatia.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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sexta-feira, março 13, 2009

De que servem a bondade, a liberdade e a razão? Para tantas questões, Bertolt Brecht tem a resposta correta para os bons, os livres e os razoáveis.


De que serve a bondade


I

De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necesitam?

2

Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
ou melhor: que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!

Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio!

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O camponês faz tudo e depende do preço do leite. No poema de Bertolt Brecht, a dialética na relação entre o homem do campo e a gente das cidades.


O camponês cuida de seu campo


I

O camponês cuida de seu campo
Trata bem de seu gado, paga impostos
Faz filhos para poupar trabalhadores
E depende do preço do leite.
Os da cidade falam do amor à terra
Da saudável linhagem camponesa
E que o camponês é o alicerce da nação.

II

Os da sua cidade falam do amor à terra
Da saudável linhagem camponesa
E que o camponês é o alicerce da nação.
O camponês cuida de seu campo
Trata bem de seu gado, paga impostos
Faz filhos para poupar trabalhadores
E depende do preço do leite.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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sábado, janeiro 10, 2009

Brecht gostaria de oferecer ao seu filho uma juventude em que ele fosse brincar no bosque com os companheiros. Um poema que poderia ser de hoje.


Mau tempo para a juventude


Em vez de brincar no bosque com os companheiros
Meu filho se debruça sobre os livros
E lê de preferência
Sobre as negociatas dos financistas
E as carnificinas dos generais.
Quando lê que nossas leis
Proíbem aos pobres e aos ricos
Dormir sob as pontes
Ouço sua risada divertida.
Quando descobre que o autor de um livro foi subornado
Ilumina-se seu rosto jovem. Eu aprovo isso
Mas gostaria de poder lhe oferecer
Uma juventude em que ele
Fosse brincar no bosque com os companheiros.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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quinta-feira, dezembro 04, 2008

Por que deveria meu nome ser lembrado? Depois de muito pensar e fazer, Bertolt Brecht chegou a esta questão fundamental sobre a vida.


Por que deveria meu nome ser lembrado?


1
Outrora pensei: em tempos distantes
Quando tiverem ruído as casas onde moro
E apodrecido os navios em que viajei
Meu nome ainda será lembrado
Juntamente com outros.

2.
Porque louvei as coisas úteis, o que
no meu tempo era tido como vulgar
Porque combati as religiões
Porque lutei contra a opressão ou
Por um outro motivo.

3.
Porque fui a favor dos homens e tudo
Coloquei em suas mãos, honrando-os assim
Porque escrevi versos e enriqueci a língua
Porque ensinei o comportamento prático ou
Por qualquer outro motivo.

4.
Por isso achei que meu nome ainda seria
Lembrado, em um pedra
Estaria meu nome, retirado dos livros
Seria impresso nos novos livros.

5.
Mas hoje
Concordo em que seja esquecido
Por que
Perguntariam pelo padeiro, havendo pão suficiente?
Por que
Seria louvada a neve que já derreteu
Havendo outras neves para cair?
Por que
Deveria haver um passado, havendo
Um futuro?

6.
Por que
Deveria meu nome ser lembrado?

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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quarta-feira, novembro 12, 2008

Ao estudar a Bolsa de Chicago, Brecht percebeu o mal que essa gente causa aos outros. Um crime que leva, até os dias de hoje, a miséria aos povos.


Anos atrás

Anos atrás, quando ao estudar os procedimentos da Bolsa de Trigo de Chicago
Compreendi subitamente como eles administravam o trigo do mundo
E ao mesmo tempo não compreendi e abaixei o livro
Logo percebi: você
Deparou com coisa ruim.
Não havia irritação em mim, e não era a injustiça
Que me apavorava, apenas o pensamento
“Assim como eles fazem não pode ser” me tocou inteiramente.
Essa gente, eu percebi, vive do dano
Que causa aos outros, não do benefício.
Esta é uma situação, percebi, que somente pelo crime
Pode ser mantida, porque é muito ruim para a maioria.
Desse modo toda grande
Proeza da razão, invenção ou descoberta
Levará somente a uma miséria ainda maior.
Coisas assim e semelhantes pensei no momento
Distante de ódio ou lamento, ao abaixar o livro
Com a descrição do Mercado e da Bolsa de Trigo de Chicago.
Muito esforço e muito desassossego
Me esperavam.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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quinta-feira, outubro 30, 2008

