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sábado, março 28, 2009

Para Schmidt, sua despedida é um desespero que só alguns entenderão. Porque o amor foi a infância distante, a pátria perdida e a moça que não volta.


Despedida


Os que seguem os trens onde viajam moças muito doentes com os olhos chorando
Os que se lembram da terra perdida, acordados pelos apitos dos navios
Os que encontram a infância distante numa criança que brinca
Estes entenderão o desespero da minha despedida.
Porque este amor que vai viajar para a última estação da memória
Foi a infância distante, foi a pátria perdida, e a moça que não volta.


Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Eu te direi as grandes palavras. As que conjugam com as grandes verdades e saem do sentimento mais fundo, diz ao seu amor Augusto Frederico Schmidt.


Compreensão


Eu te direi as grandes palavras,
As que parecem sopradas de cima.
Eu te direi as grandes palavras,
As que conjugam com as grandes verdades,
E saem do sentimento mais fundo,
Como os animais marinhos das águas lúcidas.
Eu te direi a minha compreensão do teu ser,
E sentirei que te transfiguras a ti mesmo revelada.
E sentirei que te libertei da solidão
Porque desci ao teu ser múltiplo e sensível.
Quero descer às tuas regiões mais desconhecidas
Porque és minha Pátria
As tuas paisagens são as da minha saudade.
Quero descer ao teu coração como se descesse ao mar,
Quero chegar à tua verdade que está sobre as águas.
Quero olhar o teu pensamento que está sobre as águas
E é azul
Como este céu cortado pelas aves,
Como este céu limpo e mais fundo que o mar.
Quero descer a ti e ouvir
As tuas manhãs acordadas pelos galos.
Quero ver a tua tarde banhada de róseo como nuvens frágeis
tangidas pelo ventos
Quero assistir à tua noite e ao sacrifício dos teus martírios.
Oh! estrela, oh! música,
Oh! tempo, espaço meu!

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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quarta-feira, janeiro 07, 2009

Nos versos de amor de Augusto Frederico Schmidt, há um grande momento. É quando os olhos dele conseguem entrar pela noite fresca dos olhos da amada.


O grande momento


A varanda era batida pelos ventos do mar
As árvores tinham flores que desciam para a
morte, com a lentidão das lágrimas.
Veleiros seguiam para crepúsculos com as
asas cansadas e brancas se despedindo,
O tempo fugia com uma doçura jamais de
novo experimentada
Mas o grande momento era quando os meus
olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus olhos...

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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quarta-feira, dezembro 03, 2008

Que lua embranqueceu os teus cabelos? Foram inúmeras luas de quem os céus e o mar nem mais se lembram, no poema de amor de Augusto Frederico Schmidt.


Que lua embranqueceu...


Que lua embranqueceu os teus cabelos?
Não; foram muitas luas,
Luas de muitos feitios,
Luas hoje caducas.
Não foi só esta lua.
Foram muitas, tantas!
Não esta pejada lua, apenas,
Que descendo sobre os teus cabelos
Os tormou tão brancos!
Foram inúmeras luas de quem os céus
E o mar nem mais se lembram.
Muita água de lua
Lavou os teus cabelos,
Luas de velórios, magras e curvas,
Luas de bodas enfeitadas de rendas,
Luas viajeiras, que o vento parecia levar,
Como veleiros frágeis sobre as águas.
Luas de velórios, de noites brancas,
De doenças e agonias
Envoltas em véus.

Foram muitas luas , que tornaram
Brancos os teus cabelos.
Foram as luas dos primeiros bailes,
Dos primeiros amores.
Dos primeiros encontros humildes.
Foram as luas das vigílias,
Que te ajudaram a embalar,
Que te ajudaram a fazer dormir
Os frutos alheios que amaste,
Com a douçura da tua maternidade irrealizada.
Foram muitas luas que fizeram assim
Brancos os teus cabelos.


Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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segunda-feira, novembro 10, 2008

Quero morrer de noite. E quando todos souberem que nunca mais volverei, haverá um segundo de compreensão absoluta, diz Schimdt em seu lindo poema.