Numa noite fria, nasceu uma criança nua. E também numa noite fria, cada homem amou a vida coberto por palmos de terra batida, no mundo de Brecht


Da amabilidade do mundo


1

Numa noite fria, nessa terra crua
Cada qual nasceu, uma criança nua.
E ali ficou, criatura sem dono
Quando uma mulher o envolveu num pano.

2

Ninguém o chamou, não era necessário.
Para trazê-lo não houve emissário.
Era um desconhecido, ser sem proteção
Quando um homem o tomou pela mão.

3

Numa noite fria, nessa terra crua
Cada qual leva a morte que é sua.
Cada homem certamente amou a vida
Coberto por palmos de terra batida.


Bertolt Brecht
(1898-1956)

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domingo, outubro 12, 2008

Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. Mas não podem privatizar o que só à humanidade pertence, grita Brecht.

Privatizado

Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário.
E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.

Bertolt Brecht

(1898-1956)

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domingo, setembro 14, 2008

Em Nova Iorque, todas as noites há um homem que arranja abrigo noturno para os que não tem teto. Mas Brecht sabe que o mundo não vai mudar com isso.


O abrigo noturno


Soube que em Nova Iorque
Na esquina da Rua 26 com a Broadway
Todas as noites do inverno há um homem
Que arranja abrigo noturno para os que ali não têm teto
Fazendo pedidos aos passantes.

O mundo não vai mudar com isso
As relações entre os homens não vão melhorar
A era da exploração não vai durar menos
Mas alguns homens têm um abrigo noturno
Por uma noite o vento é mantido longe deles
A neve que cairia sobre eles cai na calçada.
Não ponha de lado o livro, você que me lê.

O abrigo noturno
Alguns homens tem um abrigo noturno
Por uma noite o vento é mantido longe deles
A neve que cairia sobre eles cai na calçada
Mas o mundo não vai mudar com isso
As relações entre os homens não vão melhorar
A era da exploração não vai durar menos.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

quinta-feira, agosto 28, 2008

No poema de Bertolt Brecht, as respostas para as perguntas de um trabalhador que lê. Tantas histórias, tantas questões.


Perguntas de um trabalhador que lê


Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída -
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China
ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A decantada Bisâncio
Tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária
Atlântida
Os que se afogavam gritavam por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?.
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Felipe da Espanha chorou, quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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terça-feira, agosto 12, 2008

Já imaginou quantos enganadores estariam hoje empurrando carrinhos de mão se a proposta de Brecht fosse aceita? Quantos desses tagarelas você conhece?


Realizar algo de útil


Quando li que queimavam as obras
Dos que procuravam escrever a verdade
Mas ao tagarela George, o de fala bonita, convidaram
para abrir sua Academia, desejei mais vivamente
Que chegue enfim o tempo em que o povo solicite a um homem desses
Que num dos locais de construção dos subúrbios
Empurre publicamente um carrinho de mão com cimento, para que
Ao menos uma vez um deles realize algo de útil, com o que
Poderia então retirar-se para sempre
Para cobrir o papel de letras
Às custas do
Rico povo trabalhador

Bertolt Brecht
(1898-1956)

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sexta-feira, julho 25, 2008

Em suas peças, Brecht mostrou aquilo que sempre viu no mercado dos homens. Porque aprendeu que tudo se transforma e é próprio apenas do seu tempo.


Canção do escritor de peças


Eu sou o escritor de peças. Eu mostro
Aquilo que vi. Nos mercados dos homens
Eu vi como o homem é tratado. Isto
Eu mostro, eu, o escritor de peças.

Como entram uns nas casas dos outros, com planos
Ou com cassetetes ou com dinheiro
Como ficam nas ruas e esperam
Como preparam armadilhas uns para os outros
Cheios de esperança
Como marcam encontros
Como enforcam uns aos outros
Como se amam
Como defendem seus despojos
Como comem
Isto eu mostro.