A partida


Quero morrer de noite.
As janelas abertas
Os olhos a fitar a noite infinda

Quero morrer de noite.
Irei me separando aos poucos
Me desligando devagar.
A luz das velas envolverá meu rosto lívido.

Quero morrer de noite.
As janelas abertas.
Tuas mãos chegarão aos meus lábios
Um pouco de água
E os meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos.
Os que virão, os que ainda não conheço.
Estarão em silêncio,
Os olhos postos em mim.

Quero morrer de noite.
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.

Aos poucos me verei pequenino de novo, muito pequenino.
O berço se embalará na sombra de uma sala
E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.
Uma luz vermelha iluminará um grande dormitório
E passos ressoarão quebrando o silêncio.
Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada...

Quero morrer de noite.
As janelas abertas
Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo.

E quando todos souberem que já não estou mais
E que nunca mais volverei
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão, de compreensão absoluta.


Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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quinta-feira, outubro 23, 2008

O amor ficava próximo, muitas vezes ouvíamos sua voz ansiosa. Sabíamos que ele estava triste, queria que fôssemos um único ser, na paixão de Schmidt.


O amor ficava próximo

O amor ficava próximo.
Muitas vezes ouvíamos
Sua voz ansiosa
Procurando se revelar,
Ouvíamos o seu frêmito.
Sabíamos que ele estava triste
Por não rompermos as fronteiras
Que nos separavam.
Ele queria a fusão absoluta
E impossível.
Queria que sentíssemos
indistintamente
Que fôssemos um único ser,
Que nos confundíssemos
E nos penetrássemos.
No entanto, raramente,
Vivíamos a unidade.
Nossas almas pousavam
Raramente no mesmo galho,
E embora vivêssemos no mesmo ninho
Tínhamos consciência de que nos preparávamos
Para os grandes vôos
Solitários.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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terça-feira, setembro 23, 2008

Encontraremos o amor depois que um de nós abandonar os brinquedos. E que nos tivermos despedido, separados pelos caminhos, diz com tristeza Schmidt.

Poema

Encontraremos o amor depois que um de nós abandonar
os brinquedos.
Encontraremos o amor depois que nos tivermos despedido
E caminharmos separados pelos caminhos.
Então ele passará por nós,
E terá a figura de um velho trôpego,
Ou mesmo de um cão abandonado,

O amor é uma iluminação, e está em nós, contido em nós,
E são sinais indiferentes e próximos que os acordam do
seu sono subitamente.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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quinta-feira, agosto 28, 2008

Para Augusto Frederico Schmidt, ela não é apenas o seu amor. Ela é tantas coisas, é tudo que é simples e tranquilo, é o bom fogo que Deus lhe deu.


Poesia a galope


Não és apenas o meu amor:
És meu trigo batido,
És a substância de meu pão.

Não és apenas o meu amor,
Mas o calor volta contigo
E voltam as flores sorrindo na terra.

Não és apenas o meu amor:
És uma janela sobre a alba
E me dás pássaros e música.

Não és apenas o meu amor:
És o fim da grande caminhada
Com as primeiras paisagens amigas.

Não és apenas o meu amor:
És a infância madura, o silêncio
Cheio de música, a primeira palpitação,
O sinal da pequena esperança sorrindo
Depois de um longo tempo impenetrável.
E tudo que é simples e tranqüilo:
És o bom fogo que Deus me deu.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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quarta-feira, julho 30, 2008

Por que chorar, por que meu Deus? Feliz e pobre em seus versos, Augusto Frederico Schmidt ainda pergunta, por que chorar?


Por que chorar?


Por que chorar se o céu está róseo
Se as flores estão nas trepadeiras balançando,
ao sopro leve do vento?

Por que chorar se há felicidade nos caminhos,
Se há sinos batendo nas aldeias de Portugal?
Por que chorar se os meninos estão nos circos
Se a poesia está rolando nas pedras da serra do nunca mais?
Por que chorar se há clarinetes entardecendo
Se há missas no fundo do Brasil?
Por que chorar se há virgens morrendo
Se há doentes sorrindo
Se há estrelas no céu de junho
Por que chorar se há jasmins nos caminhos
E moças de branco namoradas
Por que chorar?
Por que - meu Deus, se estou feliz e pobre,
Feliz como os pobres desconhecidos dos hospitais
Feliz com os cegos para quem a luz é mais bela do que a luz

Feliz como os mendigos alimentados
Feliz como os desamados que tiveram um beijo
Feliz como as velhas dançarinas aplaudidas de repente
Feliz como um prisioneiro dormindo
Por que chorar?


Augusto Frederico Schmidt

(1906-1965)


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quinta-feira, julho 03, 2008

Quando o momento da morte vier, trarei nos lábios um sorriso bem satisfeito. Porque já chega de sofrimento, não posso mais, diz Augusto Schmidt.


Não posso mais


Trarei nos lábios, quando o momento
Da morte vier,
Um bom sorriso bem satisfeito –
Porque já chega de sofrimento,
Não posso mais.

Trarei no olhos, quando o momento
Da morte vier,
Outra alegria e outro interesse –
Porque já chega deste momento,
Não posso mais.

Trarei no peito, quando o momento
Da morte vier,
Outra bondade e outro carinho –
Porque já chega de tanto espinho,
Não posso mais.

Que a morte venha consoladora,
Que a espero agora sem vão temor –
Basta de tantos sonhos humanos
Que se transformam em desenganos,
Não posso mais.


Augusto Frederico Schmidt

(1906-1965)

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terça-feira, junho 10, 2008

Ele era da raça dos que suportam todo o peso da vida e ninguém amou mais do que ele amou. Para Schmidt, ele era da raça dos heróis obscuros.


Retrato

Ele era da raça dos que suportam
Todo o peso da vida,
Era da dos que não se queixam
Dos que sorriem diante do destino adverso.

Viveu em silêncio grandes horas amargas
E ninguém conheceu as devastações,
O efeito dos golpes que lhe foram vibrados.

As sua ruínas, os seus deuses mutilados,
Os túmulos que estavam nele
Ninguém desvendou,
Tudo ficou escondido,
Tudo ficou defendido
Pela sua máscara tranquila.

No entanto ninguém amou
Mais profundamente do que ele amou,
E ninguém terá recolhido maior melancolia
E maior incompreensão
Do amor.
Ninguém desejou mais a companhia dos seus semelhantes,
Ninguém teve mais necessidade do calor amigo,
Do apoio, do aplauso, da solidariedade humana.
No entanto - sua vida se consumiu na solidão, no desamparo e na indiferença.

A amargura não fermentou sua alma,
O ressentimento não dominou jamais sua visão simples das coisas,
Ele era da raça dos heróis obscuros.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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terça-feira, maio 20, 2008

Se estivesses aqui, ninguém te descobriria agora que a noite é escura. E Augusto Frederico Schmidt pergunta ao seu amor, por que não vens?


Solidão


Sem palavras espiaríamos os prédios enormes,
Os anúncios enormes
E os homens tão pequenos,
E os homens tão pequenos
Se estivesses aqui.

Eu te olharia, amor, longamente
Como se fôsses minha mãe ou minha irmã,
E não teria os maus pensamentos que tenho
Se estivesses aqui.

Não teria a grande tristeza que tenho agora,
O grande desamparo
E a grande solidão,
Não me sentiria assim tão pequenino
Na cidade tão grande
Se estivesses aqui.

Por que não vens?
Ninguém te descobriria agora que a noite é escura.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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terça-feira, maio 06, 2008

Longe de ti, o mundo avança e o tempo cai. E eu penso em ti, só penso em ti, só vivo em ti como um perdido. E não respiro nem me aquieto longe de ti.