As palavras que gritam uns aos outros, eu as registro.
O que a mãe diz ao filho
O que o empresário ordena ao empregado
O que a mulher responde ao marido
Todas as palavras corteses, as dominadoras
As suplicantes, as equívocas
As mentirosas, as inscientes
As belas, as ferinas
Todas eu registro.

Vejo tempestades de neve que se anunciam
Vejo terremotos que se aproximam
Vejo montanhas no meio do caminho
E vejo rios transbordando.
Mas as tempestades têm dinheiro na carteira
As montanhas desceram de automóveis
E os rios revoltos controlam policiais.
Isto eu revelo.

Para poder mostrar o que vejo
Leio as representações de outros povos e outras épocas.
Algumas peças adaptei, examinando
Com precisão e respectiva técnica, absorvendo
O que me convinha.
Estudei as representações das grandes figuras feudais
Pelos ingleses, ricos indivíduos
Aos quais o mundo servia para desenvolver a grandeza.
Estudei os espanhóis moralizadores
Os indianos, mestres das sensações belas
E os chineses, que retratam as famílias
E os destinos multicores encontrados nas cidades.

E tão rapidamente mudou em meu tempo
A aparência das casas e das cidades, que partir por dois anos
E retornar foi como uma viagem a outra cidade
E as pessoas em grande número mudaram a aparência
Em poucos anos. Eu vi
Trabalhadores adentrarem os portões da fábrica, e os portões eram altos
Mas ao saírem tinham de se curvar.
Então disse a mim mesmo:
Tudo se transforma e é próprio apenas de seu tempo.


Bertolt Brecht
(1898-1956)

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quinta-feira, julho 17, 2008

Para alguns, uma atitude crítica é infrutífera. Para Bertolt Brecht, dêem armas à crítica e estados podem ser destruídos.


On the critical attitude


The critical attitude
Strikes many people as unfruitful
That is because they find the state
Impervious to their criticism
But what in this case is an unfruitful attitude
Is merely a feeble attitude. Give criticism arms
And states can be demolished by it.

Canalising a river
Grafting a fruit tree
Educating a person
Transforming a state
These are instances of fruitful criticism
And at the same time instances of art.


Bertolt Brecht

(1898-1956)


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terça-feira, junho 17, 2008

No auge do nazismo, Bertolt Brecht alerta para o perigo que a propaganda representa para os povos. Infelizmente, uma lição não aprendida até hoje.


Necessidade da propaganda

1

É possível que em nosso país nem tudo ande como deveria andar.

Mas ninguém pode negar que a propaganda é boa.

Mesmo os famintos devem admitir

Que o Ministro da Alimentação fala bem.

2

Quando o regime liquidou mil homens

Num único dia, sem investigação nem processo

O Ministro da Propaganda louvou a paciência infinita do Führer

Que havia esperado tanto para ter a matança

E havia acumulado os patifes de bens e distinções

Fazendo-o num discurso tão magistral, que

Naquele dia não só os parentes das vítimas

Mas também os próprios algozes choraram.

3

E quando em um outro dia o maior dirigível do Reich

Se desfez em chamas, porque o haviam enchido de gás inflamável

Poupando o gás não-inflamável para fins de guerra

O Ministro da Aeronáutica prometeu diante dos caixões dos mortos

Que não se deixaria desencorajar, o que ocasionou

Uma grande ovação. Dizem que houve aplausos

Até mesmo de dentro dos caixões.

4

E como é exemplar a propaganda

Do lixo e do livro do Führer!

Todo mundo é levado a recolher o livro do Führer

Onde quer que esteja jogado.

Para propagar o hábito de juntar trapos*, o poderoso Gõring

Declarou-se o maior “juntador de crápulas” de todos os tempos

E para acomodar os crápulas* fez construir

No centro da capital do Reich

Um palácio ele mesmo do tamanho de uma cidade.

5

Um bom propagandista

Transforma um monte de esterco em local de veraneio.

Quando não há manteiga, ele demonstra

Como um talhe esguio faz um homem esbelto.

Milhares de pessoas que o ouvem discorrer sobre as auto-estradas

Alegram-se como se tivessem carros.

Nos túmulos dos que morreram de fome ou em combate

Ele planta louros. Mas já bem antes disso

Falava de paz enquanto os canhões passavam.

6

Somente através de propaganda perfeita

Pôde-se convencer milhões de pessoas

Que o crescimento do Exército constitui obra de paz

Que cada novo tanque é uma pomba da paz

E cada novo regimento uma prova de

Amor à paz.

7

Mesmo assim: bons discursos podem conseguir muito

Mas não conseguem tudo. Muitas pessoas

Já se ouve dizerem: pena

Que a palavra “carne” apenas não satisfaça, e

Pena que a palavra “roupa” aqueça tão pouco.

Quando o Ministro do Planejamento faz um discurso de louvor à nova impostura

Não pode chover, pois seus ouvintes

Não têm com que se proteger.

8

Ainda algo mais desperta dúvidas

Quanto à finalidade da propaganda: quanto mais propaganda há em nosso país

Tanto menos há em outros paises.


Bertolt Brecht

(1898-1956)

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quarta-feira, abril 23, 2008

Depois de tantos considerandos, Brecht grita em versos o lema de todos os trabalhadores:de agora em diante, temeremos mais a miséria do que a morte.


Resolução

I

Considerando nossa fraqueza
Os senhores forjaram suas leis
Para nos escravizarem
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

II

Considerando que ficaremos famintos
Se suportarmos que continuem nos roubando
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças
Que nos separam deste bom pão que nos falta.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

III

Considerando que existem grandes mansões
Enquanto os senhores nos deixam sem teto
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos
Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

IV

Considerando que está sobrando carvão
Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão
Nós decidimos que vamos toma-lo
Considerando que ele nos aquecerá.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

V

Considerando que para os senhores não é possível
Nos pagarem um salário justo
Tomaremos nós mesmos as fábricas
Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.
Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

VI

Considerando que o que o governo nos promete sempre
Está muito longe de nos inspirar confiança
Nós decidimos tomar o poder
Para podermos levar uma vida melhor.
Considerando: vocês escutam os canhões -
Outra linguagem não conseguem compreender -
Deveremos então, sim, isso valerá a pena
Apontar os canhões contra os senhores!


Bertolt Brecht
(1898-1956)

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quinta-feira, março 06, 2008

Bertolt Brecht foi chamado de traidor pelos da sua classe, gente abastada. Só porque contou ao povo, em linguagem comum, quem era mesmo aquela gente.


Expulso por bom motivo


Eu cresci como filho
De gente abastada. Meus pais
Me colocaram um colarinho, e me educaram
No hábito de ser servido
E me ensinaram a dar ordens. Mas quando
Já crescido, olhei em torno de mim
Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
À gente pequena.

Assim
Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
Suas artes, e ele
Denuncia-os ao inimigo.
Sim, eu conto seus segredos. Fico
Entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
Estou instruído em seus planos.
O latim de seus clérigos corruptos
Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,

Então
Ele se revela uma farsa. Tomo
A balança da sua justiça e mostro
Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
Que me encontro entre os despossuídos, quando
Tramam a revolta.
Eles me advertiram e me tomaram
O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
Eles foram me caçar, mas
Em minha casa
Encontraram apenas escritos que expunham
Suas tramas contra o povo. Então
Enviaram uma ordem de prisão
Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
As idéias da gente baixa.
Aonde vou sou marcado
Aos olhos dos possuidores.
Mas os despossuídos
Lêem a ordem de prisão
E me oferecem abrigo. Você, dizem
Foi expulso por bom motivo.

Bertolt Brecht

(1898-1956)

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domingo, janeiro 27, 2008

O homem ainda vai ser bom para o homem. Aí, lembrai-vos de nós, como pediu Bertolt Brecht.


Aos que vierem depois de nós


Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fonte sem rugas
denota insensibilidade.
Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo.

Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, - espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Bertolt Brecht

(1898-1956)