Longe de Ti


O mundo avança
O tempo cai
Pesado, grávido, maduro,
E eu penso em ti.
A guerra, enfim, o seu mistério
Revela e aclara.
A onda cresce
E eu penso em ti.
A aspiração sempre contida
Desaba enfim violenta e grave,
E se transforma em força imensa
E eu penso em ti.
Como integrar-me nesta luta
E interpretar o mundo virgem
Se penso em ti?
Se em ti me abismo, em teu mistério,
No teu destino brusco e triste,
Se vivo a angústia, o desespero
Da tua ausência?
Se o auxílio teu é meu destino,
Como sentir a dor do tempo,
Como cantar o tempo novo,
As energias e os avanços,
As libertárias esperanças,
Se em tal prisão me tens sujeito,
Se vivo em ti, como um perdido,
Se não respiro, nem me aquieto
Longe de ti?

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1995)

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quarta-feira, abril 23, 2008

Em um dos seus mais belos poemas de amor, Augusto Frederico Schmidt diz em versos à sua amada: eu nem quero te amar, porque te amo demais.


De Amor

Chegaria tímido e olharia tua casa,
A tua casa iluminada.
Teria vindo por caminhos longos
Atravessando noites e mais noites.

Olharia de longe o teu jardim.
Um ar fresco de quietação e repouso
Acalmaria a minha febre
E amansaria o meu coração aflito.

Ninguém saberia do meu amor:
Seria manso como as lágrimas,
Como as lágrimas de despedida.

Meu amor seria leve como as sombras.

Tanto receio de te amar, tanto receio...
A sombra do meu amor
Poderia agitar teu sono, pertubar o teu sossego...

Eu nem quero te amar, porque te amo demais.


Augusto Frederico Schmidt

(1906-1965)

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terça-feira, março 25, 2008

Schmidt sente que há no seu ser uma unidade tão perfeita que perde a noção da hora presente. E então diz, sou o que fui e sou o que serei.

Sou o que serei

Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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sexta-feira, março 07, 2008

Para Augusto Frederico Schimdt, quando ele morresse o mundo continuaria o mesmo. Não sabia ele o quanto seus lindos versos estavam errados.


Quando Eu Morrer

Quando eu morrer o mundo continuará o mesmo,
A doçura das tardes continuará a envolver as coisas todas.
Como as envolve agora neste instante.
O vento fresco dobrará as árvores esguias
E levantará as nuvens de poesia nas estradas...

Quando eu morrer as águas claras dos rios rolarão ainda,
Rolarão sempre, alvas de espuma
Quando eu morrer as estrelas não cessarão de acender-se
no lindo céu noturno,
E nos vergéis onde os pássaros cantam as frutas
continuarão a ser doces e boas.

Augusto Frederico Schmidt

(1906-1965)

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terça-feira, fevereiro 19, 2008

Supreendido pela ternura, Augusto Frederico Schmidt se sente tocado pelo espanto do amor. E vencido pela certeza de que findara sua longa solidão.


O fim da solidão


A borboleta amarela e preta
Se agitava, dançava, tremia
Em torno do ser esguio, mortificado
Pelo frio do mundo.

Era já na hora indecisa, mas um sol
Retardatário manchava de ouro o chão sombrio.

Revejo a face escura e pálida
Manchada pelo líquen, pelo pó
Das velhas folhas.

Revejo o olhar inocente e duro
Subitamente surpreendido pela ternura,
O olhar prisioneiro do tempo cruel,
Tocado pelo amor, animado pelo espanto do amor,
O olhar de fugitivo do abandonado,
De repente vencido pela certeza de que
Findara sua longa solidão.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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quarta-feira, janeiro 16, 2008

Augusto Frederico Schmidt traçou em versos o retrato de um desconhecido. Um desconhecido que ele não sabia se era outro ou se nasceu dele mesmo.


Retrato do desconhecido

Ele tinha uns ombros estreitos, e a sua voz era tímida,
Voz de um homem perdido no mundo,
Voz de quem foi abandonado pelas esperanças,
Voz que não manda nunca,
Voz que não pergunta,
Voz que não chama,
Voz de obediência e de resposta,
Voz de queixa, nascida das amarguras íntimas,
Dos sonhos desfeitos e das pobrezas escondidas.

Há vozes que aclaram o ser,
Macias ou ásperas, vozes de paixão e de domínio,
Vozes de sonho, de maldição e de doçura.
Os ombros eram estreitos,
Ombros humildes que não conhecem as horas de fogo do
amor inconfundível,

Ombros de quem não sabe caminhar,
Ombros de quem não desdenha nem luta,
Ombros de pobre, de quem se esconde,
Ombros tristes como os cabelos de uma criança morta,
Ombros sem sol, sem força, ombros tímidos,
De quem teme a estrada e o destino
De quem não triunfará na luta inútil do mundo:
Ombros nascidos para o descanso das tábuas de um caixão,
Ombros de quem é sempre um Desconhecido,
De quem não tem casa, nem Natal, nem festas;
Ombros de reza de condenado,
E de quem ama, na tristeza, a sombra das madrugadas;
Ombros cuja contemplação provoca as últimas lágrimas.

Os seus pés e as suas mãos acompanhavam os ombros
num mesmo ritmo.
Mãos sem luz, mãos que levam à boca o alimento
sem substância,
Mãos acostumadas aos trabalhos indolentes,
Mãos sem alegria e sem o martírio do trabalho.
Mãos que nunca afagaram uma criança,
Mãos que nunca semearam,
Mãos que não colheram uma flor.
Os pés, iguais às mãos
— Pés sem energia e sem direção,
Pés de indeciso, pés que procuram as sombras e o esquecimento,
Pés que não brincaram, pés que não correram.

No entanto os olhos eram olhos diferentes.
Não direi, não terei a delicadeza precisa na expressão
para traduzir o seu olhar.
Não saberei dizer da doçura e da infância daqueles olhos,
Em que havia hinos matinais e uma inocência, uma tranqüilidade,
um repouso de mãos maternas.

Não poderei descrever aquele olhar,
Em que a Poesia estava dormindo,
Em que a inocência se confundia com a santidade.
Não poderei dizer a música daquele olhar que me surpreendeu um dia,

Que se abriram diante de mim como um abrigo,
E que me trouxe de repente os dias mortos,
Em que me descobri como outrora,
Livre e limpo, como no princípio do mundo,
Envolvido na suavidade dos primeiros balanços,
Sentindo o perfume e o canto das horas primeiras!
Não direi do seu olhar!

Não direi do seu olhar!
Não direi da sua expressão de repouso!
Ainda não sei se era dele esse olhar,
Ou se nasceu de mim mesmo, num rápido instante de paz
e de libertação!

Augusto Frederico Schimdt
(1906-1965)

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quinta-feira, novembro 29, 2007

Quero morrer de noite, as janelas abertas, os olhos a fitar a noite infinda.E minha alma sairá para bem longe de tudo, diz Augusto Frederico Schmidt.


A partida


Quero morrer de noite.
As janelas abertas
Os olhos a fitar a noite infinda

Quero morrer de noite.
Irei me separando aos poucos
Me desligando devagar.
A luz das velas envolverá meu rosto lívido.

Quero morrer de noite.
As janelas abertas.
Tuas mãos chegarão aos meus lábios
Um pouco de água
E os meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos.
Os que virão, os que ainda não conheço.
Estarão em silêncio,
Os olhos postos em mim.

Quero morrer de noite.
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.

Aos poucos me verei pequenino de novo, muito pequenino.
O berço se embalará na sombra de uma sala
E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.
Uma luz vermelha iluminará um grande dormitório
E passos ressoarão quebrando o silêncio.
Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada...

Quero morrer de noite.
As janelas abertas
Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo.

E quando todos souberem que já não estou mais
E que nunca mais volverei
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão, de compreensão absoluta.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

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segunda-feira, novembro 05, 2007

A chuva molhava os seus cabelos, voluptuosamente, até as raízes. Nos versos de Frederico Schmidt, ela era uma árvore, molhada e coberta de flores.


A chuva nos cabelos

A chuva molhava os seus cabelos,
A chuva descia sobre os seus cabelos
Voluptuosamente.
A chuva chorava sobre os seus cabelos,
Macios,
A chuva penetrava nos seus cabelos,
Profundamente,
Até as raízes!

Ela era uma árvore,
Uma árvore molhada
E coberta de flores.

Augusto Frederico Schmidt

(1906-1965)

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